quinta-feira, 8 de julho de 2010

Deficientes auditivos no ensino regular

"Por que existem profissionais despreparados se a lei garante o acolhimento educacional especializado?"

Juliana Bettoni

Tornou-se comum nos dias de hoje encontrar alunos inclusos na rede regular de ensino com algum grau de deficiência auditiva (leve, moderada ou severa). A dúvida é como trabalhar com esses alunos para que a aprendizagem realmente aconteça, sabendo das inúmeras dificuldades com que se deparam os profissionais de ensino devido à falta de recursos e preparação para desempenhar tal trabalho com competência.

Segundo a Lei de Diretrizes e Bases da Educação de 1996, é garantido o "atendimento educacional especializado gratuito aos educandos com necessidades especiais, preferencialmente na rede regular de ensino". Na mesma diretriz, o Artigo 59º diz que "os sistemas de ensino assegurarão aos educandos com necessidades especiais professores com especialização adequada em nível médio ou superior para atendimento especializado, bem como professores de ensino regular capacitados para a integração desses educandos em classes comuns".

Por que existem profissionais despreparados se a lei garante o acolhimento educacional especializado? É perceptível a deficiência no sistema. Perante a imperfeição, o que educador pode fazer? Esperar a solução surgir? E o aluno? O número de deficientes auditivos inseridos no ensino regular no Brasil está crescendo e, consequentemente, a preocupação com seu processo de aprendizagem e desenvolvimento, o que torna indispensável uma via de comunicação em comum entre professor e aluno.

A Língua Brasileira de Sinais é um direito do surdo e uma forma garantida de aprendizagem eficaz. Constitui uma estrutura singular, própria e um sistema linguístico independente, sendo o canal visual de comunicação mediado pelo intérprete de Libras, capaz de auxiliar o educador no processo de ensino e o educando no processo de aprendizagem. Porém, esse recurso ainda é escasso.

Nesse contexto, como deve atuar o educador? Fingir que está tudo bem ou seria mais ético buscar formas de compreender esses alunos? Um curso talvez? Atualmente alguns cursos de Libras são gratuitos e acessíveis a todos. Possibilidades para realizar trabalhos magníficos existem desde que os responsáveis honrem os ideais assumidos.

Tive uma experiência gratificante com um aluno com surdez e problemas na fala. No início do ano letivo, deparei-me com um desafio: ensinar a língua inglesa a uma criança surda e que mal falava. Fiquei perdida. Fiz o que estava ao meu alcance naquele momento, pesquisei mais a fundo sobre o assunto.

Primeiramente era preciso estabelecer uma via de comunicação entre nós, sendo uma opção a língua de sinais, porém tanto eu quanto meu aluno não a conhecíamos. Além disso, é inadequada ao ensino da língua inglesa, pois cada país possui um sistema linguístico.

Numa das aulas, descobri algo que futuramente ajudaria muito - e de fato ajudou. Meu aluno fazia leitura labial e começou com sessões de fonoaudiologia. A partir desse ponto mudei minha postura em sala, falava de frente para a turma e sempre prendendo sua atenção. Foi um longo período de quatro meses até obter algum resultado, o mínimo que fosse.

Eu estava apresentando aos alunos as cores e a estrutura "What color is it?" (Que cor é essa?). Chamei-o até a mesa, mostrei um objeto azul e perguntei: "What color is it?" e, com dificuldade, ele respondeu-me "Blue!" (Azul). Ganhei o dia! Acredito que três fatores o fizeram chegar até a aquele momento: seu esforço próprio, meu interesse em ajudá-lo e a preocupação dos pais. É óbvio que há um longo processo pela frente, mas com certeza um grande passo já foi dado.

Esta foi uma das diversas experiências vividas em minha carreira educacional. Sei que surgirão ainda muitas dificuldades, mas estou disposta a enfrentá-las. Afinal, obstáculos existem para serem ultrapassados. É preciso que os interessados se mobilizem e lutem pelos direitos a ser cumpridos.

O verdadeiro profissional preocupado peleja pela educação de seus alunos, busca recursos, pede auxílio e se interessa, tudo pelo bem-estar e sucesso dos pequenos.


Juliana Bettoni é mediadora da empresa Futurekids no Programa de Línguas Estrangeiras em Caçapava (SP)

Fonte: MAXPRESS Net - Caçapava, 07/07/2010
Matéria postada no blog da APNEN: 08/07/2010

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