quinta-feira, 18 de junho de 2009

Grupo de mães faz abaixo-assinado para tirar menino com deficiência de escola.

Apesar da revolta, pai e mãe nem cogitam tirar o menino da instituição.

Para a mãe, B., de apenas 4 anos, é o príncipe azul. Para os educadores da escola onde o menino estuda, ele é sinônimo de afetividade. No entanto, para um grupo de pais de alunos, o garoto representa perigo, ameaça e até mesmo risco de vida para os filhos. A criança, que está no meio de uma briga em que sobram acusações de intolerância e preconceito, é portadora de uma deficiência que afeta a comunicação e o desenvolvimento. Nem por isso deixou de estudar na escola Polo Eustáquio Júnio Matosinhos, de Contagem, na Grande Belo Horizonte, onde divide a sala de aula com colegas da mesma idade, portadores de deficiência ou não.

Há duas semanas, essa inclusão tornou-se problema para um grupo formado por 20 mães. Alegando que o menino é agressivo com os demais colegas, as mulheres, sob argumento de proteger os próprios filhos, recolheram assinaturas e procuraram o Conselho Tutelar da Criança e do Adolescente do município e a Secretaria Municipal de Educação, exigindo medidas eficazes para o comportamento do garoto. “Elas ficaram nervosas. Foram para a porta do colégio e disseram que, se a escola não tirasse B. daqui, tirariam os filhos”, conta a vice-diretora da escola, Leila Doris. Ela afirma que a instituição foi irredutível: “Não aceitamos retirá-lo, mesmo porque trabalhamos com a inclusão. Atualmente, temos quatro portadores de deficiência aqui e retirá-los seria justamente ir contra o que lutamos”, destaca.

Leila conta que, além do abaixo-assinado, as mães, ao buscarem os filhos, diziam a eles para não brincar com aquele “doidinho”. “É um preconceito sem limites”, acrescenta a vice-diretora. Para solucionar a situação, no sábado passado as mulheres e os pais de B., que até então não sabiam da polêmica, foram chamados para uma reunião escolar, em que o Conselho da Criança com Deficiência, a Secretaria Municipal de Educação de Contagem e todos os educadores da escola estavam presentes. “Mostramos um vídeo sobre a inclusão de crianças portadoras de deficiência na sala de aula, sua importância e o reflexo disso na vida de todos os alunos”, relata Leila.

Foi então que os pais de B. descobriram o que estava ocorrendo na escola. Espantados, eles contam que receberam a notícia com muita tristeza e preocupação, pois afirmam que o menino adora ir à escola e que isso tem melhorado muito seu desenvolvimento mental. “Das mulheres que fizeram o abaixo-assinado, apenas uma compareceu e só falava sobre o meu filho, que ele tinha feito isso e aquilo e que outras mães nem estão deixando mais os filhos irem à escola”, diz o pai, indignado com a situação. “Ela disse que os ‘normais’ estavam sendo vítimas do meu filho e o chamou de monstro.”

Os pais de B., com apoio da escola, decidiram não retirá-lo da unidade. “Tínhamos receio quando ele entrou, mas ele adora e está melhorando muito. A lei diz que ele deve ser aceito na escola e é lá que vai ficar”, sustenta o pai, afirmando que B. não é agressivo, pelo contrário, adora dar beijos e abraços. “É o meu príncipe azul”, define a mãe. Ao admitir ser possível que o menino tenha batido em algum colega, ela lança uma pergunta capaz de desconcertar pais de crianças da mesma idade: “Qual criança não faz isso?”

Surpresa
O assunto caiu como uma bomba na Associação de Pais e Amigos de Excepcionais (Apae) de Contagem, onde B. faz acompanhamento. “O preconceito ainda existe, infelizmente. Mas, quando nos deparamos com essa situação, na qual houve uma mobilização das mães, ficamos muito surpresos”, diz a superintendente da Apae, Cristina Abranches Mota Batista, ao destacar que a inclusão de crianças deficientes nas escolas é lei no Brasil desde 1996 e que ela é tão importante para o incluso quanto para as outras crianças. “É fundamental aprender a lidar com as diferenças, para se tornarem adultos melhores no futuro.”

Entre as mães que reclamaram do menino na escola, uma diz que B. puxou o cabelo da sua filha e que, por isso, pensou até em tirar a menina da instituição. Outra sustenta que o filho foi mordido pelo colega. “O que queríamos com o abaixo-assinado é que a escola tivesse estrutura para controlar esse tipo de coisa. Não há alguém que fique de olho nessas crianças da inclusão”, argumenta uma delas. “Meu filho é normal e mais frágil que B., que é muito forte por ser deficiente, por isso procuramos o Conselho Tutelar”, acrescenta a outra.

Estado de Minas
17/06/2009

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