terça-feira, 6 de março de 2012

Células-tronco: tratamentos se ampliam e cresce procura por serviço

Somente no Espírito Santo, a procura por criopreservação de células-tronco do cordão umbilical cresceu 40% no último ano.

Vitória-O serviço de criopreservação de células-tronco do cordão umbilical, que há alguns anos era tido como um movimento tímido, vem consolidando-se no mercado nacional, e especialmente local, em função dos avanços com as pesquisas na área e também com a maior informação da população. Antes da decisão os casais procuram se esclarecer sobre o tema, aprofundando-se no assunto, o que torna as decisões mais conscientes. Quem contrata sabe que ainda há limitações na amplitude de tratamentos e possibilidades terapêuticas, mas toma a decisão apostando na boa condução científica que o assunto tem tido, e também na chance de uma tranquilidade no futuro.


Reflexo disso é que a empresa capixaba Criobanco Medicina e Terapia Celular – único banco de criopreservação do material com sede no ES - obteve em 2011 um crescimento de 40% na procura pelo serviço em relação ao ano anterior. São quase 2 mil casais capixabas que optaram pelo congelamento do material celular de seus filhos. A instituição atribui o incremento a investimentos realizados em diversas áreas, como equipamentos e processos, além de eventos para esclarecimento sobre as técnicas e o panorama das aplicações desse tipo de células.


Avanço e aplicações de células-tronco-De acordo com o diretor técnico do Criobanco, o médico hematologista Edgard de Barros Nascimento, ao longo dos últimos anos, diversas pesquisas foram realizadas e muitas já apresentam resultados com a aplicação terapêutica das células-tronco de cordão umbilical. Embora ainda haja ceticismo de uma parcela da comunidade científica quanto ao uso autólogo (quando o receptor do material é o próprio doador) dessas células, a ciência deve seguir o caminho que trouxe até o cenário atual.


Desde a realização do primeiro transplante de células-tronco de sangue de cordão umbilical e placentário, em 1988, diversos pesquisadores puseram-se a explorar o potencial dessa fonte celular. Os estudos demonstraram seu potencial terapêutico e possibilitaram, em 1993, o primeiro transplante alogênico (quando o paciente recebe material de um doador), feito em uma criança e, em 1996, o primeiro em um adulto. Esses trabalhos embasaram a realização de mais de 20 mil transplantes até hoje.


“A partir do sucesso nos procedimentos, o armazenamento dessas células tornou-se estratégico, pois dada a facilidade de compatibilização e pronta disponibilidade, um grande inventário diminuiria a espera dos pacientes por doadores compatíveis, proporcionando atendimento adequado. A novidade dos últimos anos que eu destaco é o início das utilizações clínicas dessas células em terapias regenerativas, ainda que experimentais. Estamos presenciando um número crescente de protocolos de pesquisa recrutando pacientes voluntários a ingressarem em estudos para tratamentos de doenças incuráveis, como paralisia cerebral e diabetes, através de células-tronco de cordão umbilical”, explica o médico.


Casos recentes de aplicação:doenças sanguíneas -Em São Paulo, nasceu nesta semana um bebê que poderá ajudar a salvar a vida da irmã, de 5 anos, que sofre de talassemia major, uma doença genética no sangue que pode levar à morte. Para curar a filha, os pais Eduardo e Jenyse, pensaram em ter mais um filho, sem a doença e que pudesse ser doador em um transplante de medula com infusão de células-tronco. A previsão é de que o transplante seja feito até o fim do ano.


Paralisia -Embora a indicação clássica para a utilização das células de sangue de cordão seja o tratamento de doenças hematológicas, a grande concentração de diferentes populações de células-tronco no sangue de cordão umbilical permite o desenvolvimento de tratamentos diversos, capazes de recuperar tecidos de difícil regeneração, como o tecido nervoso.


No ano passado, uma família espanhola recorreu ao programa de transplante de sangue de cordão e medula óssea. Durante o tratamento da menina foram infundidas duas doses das células-tronco de seu sangue de cordão umbilical. Esse tratamento permite que o cérebro tenha seu desenvolvimento preservado pela ação das células transplantadas que atuam principalmente na manutenção das conexões neurais, preservando as funções cognitivas. Logo após as infusões celulares, observou-se a melhora da rigidez muscular da criança e suas funções cognitivas foram se desenvolvendo.


Quais as fontes de células-tronco? Capazes de se multiplicar e se diferenciar em diversos tecidos, as células-tronco são encontradas em todo o corpo humano. No entanto, as fontes mais utilizadas, em virtude da grande disponibilidade, são as da medula óssea e do sangue do cordão umbilical.


Qual a diferença entre célula-tronco embrionária e adulta? As embrionárias têm maior capacidade de diferenciação em qualquer tecido do organismo. No entanto, como as pesquisas com esse tipo de célula foram autorizadas há pouco tempo, a medicina correu em uma via paralela de estudo, descobrindo cada vez mais as diversas possibilidades trazidas pelas do cordão umbilical e da medula, as chamadas células-tronco adultas, que também estão presentes em todos os outros órgãos do corpo humano. Estas últimas de forma diferente das células embrionárias não oferecem o risco de formação de tumores (teratomas) na sua utilização terapêutica.


Quais as vantagens das células-tronco retiradas do sangue do cordão umbilical e da medula? As células-tronco do cordão umbilical apresentam menor chance de rejeição após o transplante, a disponibilidade é imediata, eliminando-se talvez a necessidade de busca por um doador compatível; e, armazenadas, permanecem jovens, possuindo um potencial regenerativo superior ao das células da medula. Em contrapartida, as células provenientes da medula possuem um período de “pega” menor, ou seja, o paciente transplantado retoma sua defesa imunológica mais rapidamente.


Quais doenças podem ser tratadas com a célula-tronco do sangue do cordão? Leucemias, linfomas, mieloma, talassemia, deficiências imunológicas, anemias, doenças do metabolismo, entre outras que possam ser tratadas através de transplante de medula. Estudos indicam, para o futuro, a possibilidade de cura de diabetes tipo 1, esclerose múltipla, lesões raquimedulares, cerebrais, ósseas e articulares, doenças cardíacas etc.


Quanto custa? O serviço de coleta e processamento das células-tronco de cordão umbilical custa em média R$ 3 mil. Para a manutenção do material criopreservado há uma taxa aproximada de anuidade de R$ 625,00, o equivalente a R$ 52,00 por mês. O valor tende a diminuir à medida que aumentar o número de usuários e que os insumos utilizados no processo de criopreservação forem sendo produzidos no Brasil, ao invés de importados.


Um exemplo prático: tenho um bebê e resolvo preservar as células-tronco do sangue do cordão. Anos depois descubro que meu filho tem um câncer de medula ou talassemia ou anemia grave. Vou poder usar o material que guardei para fazer o tratamento dele? A solicitação deverá ser feita por escrito por ao menos um dos contratantes do serviço, desde que apresentem a solicitação médica contendo identificação completa do paciente, local, dia e hora prevista da aplicação das células. Já a aplicação das células cabe à equipe médica envolvida no tratamento clínico do paciente.


Se for o caso de uma leucemia, a preferência será por células alogênicas, ou seja, de doadores e não do próprio paciente. Há relatos de casos autólogos quando não se encontrou um doador compatível. Outras doenças, como anemia aplástica ou neoplasias, entre outras, tendo indicação do transplante, poderia usar as células autólogas preferencialmente.


É sempre compatível o material com o sangue da criança fruto daquela gestação? No caso de autólogo não existe o critério de compatibilidade, pois o material é da própria pessoa. Tratando-se de irmãos de mesmo pai e mãe, a chance de compatibilidade de células-tronco provenientes da medula óssea é de 25%. No caso de células provenientes do cordão umbilical essa chance é em torno de 40 a 50%. Isso se deve ao fato de que as células de cordão oferecem uma menor taxa de rejeição do que células de outras fontes.

Fonte: http://www.revistafator.com.br/ver_noticia.php?not=193407 - Imagem Internet

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