terça-feira, 31 de agosto de 2010

"Guardiã da Paulista", cadeirante denuncia calçadas inacessíveis na via

Jovem percorre o cartão-postal paulistano à procura de irregularidades.
Paulo Toledo Piza
Há mais de um ano, a Avenida Paulista deixou de ser apenas o cartão-postal mais famoso de São Paulo para a publicitária Julie Nakayama. A jovem de 23 anos passou a verificar a acessibilidade na via e indicar irregularidades como buracos e ausência de rampas à Prefeitura.

Cadeirante, ela sabe a dificuldade de conviver com esses obstáculos pela capital paulista. "Avenidas que não têm acesso são incontáveis, são a maioria em São Paulo", disse. Considerada a "guardiã da Paulista", ela zela pela acessibilidade não só de quem utiliza cadeira de rodas, como de todos os cidadãos que possuem algum tipo de deficiência. "Presto também atenção no piso tátil, que foi feito para cegos e quem possui pouca visão."

A ação é feita, por enquanto, apenas na Avenida Paulista, considerada por Julie a mais acessível da cidade. "Mas basta virar a esquina e você encontra buracos nas outras ruas", comentou.

A jovem verifica se a calçada está uniforme e sem obstáculos - tudo para não deixar que a qualidade da via caia. O G1 acompanhou Julie pela avenida e constatou alguns problemas. O primeiro foi um buraco em um bueiro - que estava devidamente sinalizado por um cavalete da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET).

Outro obstáculo observado foi o piso de paralelepípedo no vão do Museu de Arte de São Paulo (Masp), onde aos fins de semana ocorre uma tradicional feira de antiguidade. "Procurei saber se poderia ser trocado, mas soube que todo o edifício está tombado", contou. "Pena que não posso participar da feirinha", lamentou. As grades dos respiradouros do Metrô também representam um perigo aos deficientes. "A roda prende facilmente".

O piso tátil, que abrange toda a avenida, não é de todo perfeito. O deficiente visual que quiser, por exemplo, entrar na estação de Metrô precisará do auxílio de outros pedestres para isso. É que a linha do piso segue reta e não indica a entrada da estação. A falta de semáforos sonoros - que para a jovem é um problema crítico em toda a cidade - dificulta também a independência dos deficientes. "Nunca fica totalmente livre", afirmou Julie.

O sonho de Julie é ver outras pessoas seguirem seu exemplo em outras vias. Qualquer um pode denunciar calçadas irregulares para a Prefeitura, pelo número 156. Segundo a lei municipal 10.508, que trata de muros, passeios e limpeza, o proprietário de um estabelecimento ou de uma residência deve manter livre uma faixa mínima de 90 centímetros em sua calçada. Além disso, deve mantê-la em perfeito estado. Caso isso não ocorra, ele poderá ser multado.

Transporte e preconceito

O transporte coletivo é um desafio pelo qual os deficientes passam diariamente. "É bastante complicado para um cadeirante fazer o bom uso do transporte público, porque nem todos os ônibus e metrôs são acessíveis", afirmou. Quando há acessibilidade, a falta de respeito de passageiros e do motorista do coletivo dificulta ainda mais a vida. "Eu brinco que para ser deficiente em São Paulo tem que ter uma condição financeira boa, para poder ter um carro e uma cadeira de rodas boa, que seja resistente para aguentar o ‘rally’ que é andar nas calçadas".

A forma como as pessoas observam o deficiente também incomoda. "Temos que quebrar o tabu de que cadeirante não tem condição de trabalhar, que não tem higiene, que não tem vida social, não tem amigos, namorado, não pode se casar, ter filhos". Para a publicitária, a novela "Viver a Vida", em que a personagem vivida pela atriz Aline Moraes torna-se cadeirante após sofrer um acidente, teve um papel importantíssimo "para mudar a cabeça das pessoas".

Fonte:G1 São Paulo - São Paulo, 30/08/2010

Matéria postada no blog da APNEN:31/08/2010

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