quarta-feira, 13 de abril de 2011

Filho deficiente não é um drama para a família, diz dona Jô

Fundadora da APAE-SP teve filho com Síndrome de Down, que morou sozinho e vivia integrado à sociedade; há 50 anos, diz ela, norma da sociedade era esconder criança com deficiência.
Cláuda Colucci

APNEN, colaborando na divulgação desta matéria: 13/04/2011

Ela figura como um dos principais nomes na história da inclusão do deficiente intelectual no país. Há 50 anos, Jolinda Garcia dos Santos Clemente, a dona Jô, motivada por uma experiência pessoal, fundou a Apae (Associação dos Pais e Amigos dos Excepcionais) de São Paulo.

Dona Jô é mãe de quatro filhos, entre eles Zequinha, portador da síndrome de Down, que morreu em 2001, aos 52 anos. Zequinha, imortalizado nas histórias do cartunista Ziraldo, era independente em uma época em que as pessoas com síndrome de Down ficavam à margem da sociedade. Morou sozinho e tinha vida social ativa.

Em 2008, dona Jô se afastou da direção da Apae, passando o bastão para o filho, o publicitário Cássio Clemente.
Sua principal ocupação hoje é cuidar do marido, o médico Antonio Clemente Filho, 90, que está senil.

"Nós temos um amor que já dura 70 anos. Fizemos bodas de tudo, de ouro, de diamante. Apesar da situação, ele olha para mim e sorri. A paciência que o Zeca me ensinou está me servindo agora", diz dona Jô, 85.

Folha - Quais foram as principais mudanças da sociedade em relação aos deficientes intelectuais nesses 50 anos?
Jolinda Garcia dos Santos Clemente - Quando a Apae foi fundada, a sociedade tinha por norma esconder a criança deficiente. Hoje, existem artistas com síndrome de Down nas novelas, no cinema. Nós, da Apae, sofremos uma resistência muito grande, a começar pelos pais que sentiam medo de expor seus filhos. Hoje, dá satisfação ver mais de 400 moças e rapazes incluídos no mercado de trabalho.

A sra. também foi uma das precursoras da inclusão na sua vida pessoal, já que seu filho Zequinha sempre teve uma vida muito ativa.
Sim, Zequinha morreu com 52 anos, e estava incluído na sociedade.
Nós tínhamos um apartamento no Guarujá e ele ia sozinho ao cinema na sessão das 20h. Voltava às 22h. sozinho, para casa. Um dia, ele foi abordado por um ladrão que lhe perguntou as horas. Ele foi olhar o relógio e o ladrão levou a carteirinha dele. Ao chegar em casa, ele me contou o ocorrido e eu perguntei: "E o que fez?" Ele respondeu: "Ué, fui à polícia". Eu fiquei tão passada, porque nunca pensei que ele pudesse tomar essa atitude.

Qual o seu sonho para os próximos 50 anos?
Sonho com que as pesquisas científicas avancem muito. É o caminho para conseguirmos contornar os problemas de todas as deficiências.
Sonho também que um desses laboratórios multinacionais invente uma pílula que impeça a fecundação de óvulos que carreguem a síndrome de Down.
Hoje tem pílula para a mulher não menstruar, não engravidar, por que não uma pílula que torne o óvulo [com a síndrome] mais pesado e o impeça de ser fecundado pelo espermatozoide?

A sra. sabe que essa sua ideia enfrentaria polêmica? Vão relacionar isso a aborto....
É, vão dizer que eu matei o óvulo, mas não é isso. Ele só não será fecundado. Ter um filho deficiente intelectual ainda é um drama muito grande para uma família.
Eu tinha uma amiga psicóloga que falava um monte, que tinha que valorizar o deficiente etc. e tal. Mas quando ela casou e teve o primeiro filho com síndrome de Down, tentou o suicídio duas vezes.

Existe alguma coisa da qual a sra. se arrepende em relação ao seu filho?
Me arrependo de não ter valorizado mais o Zequinha. Um dia, ele me falou que queria um automóvel. Eu respondi: "Vai aprender a ler e a escrever e aí você ganha o carro". Ele virava o jornal de cabeça para baixo, pelejou para ler sozinho, mas nunca mais falou do carro. A gente tem que aprender a valorizá-los como eles são. Procure saber qual o potencial que eles têm escondidinho. E valorize sempre cada conquista.

Fonte: Folha de S.Paulo São Paulo - SP, 12/04/2011 - Imagem Internet

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