terça-feira, 22 de junho de 2010

Um mundo aberto à diversidade humana: realidade ou utopia?

Muitas vezes o preconceito está dentro das próprias famílias.

Hevlyn Celso

Tudo começou com um forte sentimento de indignação. Foi em 2008, um ano antes de concluir meu curso de jornalismo.

Ao fazer um trabalho acadêmico, decidi entrevistar algumas mães de pessoas com deficiências intelectuais, atendidas por uma equipe de profissionais especializados em minha faculdade.

Conversei com uma delas, cuja filha, com síndrome de Down e já adulta, mal balbuciava algumas palavras. Quando questionada sobre a razão de não ter procurado auxilio durante a infância da garota, disse-me que preferia que ela continuasse a ser uma eterna criança, pois este mundo não lhe pertencia. Aquela declaração me chocou de tal forma, que não mais saiu dos meus pensamentos. Refletindo sobre a questão, imaginei que, se a mãe era desta opinião, o que então nossa sociedade não pensaria sobre essas pessoas, por pura falta de informação?

A reflexão resultou em meu trabalho de conclusão de curso, um livro reportagem sobre adultos com síndrome de Down.

Não sabia nada sobre o assunto, e tive que pesquisar muito. O preconceito começou na sala de aula, quando nenhum colega quis fazer o trabalho comigo; mas não desisti; fui em frente e tive muitas surpresas boas durante o caminho.

Uma delas foi descobrir que existiam universitários com síndrome de Down, pessoas que enfrentavam tudo aquilo pelo qual eu passava, apesar de suas deficiências. Saber que essas pessoas têm a chance de envelhecer e constituir família, independentemente de seu desenvolvimento intelectual, bastando para isso ter o apoio e o amor incondicional de sua família.

Durante a pesquisa, conheci vários pais que fazem todo o possível para proporcionar felicidade aos filhos, mesmo que estes não correspondam exatamente às projeções sonhadas. Infelizmente, o preconceito continua e muitas vezes está dentro das famílias, de forma velada. Pais que ocultam, direcionam, tolhem e anulam seus filhos com deficiência. Hoje a sociedade já enxerga essas pessoas à sua volta, a lei de cotas pressiona as empresas e a mídia procura fazer o seu papel, mas a deficiência, principalmente a intelectual, na prática, ainda é vista sob muitos tabus e preconceitos, dentro e fora das famílias.

O que podemos fazer para mudar isso? Não é só votar conscientemente, buscar políticas públicas mais justas, emprego e acessibilidade em todos os seus aspectos, mas rever individualmente nossos conceitos de "perfeição".

Por que não ter amigos com deficiências? Por que razão, por exemplo, alguns se escandalizam ao ver que essas pessoas têm relacionamentos afetivos? Não são humanos como nós?

Todos somos imperfeitos. Alguns possuem deficiência intelectual, física, visual, auditiva; outros têm deficiências mais graves, defeitos de caráter, bondade e afeto. São essas deficiências que devemos evitar e fugir. No último dia oito de junho, tive o prazer de assistir à peça “Sonhos de Uma Noite de Verão”, encenada pelo Grupo ADID de Teatro, no Clube Paineiras, em São Paulo.

O grupo é formado por adultos com síndrome de Down, e desde 1998, já apresentou oito espetáculos. Não são atores profissionais, mas a cada peça, superam suas limitações.

Isso só vem demonstrar que não existem impedimentos quando acreditamos em nosso potencial, e lutamos por nossos sonhos, com deficiência ou não.

Nosso mundo precisa enxergar a deficiência com outros olhos e ver que ao contrário do que se pensa, a diversidade nos enriquece, e nos torna pessoas melhores, na mesma medida em que nós, ditos “normais”, aprendemos a conviver com nossos talentos e imperfeições.

Comentário SACI: Hevlyn Celso é jornalista e voluntária do Espaço Braille na Biblioteca Municipal Monteiro Lobato em Guarulhos.

Fonte:
Rede SACI
21/06/2010
Matéria postada no blog da APNEN: 22/06/2010

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