sábado, 11 de fevereiro de 2012

Vis Absoluta - Violência Absoluta

Nessa semana, Adriana Lage comenta sobre um tema indigesto e de grande relevância: a violência contra mulheres com deficiência.

Por Adriana Lage

O texto de hoje trata de um assunto sério e meio indigesto: a violência contra a mulher. Não é de hoje que vemos, diariamente, exemplos e mais exemplos de atos violentos envolvendo mulheres. A situação é ainda pior quando essas mulheres apresentam alguma deficiência. Particularmente, não gosto de ficar lendo e ouvindo casos dessa natureza. Não se trata de uma fuga da realidade. Só evito, pois eles me deixam mal, um cadinho descrente na humanidade e totalmente desconfortável. Mas, a melhor arma é sempre o conhecimento! Muitas pessoas ainda acreditam que as pessoas com deficiência são assexuadas. Ainda existe muito preconceito em relação a esse assunto. E, querendo ou não, nós mulheres com deficiência, ainda somos bem vulneráveis...


É fundamental para a mulher com deficiência conhecer seu corpo, cuidar bem dele e se prevenir. É preciso conhecer os métodos anticoncepcionais, visitar regularmente o ginecologista, procurar parceiros que nos respeitem e evitar situações que possam nos deixar vulneráveis. Não se trata de deixar a vida de lado e nos tornarmos reféns do medo e da insegurança. Acho que é possível equilibrar uma vida autônoma e independente com segurança. Para quem tem uma deficiência severa, como uma tetraplegia, uma cegueira total, uma deficiência mental ou surdez, nem sempre é possível sair de casa sozinha. Particularmente, prefiro pecar pelo excesso de zelo que me arriscar. Eu sempre procurei me informar sobre o sexo e suas implicações. Na minha adolescência, meus livros prediletos eram da sexóloga Marta Suplicy. Felizmente, nunca tive problemas sérios em relação a esse assunto. Acho que a confiança e respeito entre os parceiros são primordiais para qualquer relacionamento. Com esses ingredientes, tudo flui naturalmente, independente de se possuir uma deficiência ou não. Uma das armas que uso quando me sinto pressionada a fazer algo que não concordo são minhas unhas. Já tirei sangue algumas poucas vezes de um ex namorado assanhadinho que queria me agarrar contra minha vontade. Sempre ando com unhas grandes e bem lixadas (melhor dizendo, bem afiadas!). Minha irmã fala que não são unhas e sim garras. Uma boa mordida forte também serve para evitar algumas gracinhas não desejadas...

Nesses dias, fiquei chocada com alguns casos que foram postados por amigos no facebook. Em um deles, uma deficiente mental de Bauru foi abusada por três pessoas. Fizeram coisas abomináveis com ela e a deixaram caída, desacordada e sangrando muito num matagal. A mulher teve que passar por cirurgia e tudo. Além da dor física, podem imaginar o estrago que fizeram com essa menina? Não vou entrar em detalhes porque é chocante o caso. Totalmente inadmissível uma coisa dessas. Em outro caso, a mãe de uma adolescente com deficiência física severa e mental começou a suspeitar que seu atual companheiro abusava da filha. Procurou ajuda na delegacia e foi orientada a colocar uma câmera escondida no quarto da filha. Imaginem que situação! A mãe precisou ter muito sangue frio e não levantar suspeitas. Infelizmente, a suspeita se tornou realidade. Pouco depois de instalar a câmera, o padrasto da menina foi pego em flagrante. O pior de tudo é que esses casos estão longe de ser exceção. Acontecem, diariamente, bem diante de nossos olhos. Vale lembrar que os casos de violência ocorrem em todas as classes sociais e, em sua maioria, são praticados por pessoas próximas à vítima. São pais, padrastos, tios, avôs, primos... Muito triste e revoltante essa situação.

Tenho uma amiga cega que mora no interior de São Paulo. Ela sempre pega o ônibus no trajeto casa/trabalho/casa sozinha. Um dia desses, enquanto esperava o ônibus, foi abordada por um homem que queria saber em qual ponto ela desceria. Ela ficou sem saber o que fazer e começou a rezar. O homem insistiu bastante. Felizmente, uma mulher que também estava no ponto de ônibus e conhecia minha amiga de vista chamou a guarda municipal. Nesse caso, tivemos um final feliz. Mas quem garante que nenhum mal aconteceria a ela se a outra mulher não tivesse tomado alguma providência?

Uma delegada aqui de Belo Horizonte me orientou o seguinte: o ideal é sempre ter uma rede de relacionamento e contar com ela. Por exemplo, se tenho costume de sair sozinha, é bom fazer amizade com as pessoas que trabalham no trajeto percorrido – padeiro, sapateiro, pipoqueiro, vendedor ambulante, porteiro, etc – dando preferência para mulheres. Assim, caso algo saia da rotina, sempre estarão atentos e poderão nos ajudar. Outra dica: quando se sentir desrespeitada, faça escândalo! Quanto mais show, melhor. Ela me indicou chamar a polícia, a imprensa, armar um circo mesmo...

O conhecimento é uma das melhores formas de proteger os filhos contra abusos sexuais. A partir do momento em que conhecemos nosso corpo, temos consciência do que é permitido e sabemos diferenciar um carinho de um abuso. Achei muito interessante um artigo publicado há tempos na Rede Saci onde os pais de crianças com deficiência mental são orientados a discutir sobre a sexualidade com os filhos. O artigo ensina, por exemplo, quais tipos de toque são abusivos, quais são permitidos, como lidar com os órgãos sexuais, como os pais podem descobrir se o filho pode estar sofrendo algum abuso e quais os sintomas mais comuns de quem sofre um abuso. É um assunto um pouco desagradável, mas de extrema relevância.

Quando falo em abusos, não estou me referindo apenas à conjunção carnal. Carícias, sexo oral e anal, por exemplo, quando não desejados por todos os envolvidos na situação, também são formas de abuso. Devo lembrá-los da importância do Artigo 217-A do Código Penal Brasileiro. Esse artigo tipifica o crime de estupro de vulnerável - ter conjunção carnal ou praticar qualquer outro ato libidinoso com menor de 14 anos ou alguém que, por enfermidade ou deficiência mental, não tiver o necessário discernimento para a prática do ato, ou que, por qualquer outra causa, não possa oferecer resistência. As penas, nesses casos, são mais severas que as cominadas ao estupro comum.

Em uma entrevista realizada com a Márcia Gori, em dezembro de 2011, conversamos um pouco sobre esse assunto. Ela nos deu dicas valiosíssimas sobre o tema que merecem ser lembradas: “Prevenção contra as DSTs/AIDS é somente com a recusa de transar sem proteção; não tem essa que “já me relaciono há bastante tempo e temos confiança um no outro”. As tentações estão por aí e quem te garante que você mesma não pode cair nessa? Devemos visitar o ginecologista regularmente, mesmo sem acessibilidade, pois é pior se não cuidarmos de nossa saúde; o câncer de mama e de útero só são detectados com exames mais profundos como a mamografia e outros. 

Os abusos sexuais devem ser denunciados, mesmo que sejam pessoas próximas. Peça ajuda para alguém em que confie, porque a Lei Maria da Penha também nos protege com aumento da pena em 1/3. Agora, o que precisamos é nos mobilizar para que essas Casas Abrigos as quais a Lei se refere tenham acessibilidade plena, com toda a infraestrutura arquitetônica, intérprete de LIBRAS no local para fazer a comunicação, cuidadores para aquelas que tem a mobilidade altamente comprometida, para que jamais essa mulher tenha que voltar para a convivência do agressor ou agressora.”

Bondade e respeito andam em falta na nossa sociedade. Cabem a nós, mulheres com deficiência, nos protegermos e contarmos sempre com a bênção divina. E vocês, homens, cuidem melhor desses seres tão especiais que Deus colocou em seus caminhos!


Fonte: Rede SACI -Belo Horizonte-BH, 10/02/2012 -Imagem Internet

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