quarta-feira, 25 de março de 2009

Inclusão e talento: Uma questão de justiça

Texto de Rosemeire Rangni sobre a inclusão de pessoas com deficiência no sistema escolar e social...
Rede Saci
24/03/2009
www.saci.org.br


Comentário SACI: Rosemeire de A. Rangni é Pedagoga, Especialista em altas habilidades/superdotação, Mestre em Educação, Professora de Língua Inglesa, Membro da Comissão Executiva do Fórum Permanente de Educação Inclusiva – Região Oeste.

Falar de inclusão remete-nos a pensar em seu paradoxo, o processo de exclusão. A inclusão não seria discutível se a exclusão não persistisse nos aspectos: étnico, cultural, educacional e social, que a sociedade insiste em produzir.

Nesta direção, este breve texto tem a finalidade de apresentar uma reflexão sobre a inclusão das pessoas com necessidades educativas especiais no sistema escolar e social. Digo no sistema social porque a escola é uma célula da sociedade e como tal deve acolher todas as crianças, jovens e adultos com deficiência, transtornos globais de desenvolvimento e altas habilidades/superdotação conforme determinam os documentos legais.

No caminho do dever legal, a Lei de Diretrizes e Bases 9394/96, a Resolução nº 02/2001 e, recentemente, a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva, 2008 reafirmam o compromisso de que o sistema escolar deve estar preparado para atuar com eficiência no recebimento dos educandos com necessidades especiais que ora chegam das instituições especiais e que, por contingências excludentes, não tiveram o direito à educação em escola comum.

No caminho inverso, os educandos com altas habilidades estão, de fato, integrados nas escolas sem ter, porém, seus talentos reconhecidos. Essa parcela de alunos mantém-se invisível nas salas de aula e, quando os professores detectam sinais de seus talentos, sentem-se impotentes para qualquer intervenção, que proporcione satisfação de suas necessidades educativas especiais. Desse modo, essas crianças, jovens ou adultos muitas vezes, mantêm seu desempenho nivelado à "média" desejada pelo sistema, evadem-se ou criam situações de indisciplina. Os alunos com atas habilidades são em muitas ocasiões, discriminados pelos colegas, preferindo esconder seus talentos e suas frustrações.

O Censo Escolar (2006) aponta, pelo menos, setecentas mil matrículas de alunos com necessidades educativas especiais no Brasil, sendo os alunos com altas habilidades um ínfimo número deste total (cerca de 2.769). A Organização Mundial de Saúde (OMS) pontua que 3,5 a 5% de qualquer população possui capacidade acima da média, pelo menos em dois domínios: lógico matemático e verbal, sem contar a inteligência geral, a criatividade, o talento psicomotor e artístico, o que demonstra a probabilidade maior de talentosos do que a identificada nas escolas, até então.

Se qualquer população pode ser superdotada, então, por conclusão, os alunos com deficiência ou transtorno global do desenvolvimento matriculados no sistema, podem também possuir capacidade superior, ou seja, dupla necessidade especial.

Assim, o olhar dos educadores nas escolas, bem como dos gestores das políticas públicas deve se voltar à questão, no sentido de identificar e oportunizar o desenvolvimento dos talentos de cada uma das crianças, inclusive daquelas que, por ventura, apresentarem alguma deficiência. Só com essa consciência poderemos evitar injustiças e diminuir o grande desperdício educacional, por não levar em conta que as crianças são diferentes em suas necessidades e possibilidades de aprender.

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