quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Polêmica: Pais rejeitam texto do CNE que obriga crianças com deficiência a frequentarem escolas convencionais.

Os pais dizem que só quem conhece a realidade de se conviver diariamente com uma criança deficiente entende o problema de acabar com as escolas voltadas para elas.

Um clima tenso tomou conta da audiência Pública realizada no último dia 17 na Câmara de Vereadores de Várzea Grande, cujo tema é "Acabar com o Ensino Especial nos Centros Especializados para Crianças com Deficiência Física e Mental". Várzea Grande possui hoje três instituições legais, são elas: Pestalozzi, Luz do Saber e Centro Habitacional Profissional (CHP). Pais de alunos presentes na audiência alegam que a proposta do Conselho Nacional de Educação (CNE) é inaceitável, pois somente quem conhece a realidade - sabe o que é bom e o que não é para as pessoas com necessidades especiais.

Inconformado e preocupado com o futuro de sua filha, um dos pais presentes na audiência, Orlando Paiva, convive a realidade de ter uma filha com deficiência física e mental, acha a proposta um absurdo. "É gente que não convive com esse problema que a sociedade tem que quer acabar com o ensino especial. Eu nunca tinha olhado pra esse problema antes de ter minha filha, e hoje, conheço essa realidade que não conhecia. O atendimento que eles [deficientes] têm nessas instituições é fantástico, as pessoas que trabalham lá dão a atenção que as crianças com necessidades especiais merecem", desabafou.

Segundo Paiva, sua filha já passou pela experiência de ter frequentado escolas que não era segmentada para o problema que ela possui, e não funcionou. "Eu não acredito que as escolas conseguirão fazer os trabalhos das instituições, e se for preciso eu tiro a minha filha da escola", disse.

De acordo com o vereador Toninho do Glória (PV), o autor da audiência, que declarou que a vontade da população tem que ser respeitada. "Queremos saber o que a população quer, principalmente de que usa esses serviços de escolas especiais. Estamos aqui para debater as leis, a inclusão e exclusão no Brasil, e a qualidade de ensino das crianças com deficiência, e falar para sociedade que essa proposta tem nível nacional", destacou.

Toninho lembrou que a dificuldade a ser enfrentada será adaptar as escolas comuns, com a reforma. "Não queremos acabar com os centros, queremos condições, qualificações e visão do futuro, se isso é realmente o melhor para eles [deficientes]", destacou.

De acordo com o vereador, a idéia do CNE, é desintegrar esses centros de atendimento e passar toda a responsabilidade e verbas destinadas para as escolas comuns. "Queremos tempo, adequação, orientação, capacitação, ver ser os pais tem confiança nas escolas em que irão colocar seus filhos", ressaltou.

Já a presidente da Associação Pestalozzi de Várzea Grande, professora Maria Ferreira de Souza, diz que hoje as entidades buscam a inclusão: "Estamos preocupados com o que está escrito no parecer 13/09, onde diz que todas as pessoas com deficiência têm que frequentar escolas normais, que não possuem acessibilidade para as pessoas especiais. A lei garante o direito de a pessoa escolher onde estudar, porque a lei quer obrigar? Se os pais fizerem à opção, que assim seja, mas acabar com as instituições não é uma coisa viável, onde crianças que precisam de extrema atenção, onde não a disputa de atenção com mais 30, 40 alunos em uma sala com crianças sem deficiência. Digo que não estamos brigando pela lei e sim como estará sendo implantada", alertou.

Diferenças
Para a representante do Estado, Nágila Edimalar Vieira Zambonatto, gerente da Educação Especial da Secretaria de Educação (Seduc), o paradigma de inclusão é que a sociedade entende que os deficientes deveriam se preparar para conviver com a sociedade - mas na realidade quem deve se preparar são as pessoas sem deficiência.

"Hoje, no Brasil, há dois pensamentos ideológicos: os que pensam que os deficientes podem estudar em escolas comuns, e outros que pensam que os deficientes precisam sim de cuidados diferenciados. Temos dificuldades de capacitar professores. Pagamos cursos, passagem aérea e ajuda de custo, para os professores de MT fazer o curso, mas infelizmente à jornada de trabalho dos professores os impedem de capacitar-se", lembrou.

Perguntado sobre o parecer 13/09 relatada pelo CNE, Nágila disse que a ideia não agradou o ministro da educação Fernando Haddad, onde não houve homologação do pedido. "O ministro, entendeu que esse assunto tem que ser discutido com a sociedade e com uma avaliação mais profunda. O que a CHN entende é que as crianças com deficiência podem estudar com as normais. E querem a transformação das instituições em centros educacionais", alertou.

Embora o parlamentar tenha conseguido sensibilizar a sociedade que lotou a câmara, ele reclamou da falta de comprometimento do poder público municipal e, principalmente, dos colegas parlamentares que foram convidados e não compareceram a Audiência Publica. Ele mostrou a imprensa, os ofícios convidando os secretários municipais, vereadores e presidentes de autarquias, diretoras de escola e Conselho Tutelar. Apenas ele, propositor da audiência estava presente. "Ficamos tristes por ser um assunto relevante e de interesse da sociedade. Mas nós fizemos nossa parte. Não podemos responder pelos outros", finalizou Toninho do Glória.

Segundo Nágila, 500 escolas do Estado têm amparo para deficiente. "Hoje temos escolas com rampa, barra no banheiro, alargamento de portas, tecnologia assistiva e computadores adaptados. Mas isso não é toda estrutura de que um deficiente precisa", advertiu. Ela lembrou que o Estado direciona verba para convênio com Apae e Pestallozi, instituição de cegos, Associação de Síndrome de Down entre outros, chega a R$ 6 milhões.


Várzea Grande Notícias
22/09/2009

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