terça-feira, 12 de abril de 2011

Só quero tirar a carteira

(...) É necessidade, respeito. Eu já caí no ônibus porque motoristas não esperam você sentar (...) O médico do Detran foi super grosso, falou que eu não ia dirigir (...) Eu disse: "Olha, doutor, não estaria aqui se eu não soubesse da minha capacidade"
da Redação

APNEN, colaborando na divulgação desta matéria: 12/04/2011

Ela nasceu sem os braços, mas desde pequena se adaptou a fazer tudo com os pés. Crescida, formou-se em artes plásticas na UnB (Universidade de Brasília). Hoje faz direito e já passou em concursos da Polícia Federal e do Tribunal de Justiça do DF, onde trabalha. Mas quer mais. Pretende tirar carteira de motorista, comprar um carro e ter sua liberdade, mas o processo está parado há dois anos no Detran-DF.

Eu nasci sem os braços. Então, procurei me adaptar às coisas como elas são. Desde pequena, minha mãe me colocou para fazer tudo o que as minhas irmãs faziam. Escovo os dentes, como, faço tudo. A única adaptação era na hora de escrever. Eu tinha uma mesinha mais baixa, para usar os pés. Ganhei uma flexibilidade muito boa.

São 28 anos de prática, né? Você vira o centro das atenções. Se pega uma coisa com o pé, forma uma rodinha em volta para saber como você faz aquilo. Não me importo. Tenho vida normal. Vou a barzinho, a cinema. Acho que essa coisa de tirarem do deficiente toda a capacidade que ele tem precisa mudar. Por isso optei pela faculdade de artes plásticas, na UnB (Universidade de Brasília).

Talvez fosse um desafio pessoal, tipo "eu posso, eu consigo, eu vou fazer". Na faculdade, fiz aula de pintura, de desenho, de escultura. Minha deficiência me permite algumas coisas a mais do que outras. Antes de terminar, passei num concurso público da Polícia Federal. Aí comecei no serviço administrativo, onde fiquei quatro anos. Como estava em contato com o direito, resolvi fazer a minha segunda faculdade. Saí da polícia e passei em outro concurso, do Tribunal de Justiça do DF (Distrito Federal). Hoje trabalho com recursos humanos.

Nos concursos, acabo virando incentivo para as outras pessoas. Devem pensar: "poxa, ela tem várias limitações e conseguiu. Por que eu não consigo?"

Todos tem problema

Eu acho que as pessoas projetam na gente, que tem dificuldade, as próprias dificuldades. Problema, todo mundo tem. A diferença é que o meu é aparente, é visível, todo mundo vê... Um problema grave para mim é o transporte.
Eu já caí no ônibus, porque tem motorista mal-educado que não espera você sentar, já sai acelerando. Em Brasília, para ter um transporte decente, tem que ter um carro. Quando o meu pai não pode me levar, eu ando de táxi. Funciona para mim. Eu mesmo, com os dedos, abro e fecho a porta do táxi.
Mas eu quero tirar a carteira, ter independência. Não é um sonho, é uma necessidade. Eu trabalho, estudo, estou sempre correndo. Há dois anos entrei com o pedido no Detran-DF. O meu caso é mais complicado que o de um paraplégico, por exemplo. O médico do Detran precisa atestar a deficiência e apontar as adaptações, mas não especificam quais.
Eu teria que comprar o carro, fazer as adaptações em São Paulo, achar uma autoescola para aprender a dirigir e depois fazer a prova prática para tirar a carteira. E o Detran ainda nem emitiu o laudo inicial. Passaram o caso para o Denatran, que é ainda mais lento.

Volantinho no pé

É um misto de burocracia com má vontade. Aliás, o primeiro médico foi super grosso, disse que não via possibilidade nenhuma de eu dirigir. Foi preconceito! Ele só me olhou, nem perguntou quais seriam as adaptações. Então eu disse: "Olha, doutor, eu não estaria aqui se não tivesse feito uma pesquisa prévia, se eu não soubesse da minha capacidade".

Depois me chamaram para a segunda entrevista. Eram três médicos, e pediram para eu demonstrar habilidade, coordenação motora, força. Me colocaram em um simulador para tirar as medidas.

Eu sei que tecnologia existe. A ideia seria adaptar um volantinho próximo aos pedais. Para acelerar e frear, seria instalada uma alavanca "push-pull", como a usada pelos paraplégicos. Em um carro automático, é claro.
Hoje a previsão do Denatran para a emissão do laudo é de pelo menos mais um ano. Em São Paulo, uma pessoa conseguiu. Deveriam usar o caso dela como espelho para o meu. Afinal, eu sou meio teimosa. Se eu quero uma coisa, eu vou atrás até conseguir. E geralmente consigo.

Fonte: Folha de São Paulo -São Paulo - SP, 11/04/2011 - Imagem Internet

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