quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Peregrinação de pais e alunos deficientes para irem à escola na região metropolitana de Belo Horizonte.

Prefeitura concede passe-livre apenas para doentes considerados graves. Crianças com transtornos mentais andam até 10 km por dia para chegarem a instituições de ensino.

Crianças com deficiência mental têm enfrentado um tormento diário em Ibirité, na região metropolitana de Belo Horizonte, devido à ineficácia da política de concessão de passe-livre no transporte público municipal. Como precisam estudar em instituições especializadas, distantes para a maioria dos alunos, pais e responsáveis não veem alternativa senão submeter os filhos ao sacrifício: há quem caminhe 10 km todos os dias para mantê-los nas salas.

É o caso da dona de casa Rita de Cássia Lopes, 41, e seus três filhos. Quando o relógio marca 6h30, ela acorda e inicia uma maratona que inclui fazer o café da manhã, dar banho nas crianças (todas com deficiência mental) e ainda preparar o almoço, tudo antes das 11h40. Nesse horário, ela já precisa estar na rua para chegar a tempo no Centro de Educação Especial da Fazenda do Rosário (da Associação Pestalozzi de Minas Gerais), instituição filantrópica onde Giovane, 12, Vinícius, 11, e Weverton, 10, estudam.

Um dos garotos, com paralisia cerebral mais grave, caminha mais lentamente e diminui a marcha do grupo. Moradora do bairro Los Angeles, Rita de Cássia leva cerca de uma hora e 30 minutos para chegar à escola, localizada no bairro Fazenda do Rosário, a 5 km de sua residência.

As aulas começam às 13h e terminam às 16h30. A dona de casa poderia voltar para casa de ônibus e, mais tarde, retornar à Pestalozzi para buscar as crianças. Como não tem condições financeiras para pagar passagem, pois o marido ganha apenas um salário mínimo, Rita de Cássia se vê obrigada a aguardar no colégio.

Outras dezenas de mães também esperam a aula terminar, ao ar livre. A Prefeitura de Ibirité não oferece transporte escolar para os 350 estudantes da Pestalozzi. "O dinheiro não dá nem para as despesas da casa. Não sobra nada para a passagem de ônibus. O jeito é ir e voltar a pé com meus filhos", lamenta a dona de casa Rita de Cássia.

As pessoas que esperam a aula terminar tentam espantar a monotonia da melhor forma possível. Maria Helena Rodrigues, 52, mãe do garoto Herbert, 12, aproveita para adiantar a confecção de suas peças de tricô. "Não tenho condições de voltar para casa e depois buscar o meu filho. Ficaria muito caro pagar as passagens. Para mim é até tranquilo esperar, só não pode chover", diz, conformada.

histórico. De acordo com a coordenadora do Centro de Educação Especial, Maria do Carmo Coutinho de Moraes, o problema no transporte para pessoas com necessidades especiais começou no segundo semestre de 2008, quando a Prefeitura de Ibirité cancelou a maior parte dos passes-livres das crianças atendidas na instituição alegando falta de dados dos beneficiados.



O Tempo
Ibirité - MG, 13/10/2009

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