segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Para superar a escuridão e o silêncio

Mesmo sem a visão e a audição, surdocegos aprendem a linguagem; associação aponta 2.750 pessoas com a condição no País.
Alexandre Gonçalves

Como arrancar uma criança surda e cega do isolamento? Como ajudar um adulto que, depois de perder a visão e a audição, não consegue transpor as muralhas sensoriais de seu novo mundo? Há cerca de 50 anos, pedagogos, psicólogos e professores ajudam os 2.750 brasileiros surdocegos - como as entidades pedem para que os portadores da dupla deficiência sejam chamados - a superar o silêncio e a escuridão.

O número, uma estimativa da Associação Brasileira de Surdocegos (Abrasc), só inclui pessoas que tiveram algum acesso à educação e, por isso, figuram nas estatísticas.

Janine Farias nasceu prematura e passou dois meses em uma UTI pré-natal improvisada na cidade de Itabuna, a 440 quilômetros de Salvador. Ao sair do hospital, os pais descobriram que era cega. Com 8 meses de vida, a surdez foi diagnosticada. "Eu me sentia muito sozinha", recorda Samara Farias, mãe de Janine. "Me sentia a única mãe de uma criança surdocega no País."

Com 3 anos, a menina apresentava um comportamento agressivo: não gostava de ser tocada, puxava os cabelos e se mordia. Queria sair de dentro de si, mas não conhecia a linguagem. Ainda não havia palavras no seu universo interior: apenas um turbilhão de sensações e sentimentos sem ordem.

Mas Samara descobriu intuitivamente a principal forma de comunicação dos surdocegos: a libras tátil. O deficiente segura as mãos do interlocutor, que realiza os gestos da língua brasileira de sinais (libras), usada pelos surdos.

A mãe recorda o primeiro conceito que Janine aprendeu: água. No banho, ao matar a sede ou quando abria a torneira, Samara repetia o sinal da água nas mãos da criança. Não demorou para que a garota descobrisse o segredo da comunicação: o sinal representa o conceito. Helen Keller, a famosa surdacega americana do início do século 20, também penetrou no mundo da linguagem pela palavra "água" (mais informações nesta página).

Janine tornou-se ávida pelo aprendizado dos sinais. Partiu dos mais concretos - comida e banheiro - para chegar aos abstratos - tais como saudade.

A palavra serviu para a garota definir seu sentimento quando a mãe visitou o Rio, em 1998, para um congresso do Instituto Nacional de Educação de Surdos (Ines). No evento, Samara descobriu que já existiam três instituições em São Paulo especializadas em surdocegueira: a Fundação Municipal Anne Sullivan, em São Caetano do Sul, a Adefav e a Ahimsa, na capital paulista. Ela não estava mais sozinha.

"É impossível estabelecer um padrão para ajudar essas pessoas", explica Shirley Rodrigues Maia, da Ahimsa. "Cada uma delas tem necessidades específicas."

Alguém que perdeu a audição e a visão depois de já ter aprendido a linguagem enfrenta desafios diferentes dos encontrados por Janine e Samara.

A paulista Cláudia Sofia Indalécio Pereira tem 40 anos. A caxumba e o sarampo tornaram-na surda aos 6 anos. A retinose pigmentar roubou progressivamente sua visão. Com 19 anos, no Natal, disse à mãe enquanto a família assistia à televisão: "Não vejo mais nada."

O carioca Carlos Jorge Wildhagen Rodrigues, de 50 anos, nasceu surdo. Ele tem síndrome de Usher, que causa surdez congênita acompanhada por perda progressiva da visão. Com 10 anos, começou a ficar cego. Depois do ensino médio, tornou-se digitador. Trabalhou 11 anos, mas a cegueira obrigou-o a se aposentar. Foi o primeiro aluno surdocego do Instituto Benjamin Constant (IBC), no Rio.

Tato. Cláudia Sofia usa o tadoma para compreender o que as pessoas falam: ela encosta o polegar e o indicador no queixo do interlocutor. Ao ficar surda, aprendeu a ler os lábios. Depois de ficar cega, tocou a boca da mãe em um momento de aflição e descobriu que também era capaz de ler os lábios com o tato. Apenas três pessoas no País utilizam esta forma de comunicação.

Rodrigues utiliza libras tátil e sabe ler em braile. Trabalha em um computador devidamente adaptado, utilizando o resquício visual para presidir a Abrasc.

Em maio de 2005, Cláudia Sofia e Rodrigues tornaram-se o primeiro casal de surdocegos do País. Vivem em um apartamento na Vila Mariana, zona sul de São Paulo. Gostam de praticar esportes radicais - ele já foi instrutor de mergulho e ela pulou de paraquedas. Para conversar, utilizam libras tátil. A autonomia dos dois impressiona familiares, vizinhos e amigos.

E o casal ainda alimenta muitos planos para o futuro. "Quero ter filhos", afirma Cláudia Sofia. "Se necessário, vamos adotar."


PARA LEMBRAR

Americana é símbolo para movimento

A primeira pessoa surdocega a receber uma educação formal foi a norte-americana Laura Bridgman, no século 19. Morou a maior parte da vida na Instituição Perkins para Cegos, em Boston. Na década de 1880, Laura dividiu o quarto na entidade com Anne Sullivan.
Anne foi professora da surdocega mais famosa do mundo: Helen Keller. Em sua autobiografia (A história da minha vida, Editora José Olympio), Helen descreve o momento mais importante da sua vida, quando tinha 7 anos: "Descemos o caminho para a casa do poço (...). A srta. Sullivan colocou minha mão sob o jorro da água. Enquanto a fria corrente despejava-se sobre uma de minhas mãos, a srta. Sullivan soletrava na outra a palavra água, primeiro lentamente, depois rapidamente. (...) De repente, senti (...) o eletrizar de um pensamento que voltava; e de algum modo o mistério da linguagem foi revelado a mim."
"Soube então que "á-g-u-a" significava a maravilhosa coisa fresca que fluía sobre minha mão. Aquela palavra viva despertou minha alma, (...) libertou-a! Ainda havia barreiras, é verdade, mas barreiras que poderiam ser varridas com o tempo."

Fonte:Jornal O Estado de S.Paulo - 05/09/2010
Matéria postada no blog da APNEN: 06/09/2010

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