sábado, 5 de dezembro de 2009

Memorial relembra inclusão de deficientes

Exposição permanente mostrará os desafios da luta pela acessibilidade
A história brasileira da luta pelos direitos dos surdos, cegos ou qualquer outra pessoa com algum tipo de diferença física ou intelectual caminhou quase invisível durante as últimas três décadas. Foi em 3 de dezembro de 1981 que o mundo ganhou o Dia Internacional da Pessoa com Deficiência, mas só hoje - 28 anos depois - São Paulo inaugura o primeiro Memorial da Inclusão, inédito no País e na América do Sul. Pela exposição permanente instalada no Memorial da América Latina, na zona oeste da capital, será possível conhecer a trajetória de quem lutou para que, por exemplo, a guia rebaixada virasse coisa tão comum nas calçadas das cidades contemporâneas.

Na mesma mostra, mesmo quem escuta, enxerga e caminha sem restrições vai perceber como é conviver com os desafios da acessibilidade, como falta de rampas ou informações em braile. Logo na entrada do Memorial está a Sala dos Sentidos, totalmente escura, na qual os participantes entram em contato com objetos e sons triviais da cidade. "É para as pessoas entenderem que há outras formas de comunicação", afirma a curadora da mostra, Elza Ambrósio, militante e viúva de um dos "heróis" da inclusão, Rui Bianchi, ainda anônimo para quem desconhece a batalha de anos pela acessibilidade. Formado em Jornalismo, ele perdeu as duas pernas e encontrou um objetivo de vida. Foi o pioneiro na luta pelos direitos de ir e vir de qualquer pessoa. O rosto de Bianchi e outros 11 militantes estão expostos em um painel de 11 metros na entrada do Memorial, batizado de "front". Por meio de áudiodescrição, todos esses personagens são revelados aos visitantes.

"Se não tivermos memória, no futuro, repetiremos os mesmos erros que cometemos no passado", afirmou Linamara Batistela, secretária estadual da Pessoa com Deficiência. A pasta é responsável pela idealização do Memorial, que abre as portas hoje e vai funcionar todos os dias da semana, de graça. A aposta é que, com um contato mais íntimo com os documentos históricos, painéis fotográficos, documentários - todos expostos de forma interativa - as pessoas fiquem mais sensibilizadas pela causa.

Jefferson Duarte, um dos designers responsável pela parte visual do Memorial, confirma o "efeito informação". Ele nunca tinha elaborado uma exposição com o tema acessibilidade. Mas o que foi imprescindível para essa - piso tátil, quadros em altura para quem está na cadeira de rodas, é anão ou criança - virou diretriz obrigatória para qualquer outro trabalho.

Segundo a secretária, um dos legados da luta pela inclusão é uma cidade que comporta o envelhecimento da população. "O mais interessante de uma cidade acessível é que você usa sem perceber. Os idosos só caminham por muitas ruas hoje por causa da batalha das pessoas com deficiência."

Dois meses
O acervo para o Memorial foi reunido em apenas dois meses. O material foi doado por militantes da causa e selecionados pela antropóloga Crismere Gadelha. "Quisemos contemplar todas as áreas com informações. Cultura, esporte, educação", conta. Apesar do tempo tido como recorde, Linamara diz que ainda há muito material guardado. "A proposta é fazer micro-exposições itinerantes e levar para as estações de metrô, escolas, praças", diz.



Estadão
03/12/2009

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