quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Algumas considerações sobre a sexualidade das pessoas com deficiência

Adriana, cadeirante, nos mostra como a vida afetiva de um deficiente em pouco difere da de qualquer outra pessoa.
Adriana Lage

A sexualidade das pessoas com deficiência ainda é um tabu em nossa sociedade. Muitas pessoas preferem não falar sobre o assunto e ignoram a situação. Sinto que ainda falta mais conhecimento e orientação por parte das famílias e profissionais que lidam diretamente com as pessoas com deficiência. Superproteção, infantilização do deficiente e preconceito norteiam esse universo.

Desde meus 2 anos de idade, faço acompanhamento médico da minha tetraplegia. Sempre recebi orientações sobre a sexualidade por parte da minha família e, principalmente, por conta própria. Brincava que era discípula de Marta Suplicy. Certa vez, ganhei um livro dela que falava sobre a sexualidade dos adolescentes. Aproveitei a oportunidade para disseminar os conhecimentos com minhas irmãs, primas e amigas. Apenas no ano passado, em uma consulta anual que faço no Sarah, é que o neurologista me lembrou da importância de realizar acompanhamento com uma ginecologista, ressaltando sobre os perigos das DST e de uma gravidez indesejada. Felizmente, já me cuidava há muito tempo. Convivi com inúmeros médicos, terapeutas ocupacionais, fisioterapeutas, psicólogos, e nenhum deles nunca tocou nesse assunto... Vale ressaltar que, nas clínicas ginecológicas que consultei, nenhuma delas possui móveis adaptados. É sempre uma aventura radical... Tomara que BH copie São Paulo no que diz respeito à saúde da mulher deficiente, com profissionais treinados, equipamentos e espaços adaptados para atender melhor essa parcela da população.

Acho essa questão extremamente importante, pois, infelizmente, muitas pessoas com deficiência não dispõem das informações corretas sobre a sexualidade e podem acabar complicando suas vidas com uma gravidez indesejada ou AIDS por exemplo. Querendo ou não, as pessoas com deficiência ainda são mais vulneráveis, sobretudo as com limitações físicas severas e as com deficiência intelectual. Não costumo ler a parte policial dos jornais, mas, constantemente, ouço falar em crimes sexuais envolvendo deficientes. Vale lembrar que, independente da deficiência, a maioria desses crimes são praticados por pessoas próximas às vítimas (pais, padrastos, tios, primos, etc). Há pouco tempo, fiquei indignada com um caso que uma psicóloga, amiga da minha irmã, contou: ela percebeu que seu paciente, uma criança down, estava muito estranho. Com o tempo, descobriu que ele era vítima de abuso sexual e entrou em contato com a família. Os familiares reagiram de forma indiferente. No final das contas, os pais recebiam dinheiro de um vizinho para que ele pudesse abusar do menino. Situação extremamente inadmissível.

Como, em alguns casos, a família também possui pouco conhecimento sobre os direitos e as possibilidades do deficiente exercer sua sexualidade com consciência, dignidade e segurança, acho de fundamental relevância que os profissionais de saúde e professores forneçam essas informações e participem ativamente desse processo. A informação é sempre a melhor arma contra o preconceito e o desconhecimento. Com ela, muitas situações ruins podem ser evitadas e os riscos minimizados.

Minha família é maravilhosa, mas, quando se trata de sexualidade, tende a ser superprotetora. Isso vale também para minhas irmãs que não são deficientes. Com muito custo, aprendemos a lidar com essa situação. Para terem uma idéia, quando arrumei meu primeiro namorado, meu pai quase caiu duro do coração. Ficou preocupadíssimo, falou que eu era louca e que podia prever o final da história: eu grávida, abandonada pelo namorado, triste e chorosa, e ele tendo que cuidar da filha e do neto. Até então, ele nunca tinha pensado que sua filha cresceria e se tornaria uma mulher como qualquer outra. Foi preciso muito diálogo, paciência e a ajuda de alguns amigos para que ele entendesse e aceitasse a situação. Passado o choque inicial, conseguimos nos entender. Sua grande preocupação era evitar que eu sofresse e me magoasse. Mas, independente de ser deficiente ou não, relacionamento é sempre uma surpresa. Acho que o poeta estava certíssimo quando disse que ele deveria ser eterno enquanto durasse!! Meu primeiro namoro durou cerca de três anos. Foi um período muito legal da minha vida, cheio de descobertas e crescimento. Infelizmente, éramos meio imaturos para lidar com a situação e acabamos deixando que as famílias se intrometessem demais na nossa história. Minha ex-sogra não gostava de mim. Vivia dizendo que o filho dela merecia uma namorada melhor, pois só daria trabalho a ele e seria um atraso de vida. Ignorava esse pensamento, mas, quando meu namorado começou a falar que estava preocupado se daria conta de continuar namorando uma cadeirante, senti que era hora de terminar a relação. Doía ouvir que era complicado ter que me carregar, carregar a cadeira de rodas, que eu gastava muito tempo na fisioterapia, que era complicado namorar comigo. Quando essas queixas se tornaram freqüentes, mesmo gostando muito dele, terminei o namoro. Foi uma decisão difícil, mas extremamente importante. Depois disso, desenvolvi melhor minha autoestima e me tornei outra pessoa: uma mulher muito mais forte e mais atraente.

Brinco que os relacionamentos estão complicados para todo mundo. Hoje em dia, o amor virou algo descartável. Não gosto muito de ficar, mas não recrimino quem o faz. Só que prefiro um relacionamento sério, um único parceiro, coisa difícil de alcançar hoje em dia. Como diria Adélia Prado, não sou feia que não possa casar, mas acabo tendo dificuldades em arrumar um namorado sério. Candidatos a ficantes sempre tenho, mas compromisso... Ninguém quer saber disso. Acho muita cara de pau de alguns ‘amigos’ me falarem, na cara dura, que queriam ir pro motel comigo. Em primeiro lugar, nunca dei liberdade para que falassem isso comigo. E, em segundo lugar, não acho que a cadeira de rodas me torne menos mulher que as outras e que precise me sujeitar a esse tipo de coisa. Já escutei muitos amigos falarem que sou muito inteligente, legal e bonita, mas que não namorariam comigo. Falam que não são preconceituosos, mas acho que a deficiência, em alguns casos, pesa um pouco sim. Mas sou da teoria que nada é impossível e, com um pouquinho de boa vontade e paciência, tudo se resolve e se adapta. Basta querer!!

Outro fato que me intriga são os devotees – pessoas que sentem atração sexual por deficientes. Por curiosidade, mantive contato virtual com alguns deles, mas não gostei da experiência. Um deles, também de BH, me encontrou pelo Orkut. Logo de cara, veio me perguntar se eu tinha sensibilidade e se minhas pernas eram fininhas, pois era louco por cadeirantes com pernas atrofiadas. Minha primeira reação foi de indignação e repulsa. Acabei sendo grossa com ele. Dias depois, ele voltou a me procurar e me pediu um voto de confiança para me mostrar que eu estava errada e sendo preconceituosa. Por curiosidade, acabei aceitando manter o contato. Mas só aceitei conversar por email. Nada de MSN e, muito menos, um encontro real. Ele me disse que era noivo, fazia pós graduação na FGV, morava em um bairro nobre de BH e que queria muito ficar comigo. Se gostássemos um do outro, largaria a noiva para ficar comigo. Sinceramente, não acreditei. Para completar, ele me mandou uma foto de um homem lindo, lá em Nova York, dizendo que era ele. As conversas sempre caiam nas minhas limitações físicas. Bloqueei os contatos dele e sai de todas as comunidades que pudessem levar devotees até mim. Pouco adiantou. Sabe-se lá como, eles continuam me localizando em redes sociais. Dias atrás, resolvi dar corda para outro devotee. Como sempre, ele não podia dizer seu nome real e nem mostrar seu rosto. Trata-se de um homem de 45 anos, casado, pai de um casal, morador de Recife e empresário. Ele veio com a mesma conversa sobre as pernas finas e, como cortei o assunto, mudou o foco e disse que gostaria de ter amigas cadeirantes. Falou que a esposa e os filhos nem sonham que é devotee e que não me revelaria sua identidade, pois tinha medo de repressão. Ele me contou o caso de um amigo devotee que perdeu o emprego por causa disso. Descobriram que sentia atração por deficientes físicos e o trataram como se fosse um pedófilo.

Conversei com uma nadadora amputada que conheci em Brasília e ela me disse que adora conversar com devotees. Nos momentos de solidão, eles sempre a amparam. Já se encontrou com alguns deles e gostou. Mas fica chateada, pois os considera ‘galinhas’. Ela me disse que conversou com várias deficientes que foram abordadas pelos mesmos devotees. Passa horas batendo boca com eles na internet. Tem gosto pra tudo nessa vida...

Particularmente, acho esse assunto muito complexo e ainda pouco explorado. Atualmente, prefiro manter distância deles.

Outro fator interessante é a procura por profissionais do sexo. Em muitos casos, o deficiente não consegue arrumar um parceiro e acaba contratando garotos (as) de programa. Tenho um amigo que sempre contrata garotas de programa. Para tanto, ele enfrenta dois problemas: a ressaca moral por ter pagado alguém para fazer sexo com ele e a falta de locais adequados para suas relações sexuais. Como mora com os pais e não existem motéis adaptados em BH, ele costuma freqüentar locais ermos e perigosos.

Uma postura que me incomoda é o fato de algumas pessoas acharem que deficiente só pode namorar deficiente. Meu ex professor de natação pensa assim. Ele vivia me empurrando outros deficientes. Eu falava que não tinha nada contra namorar um deficiente, mas gostaria de saber por que ele pensava assim e nunca quis me apresentar a algum amigo gatinho... Ele desconversava. Acho que isso não tem nada a ver. Para mim, a paixão e o amor, superam obstáculos e diferenças sim! Quando o coração bate mais forte por alguém, pouco importa se ele é branco, negro, andante, cadeirante, amputado, surdo, cego, etc. os hormônios não são preconceituosos... Minha mãe sempre me disse para ser prática: podendo evitar, melhor não me relacionar com uma pessoa com deficiência igual ou pior que a minha, já que as dificuldades seriam multiplicadas nesse caso. Só que nem sempre se pode controlar o coração. Mas acho que esse pensamento faz sentido!

Enfim, a sexualidade das pessoas com deficiência ainda é um assunto pouco discutido. Só através do conhecimento e de profissionais da área de saúde capacitados e treinados para orientar os deficientes e suas famílias é que iremos reduzir esse preconceito velado, permitindo que as pessoas com deficiência exerçam sua cidadania em sua plenitude.

Fonte: Rede Saci - Minas Gerais, 08/09/2010
Matéria postada no blog da APNEN: 09/09/2010

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