quarta-feira, 10 de junho de 2009

“Eu posso ter uma capacidade de fazer coisas que os ditos normais não conseguem”

Texto fala sobre a deficiência e os obstáculos à inclusão.

"Coitadinho do cego" é uma expressão que se ouve com regularidade, mas que não se adequa a João Almeida. A energia e a força de vontade que mostra ter em qualquer actividade que desempenha no dia-a-dia fazem com que ele se sinta feliz apesar da falta de visão que o persegue desde o dia em que sofreu um acidente de viação. Oito de Dezembro de 2001 foi o dia que marcou a sua vida. Após um acidente de carro sofreu um traumatismo craniano e ficou cego. Mas, não foi a perda de um dos sentidos mais importantes do ser humano que o fez desistir de lutar pela vida com os quatro que lhe restaram. "Eu sou diferente porque não tenho uma coisa que a maioria das pessoas tem: não vejo. Mas eu posso ter uma capacidade de fazer coisas que os ditos normais não conseguem", explica João Almeida.

Apesar da memória visual das pessoas e dos objectos que viu ficarem para sempre, agora as pessoas com quem convive são identificadas pela voz.

A diferença nunca foi um obstáculo e discriminação é uma palavra que não entra no seu vocabulário. "Não me acho discriminado. O deficiente só se considera discriminado se ele não se integrar".

Em casa não está parado. Quando se levanta prepara o pequeno-almoço para a filha e para a namorada que é amblíope e tem apenas 30 por cento de visão. A filha, que João teve com a ex-mulher, é a única lá em casa que não tem problemas visuais. No entanto, consideram-se todos iguais. "Eu não vou utilizar a minha filha para me desenrascar". É o lema lá em casa. Por vezes, quando surgem documentos com letras mais pequenas que a namorada não consegue ler João pede ajuda à filha, "mas só em coisas deste género".

A organização é essencial na vida de um invisual. Na cozinha, João Almeida confessa que faz de tudo. "Só não faço doces porque não ligo muito", afirma. Existem técnicas que utiliza para saber quando a comida está pronta e também se baseia muito no temporizador para confeccionar os pratos. No entanto, não é possível trabalhar correctamente na cozinha, ou em qualquer outro espaço, se não estiver sempre tudo organizado. "Lá em casa não pode haver desarrumação para que seja possível encontrar as coisas", refere.

A roupa que veste é escolhida por si. No armário guarda tudo por secções. Com alguns truques consegue identificar a marca, as cores e o tecido. "Quando tenho duas camisolas de marcas diferente mas da mesma cor, se as etiquetas forem iguais - o que normalmente não acontece - cozo uma bolinha na etiqueta de uma delas para as distinguir", explica.

Preconceitos das empresas complicam a vida aos deficientes na procura de emprego. Ganhar o euro milhões não é, como acontece à maior parte das pessoas, o grande sonho de João. Para o futuro, a coisa melhor que lhe podia acontecer era arranjar emprego. "Com um emprego conseguia ter uma vida mais estável", afirma. Ficou desempregado depois de ter o acidente e até hoje ainda não conseguiu encontrar um novo local de trabalho. Já realizou alguns estágios e várias formações, mas as portas para um novo emprego teimam em não se abrir. "Muitas vezes as empresas e as pessoas em si não se querem abrir a receber pessoas com deficiência", lamenta João Almeida. "O que é que ele vai fazer? Se calhar vou ter que andar aqui com ele de braço dado para aqui e para ali", esta é a mentalidade que João Almeida considera que muitas empresas têm sobre os invisuais. A lei obriga a que cinco por cento dos elementos de uma empresa sejam portadores de deficiência. Mas nem sempre isso é cumprido.

O computador que utiliza não é diferente dos restantes, apenas tem um software específico que lê tudo o que aparece no ecrã. João Almeida passou a ter mais entraves no seu caminho, mas garante que com os meios que existem actualmente consegue fazer quase tudo. "Não podemos ser preguiçosos nem comodistas, nós, deficientes, temos que lutar pelos nossos objectivos", apela.

Um amigo chamado Myle. João Almeida deixou para trás a bengala e optou pela companhia de Myle, o seu cão guia, que o permitiu tornar-se mais independente e ter uma maior mobilidade. Não é Myle que segue João Almeida, mas sim ao contrário. Com ele conseguiu diminuir o tempo que demorava em cada trajecto e ultrapassar mais facilmente os obstáculos que encontra pelo caminho.

À ordem de João, Myle segue até ao Pinto, um café que habitualmente frequentam. Nos degraus pára, nos postes desvia-se, e quando chega ao local é saudado pelo dono. Mas também é repreendido quando se porta mal.

João Almeida refere que o obstáculo que mais o atrapalhava são as pessoas. E conta que em Lisboa já lhe aconteceu querer sair numa paragem de autocarro e uma senhora lhe dizer que não podia sair naquele sítio, porque essa não era a saída da associação de invisuais. "Mas eu é que sabia para onde queria ir", respondeu indignado. "As pessoas também andam sempre a dizer ‘cuidado com o degrau que pode cair’ mas, um invisual quando precisa de ajuda pede, é isso que eu digo sempre às pessoas".

Os cães são normalmente atribuídos apenas a invisuais que estão empregados, visto que, acarretam grandes despesas. Na altura em que ficou com Myle, João Almeida estava desempregado, mas devido ao facto de ser muito activo abriu-se uma excepção. Quando o cão chegar à idade da reforma, que se atinge entre os nove e os dez anos, começa a perder capacidades e terá que ser substituído. Contudo, João Almeida garante que não quer perder o amigo e que vai ficar com Myle até ele morrer.

A força de vontade é o alimento que faz com que João Almeida continue a viver normalmente a sua vida e não se tenha deixado abalar pelo acidente que em 2001 lhe roubou a visão.

Jornal do Centro
Portugal, 09/06/2009
Publicado em 05/06/09

Nenhum comentário: