domingo, 4 de março de 2012

Mary: Eita baiana porreta!

- Com licença. Posso entrar ali?

- Pois não, respondi abrindo espaço para uma cadeirante passar e se acomodar na minha frente para prestigiar ao desfile de moda inclusiva em Piracicaba (SP).

Mary posa em arremesso de peso
Eu estava ali para entrevistar pessoas e modelos envolvidas com o evento. Mas, a simpatia e o brilho no olhar daquela moça me chamou a atenção. Percebi que as pessoas que a acompanhavam queriam passear no shopping e ela singelamente disse:


- Podem ir eu vou ficar aqui assistindo



Foi assim que conheci Mary Gonçalves e mais do que uma entrevista sobre o evento da ocasião ela nos contou sua Grande História de vida.
“Olá  sou  a  Mary  Gonçalves. Vim de uma cidadezinha do interior baiano chamada Serrolândia. Nasci sem a perna direita  e tenho deficiência nas mãos. Embora  fosse uma  criança super diferente das demais,  sempre fui super ativa. Tinha facilidade de se entrosar com as  demais crianças. Comecei  a estudar  com a idade de  sete anos  e na época não tinha  nem cadeira manual. Sendo assim tinha que  me arrastar até a escola. Logo ganhei uma cadeira manual a qual servia mais de brinquedo do  que uma  forma de locomoção, pois  como sempre  gostei de  ser independente não gostava de esperar a disponibilidade das pessoas pra me empurrar e asssim cheguei até a minha juventude me arrastando pelas ruas”.
Como foi a sina de muitos nordestinos, o pai de Mary, em 1983, prejudicado pela seca resolveu vir para São Paulo. “Sou a segunda filha de um casal baiano que teve oito filhos. Chegamos direto em Americana (interior de São Paulo) e fomos morar na casa de uns primos. Logo meu pai alugou uma casa  e comprou os móveis  com o dinheiro que  tinha  restado da venda de uma casa , gado  e o que sobrou da lavoura  prejudicada pela seca. Mas, o dinheiro acabou e não tínhamos  mais como pagar aluguel, sem  emprego e tendo que sustentar os filhos pequenos. Então o meu pai aceitou o convite de  um amigo para ir  em uma casinha  super humilde feita  de folhas de zinco . A princípio  não queríamos  ir  pois nunca havíamos morado tão mal assim. Mas não tivemos alternativa. Tínhamos que dormir todos  juntos  em duas camas de casal. Era horrível, quando chegava o frio, o vento forte e gelado batia  nas folhas de zinco”, relembrou.
Mas como eu disse, todo bom nordestino traz no peito a raça e a força de vontade. “Os anos foram se passando  e  minha irmã mais velha conseguiu arrumar seu primeiro emprego. A primeira coisa que ela fez  foi alugar uma casa e nos tirar daquele  lugar horrível. Logo meu pai e minha mãe  também conseguiram arrumar emprego  e as coisas começaram a melhorar .Querendo ajudar no orçamento familiar, apesar da dificuldade que tinha para me locomover,  quis procurar emprego. Fui em várias agências, mas para minha tristeza, assim que me viam diziam que a vaga   já  tinha sido preenchida. Sabia que falavam aquilo porque eu era deficiente”.
Mary em competição de atletismo
Mary em competição de atletismo
Porém desistir não fazia parte do vocabulário de Mary. ” Um dia fui em um lugar que estava precisando de revendedores através de catálogos. A comissão era boa  40%. Resolvi aceitar mesmo sabendo das  dificuldades  que teria de ir de casa em casa oferecendo os produtos. Sabia que não iria ser fácil  pois andar com um braço e uma perna não era nada fácil. Chegava em casa  toda  cheia de dores  minha mão doía e minha coluna encurvada  doia cada dia mais. Mesmo assim, eu não deixava de correr atrás de meus objetivos, de dias melhores. Logo fiz uma clientela  e muitos  me admiravam  pois apesar de minha limitaçío fisica  eu estava sempre lutando , estudava a noite  e meio período cuidava de meus irmãos  mais novos pra que minha mãe trabalhasse  e meio periodo saia pra  vender meus produtos”, contou Mary.
Um belo dia, segundo ela, uma cliente  que trabalhava como  assistente social da promoção social de nome  Nilsa ,vendo todo  sacrifício  de Mary, se interessou pelo caso. “Eu acabei descobrindo  que sou vítima de  talidomida  a droga vendida nos remédios que acabou  deformando várias crianças do mundo inteiro. E quem foi vítima deste remédio recebiam por  direito uma indenização. Corri atrás pois vi a possibilidade  de comprar uma casa pros meus pais, mas não consegui. Alegaram que  20 anos após  eu já não tinha mais esse direito. Só ao benefício de uma pensão vitalícia paga pelo governo”.
Bola pra frente. Foi com o trabalho mesmo que os pais de Mary conseguiram comprar a casinha deles. “Quando  tudo estava bem comprei meu primeiro carro e finalmente  o que eu mais sonhava,  que era a cadeira motorizada  para sair  daquele sofrimento”, desabafou.
Deficiente? Quem eu?
“Sempre fui uma pessoa super  em resolvida com a minha deficiência. Nunca tive vergonha de sair  de casa por ser da forma que eu sou. Para ser sincera eu  só caio na real que sou deficiente quando saio nas ruas e vejo a dificuldade que tenho  para andar nas calçadas pois elas não estão adequadas para cadeirantes  se locomover com segurança e confortavelmente. Ou, senão quando sinto na pele  o preconceito vindo das pessoas. Uma vez conheci um moço muito bonito e começamos   a nos conhecer logo   percebemos que  além de amizade  rolava  algo a mais. Começamos a  sair, mas,  percebi que ele não me apresentava em público. Foi assim durante  uns   quatro meses, até que um dia  ele chegou em mim e disse olha você tem todas as qualidades que um homem aprecia em uma mulher mas não estou psicologicamente preparado pra assumir um relacionamento com alguém como você. Para mim foi difícil ouvir aquilo,  mas consegui superar”.

Mary recebendo premiação
Mary recebendo premiação

Superar? Muito mais que isso…
Num sábado, para  minha  tristeza, meu  pai não resistindo a uma insuficiência respiatória veio a falecer a caminho do  postinho da cidade jardim. Os anos  se passaram e  passei por várias experiências boas e ruins. Mas, a vida é um constante aprendizado. Sentindo na pele o que meus amigos  com deficiência sentiam, um dia eu meu amigo Serginho, também cadeirante, criamos a  ADAR –  ASSOCIAÇAO DOS DEFICIENTES DE AMERICANA E REGIÃO. Minha mãe me  incentivava e ajudava  bastante nos eventos  que   faziamos, mas,  no final de  2003 ela também  veio a falecer por um derrame”, lamentou Mary.
Quer saber onde ela foi parar?
Mary, professor e alunos do Tênis adaptado
Para custear suas despesas, montou um lava rápido com um amigo. E logo fez muitos clientes. “A forma de trabalhar chamava a atenção das pessoas por ser eu mesma que colocava a mão na massa dando todo acabamento na parte interna do carro e supervisionava cada veículo antes de ser entregue. A sociedade não deu certo e acabei perdendo tudo que tinha. Até meu carro tive que vender para pagar as dívidas. Mas, Deus tinha planos melhores para mim. Hoje tenho uma casa linda e o carro que sempre sonhei. Uma Ecosport. Sou atleta medalha de ouro no atletismo também faço tênis adaptado”.


Como assim, atleta?


“Pois é, a convite de uma amiga que mora em Sumaré (SP) comecei a ir toda semana para Unicamp em Campinas para tentar algum tipo de esporte. Fiz basquete, tênis de mesa, natação e handbol. Desses, os que mais me identifiquei foram tênis de mesa e o handbol. Mas, quando estava começando a gostar tive que parar. Era muito cansativo não dava para vir para americana no mesmo dia pois o treino acabava tarde e às vezes tinha que dormir na casa dessa minha amiga”, explicou.


Mas, se a distância dos treinos era a maior barreira, por que não treinar na sua própria cidade? Foi assim que Mary e mais três amigos procuraram o amigo vereador, Joi Fornasari, que é deficiente visual. “Fomos com um objetivo em seu gabinete e acabamos conseguindo muito mais. Pedimos transporte até o aeroporto de São Paulo para pegar o voo para Brasília, onde iríamos participar da chegada dos Mensageiros da Inclusão. Além dele nos conceder o transporte, nos inscreveu no Jogos Regionais e a partir daí começamos a treinar”, disse Mary.


Ela contou ainda que quando chegaram ao local de treino, o treinador se assustou com a quantidade de cadeirantes dispostos a treinar. “Ele disse – não temos nada aqui, mas vamos improvisar. O dardo era de bambu, para se ter uma ideia, mas o que nos importava era participar. Eu participei com arremesso de dardo, disco e peso e para minha surpresa fui medalha de ouro nas três provas e me classifiquei para o Aberto em Santos. Novamente eu fui ouro no dardo, prata no disco e bronze no peso”.


Sonhos?


“Tenho alguns planos para o futuro como ser reconhecida pelo meu trabalho como modelo publicitário e quem sabe participar do grande desfile de moda inclusiva promovido pela Secretaria da Pessoa com Deficiência em São Paulo. Mas meu maior sonho mesmo é ir para o céu. Sei que esse momento vai chegar e será o dia mais lindo que o ser humano possa imaginar. Jesus voltando nas nuvens, nos chamando pelo nosso nome e nos dando um corpo novinho. Já pensou eu que nunca andei, poderei andar”, conclui.


Mensagens:


“Queria deixar uma mensagem para aqueles que acham que a sua vida acabou porque foi parar em uma cadeira de rodas. Numa cadeira de rodas você pode muita coisa basta querer”.


“Aprendi que a vida é muito curta para ficar perdendo tempo tendo peninha de mim. Que nós somos fortes o suficiente para suoperar todas as dificuldades, basta ter fé”.
Mary!


Fonte:http://guiadodeficiente.com.br/guia/index.php/Grandes-Historias/mary-eita-baiana-porreta/

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