sábado, 26 de junho de 2010

Ensino a distância ajuda deficientes

Entidades no Paraná possibilitaram que 11 pessoas conseguissem completar o ensino médio; experiência foi relatada no Senado.

Carolina Stanisci

ESPECIAL PARA O ESTADO

Sem conseguir distinguir bem a luz do escuro desde que nasceu, o paranaense Amilton Castilho, de 44 anos, não concluiu os estudos na idade certa. Graças a um projeto de ensino a distância (EAD) para pessoas com deficiência, ele fez as provas na Secretaria de Educação do Paraná e vai conseguir o certificado de conclusão do ensino médio neste mês.

A iniciativa que capacitou Amilton e outras dez pessoas com deficiência para conseguir o diploma do ensino médio foi relatada na semana passada no Senado, em audiência pública sobre a importância do EAD na inclusão de pessoas com necessidades especiais.

A capacitação em Curitiba surgiu da união entre duas entidades: a Universidade Livre para Eficiência Humana (Unilehu), ONG que contribuiu com a experiência no trabalho de capacitação, e o Inteligência Educacional e Sistemas de Ensino (Iesde), que preparou o material didático para EAD. As aulas começaram em novembro.

Castilho e os colegas com deficiências - visual, auditiva, física e um aluno com paralisia cerebral - tiraram as dúvidas das disciplinas três vezes por semana, durante três horas, em aulas presenciais na Unilehu. Em casa, o trabalho foi mais pesado. Como tinham de chegar preparados, contavam com o material de apoio para estudar: vídeo-aulas, netbook adaptado, MP4 para ouvir aulas, DVDs, apostilas em braile ou com a fonte ampliada.

"Eu achava que era burro, mas as pessoas é que não sabiam me ensinar", concluiu Castilho. Como os colegas, ele terminou de fazer as provas do exame de certificação para jovens e adultos na Secretaria da Educação. Como os outros, passou em absolutamente tudo.

"Ficamos orgulhosos. Eles passaram até em matérias que temíamos, como química e física", conta a presidente da Unilehu, Andreia Koppe. Para ela, ajudou o material didático. Castilho, que trocou de escola três vezes, concorda: "O notebook é mais fácil que usar o braile. A gente digita e a tecla fala com a gente."

Tiago Ortega, de 20 anos, também se beneficiou com o material adaptado. Como não vê nada com o olho direito e tem 40% de visão no esquerdo, durante sua vida escolar sempre correu atrás do prejuízo, pois tudo o que recebia - provas, apostilas, livros - tinha de ser levado a uma ONG que aumentava a fonte da letra. Mudou de escola três vezes e sempre encontrava os mesmos problemas. Acabou abandonando a terceira escola no 2.º ano do ensino médio.

Está feliz por conseguir o diploma. "Foi muito bacana retornar à sala de aula. E acho que os professores também gostaram, eles nunca tinham dado aula para deficientes."

Preconceito. Gabriel Godinho, de 27, nunca sofreu para acompanhar as aulas. Seu problema era o preconceito dos colegas. Ele tem a mão direita paralisada, por falta de oxigênio durante o parto. "Estudei até o 1.º ano, mas tinha complexo de inferioridade. Quem é deficiente e passa pela exclusão nos colégios vê isso como oportunidade para crescer. A pessoa com deficiência não sabe a quem recorrer."

"Foi uma batalha. O ensino a distância depende da disciplina do aluno e de estudo fora da sala", diz Andreia. "A deficiência é complexa e o ensino a distância ajudou muito."

Maioria das pessoas com deficiência não chega ao superior.

25 de junho de 2010

A maioria das pessoas com deficiência não chega à universidade. Segundo o Ministério da Educação, em 2008, apenas 11.880 estavam matriculados no ensino superior, 601 deles na modalidade a distância. Especialistas da área, porém, fazem ressalvas sobre o EAD no caso de pessoas com deficiência. Para o presidente da Associação de Assistência à Criança Deficiente, Eduardo de Almeida Carneiro, "a escola jamais se adaptará se as pessoas com deficiência forem embora". "Não podemos nos esquecer do que originou esse problema, que foi a falta de condição em sala de aula", afirma a procuradora da República Eugênia Favero, que atua na defesa dos direitos do cidadão.

Comentários

1 Sandra Regina Boschilia

25 de junho de 2010

Por que será que as pessoas com deficiência não chegam?

Se dependesse apenas delas, essa não seria a realidade.

Temos acessibilidade nos centros urbanos? Os meios de transporte são adaptados para pessoas deficientes? A educação de base é suficiente? Os professores estão preparados para ensinar para deficientes? A sociedade está pronta para conviver com as pessoas com deficiência? As universidades possuem acessibilidade para todos os tipos de deficiência? As pessoas com deficiência podem se sentir valorizadas pelo mercado de trabalho ou só existem vagas para area operacional? As familias das pessoas com deficiência acreditam que o deficiente é capaz de superar os seus desafios diários ou é mais fácil ficar no INSS? Acredito que o quadro exige muito mais reflexão e a solução não pode ser paliativa. Algumas pessoas nascem com deficiência e outras adquirem no decorrer da vida. E a diferença entre uma pessoa deficiente e a “normal” é de apenas um segundo! Permita a acessibilidade, incentive a Inclusão! sandra@ipcpe.org.br

Fonte:
Jornal O estado de S. Paulo
25/06/2010
Matéria postada no blog da APNEN: 26/06/2010

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