sexta-feira, 6 de abril de 2012

Mirian Barsanti: Um exemplo de superação

Nessa semana, Adriana Lage conta a história de superação da nadadora Mirian Barsanti, que se tornou cadeirante após um grave acidente de ônibus.

Adriana Lage

Sempre admirei e procurei me espelhar em mulheres poderosas. Anônimas ou famosas, a história está repleta desses seres iluminados. Anita Garibaldi, Joana D’Arc, nossa presidente Dilma, Madre Teresa, Frida Kahlo, Mara Gabrilli, Ângela Markel, Hillary Clinton e Irmã Dulce são apenas alguns exemplos. Sem falar no contingente de brasileiras anônimas, sempre batalhadoras, às vezes sofredoras, do sertão nordestino, do Vale do Jequitinhonha e de todos os cantos do Brasil. Sempre transformando, a seus modos e com as armas disponíveis, as realidades às suas voltas. Sou abençoada por ter o privilégio de conviver com algumas dessas mulheres fortes: Simones, Lidianes, Fabianas, Márcias, Fátimas, Telmas, Linas, Sheilas, Keillas, Lauras... É quase uma música da Ana Carolina! Dentre minhas amigas, uma se destaca pelo exemplo de superação: Mirian Barsanti. Ela possui 46 anos, é aposentada por invalidez, professora de natação e administradora de empresas. Conheci a Mirian em 2009, em Brasília, na etapa regional Centro Leste do Circuito de Loterias Caixa. Foi paixão à primeira vista. Uma das características que mais admiro nela é a coragem. Ela fala mesmo! Briga mesmo! Não tem medo de se expor. Como dizia Guimarães Rosa, o que a vida quer da gente é coragem! E essa mulher teve a dose necessária para recomeçar e reconstruir sua vida após um grave acidente. Não é nada fácil dormir ‘andante’ e acordar ‘cadeirante’. Vou dividir com vocês essa bela história de superação. Os detalhes sobre o acidente podem ser obtidos no seu blog. Alguns momentos da história contada a seguir são bem tensos e dolorosos, mas servem para mostrar que, tendo coragem, paciência, persistência e vontade, sempre alcançamos nossos objetivos. É como sempre falo em meus textos: tudo depende da forma como olhamos e encaramos a vida.

Adriana Lage: Qual sua deficiência? Conte-nos um pouco sobre o acidente que sofreu. 
Mirian Barsanti: Sou paraplégica nível T6. Bem, meu acidente foi em 07/02/1997. Era passageira do ônibus de uma empresa conhecida e a história está no meu blog www.mirianbarsanti.blogspot.com.br (minhas histórias). Sou vítima e sobrevivente a várias negligências. Quando fui transferida do hospital, em Pouso Alegre/MG, não me entregaram nenhum exame; estava traqueostomizada, com sonda uretral, toda quebrada, sem calha nenhuma, sem diagnóstico da fratura na coluna e com infecção generalizada. Não me imobilizaram; apenas me carregaram em um lençol para dentro do avião, sem suporte para soro e sem oxigênio. Era um Learjet particular, sem infraestrutura nenhuma para um paciente saindo do CTI. Cheguei ao aeroporto da Pampulha e me colocaram em uma ambulância KOMBI do falido Protocor - parecia que eu estava em uma batedeira; foi uma agonia até chegar ao Hospital Madre Tereza. Lá fiquei. Cheguei às 15hs e apenas internei às 19hs, pois tive que fazer raios-X das pernas, já que cheguei sem nenhum exame. No quarto, pedi o oxigênio por causa da traqueostomia que estava entupindo por falta de aspiração e a auxiliar de enfermagem negou: falou que não estava prescrito e precisava me adaptar. Então, passaram-se alguns minutos e me faltou o ar; minha tia e meu pai, que estavam por perto, ficaram nervosos ao ver aquela cena - a pior da minha vida; pensei que iria morrer; não tinha como entrar o ar. A fisioterapeuta chegou com um aparelho pré-histórico de aspiração e melhorei; deu para passar a noite. No dia seguinte, tive que refazer os raios X's das pernas e tive falta de ar novamente. Então a irmã que era responsável pelo meu andar arrumou uma bala de oxigênio e assim fiz a ressonância da coluna que revelou uma grave lesão na T9 - ela estourou. Fiz também uma na cervical porque não tinha forças nos braços. Então, começou o meu calvário! Resumindo, fiz cinco cirurgias sem sedativo e anestesia, não fixaram a minha coluna, queimaram minha barriga com bolsa de água quente, um machucado na cabeça virou uma ferida enorme, e, em vez de tratar a escara sacral que eu tinha e era pequena, deixaram-na ficar enorme por faltas de curativo e limpeza após estar molhada de urina e até de fezes. Era febre de calafrio e de calorão. Compressas de água com álcool à noite toda para baixar a febre. Fui toda espetada: de 8/8hs furavam minha veia para ministrar antibiótico. Estouraram minha veia e aí foi demais porque doeu para caramba e minha mão virou uma bola; foi uma dor terrível! Daí, consegui sair daquele açougue e fui para o Hospital Felício Rocho onde trato até hoje e sou eternamente grata a toda equipe médica que me atendeu e me socorreu. O suplício no Madre Tereza durou quatro meses e meio! Então aprendi a ser brava e ter muita atenção. Foi lá que conheci a Roseli, um dos anjos que apareceu na minha vida porque teve e tem muitos que depois talvez eu te fale, se você quiser é claro! Kkk... Mas deixo bem claro que sempre tive bom humor e nunca pensei no pior; para mim, tudo iria passar; como passou! Hoje estou aqui nadando, viajando, passeando, e batalhando!
AL: Uau! Que história... 

AL: O que mudou na sua vida após o acidente? 
MB: Tudo mudou, pois me tornei dependente de uma pessoa ao meu lado, perdi minha liberdade de ir e vir, tive que aprender a ser paciente e aceitar ajuda, coisa que não acontecia, pois conta minha mãe que, com oito meses, eu peguei a colher da mão dela para comer sozinha: queimei a mão no prato de sopa por falta de paciência de esperar que ela colocasse a comida em minha boca. Rsrs. Fiquei um ano no hospital porque sobrevivi a várias negligências e erros como citados acima, mas sorrindo porque a esperança e a busca pelo melhor tratamento eram meus desejos. Apesar de ter sido super bem tratada no Hospital Samuel Libâneo, em Pouso Alegre/MG, precisava de algo melhor e mais equipamentos. Como fiquei muito tempo no hospital, as visitas foram diminuindo e, com o passar dos tempos, perdi meus amigos: ficaram os de infância, alguns da adolescência e da faculdade, mas aqueles com quem eu convivia e viajava, se foram! Mas fiz novas amizades.

AL: Existem coisas que deixou de fazer? Descobriu novas paixões? 
MB: Ficar sem viajar, não poder pegar uma garupa de moto, sair correndo quando algo me incomoda ou até mesmo ir à missa sem que ninguém vá atrás de mim, por exemplo. Há a preocupação de estar incomodando ou dando trabalho e até mesmo não poder ir a todos os lugares porque não me cabem ou dependo de alguém para me ajudar. Descobri que tenho que nadar e até gosto muito de mergulhar; também gosto de malhar. Aprendi que posso viajar, com alguém é claro, pois agora sou dependente!

AL: Você é uma mulher muito bonita e deve arrasar corações. Como vê a sexualidade das pessoas com deficiência? Enfrenta algum tipo de preconceito em relação a isso? 
MB: Obrigada por me achar bonita, mas, para mim, essa questão ficou para trás. Meu foco é a reabilitação; quero ficar em pé em um aparelho da robótica que me auxilie. Não me importa a beleza nessa hora; quero ver as pessoas em pé! Agora, não condeno quem namora: acho muito normal, saudável e necessário. É importante ter alguém, sofrer por alguém, se aprontar e enfeitar para ti e para quem você gosta. Eu, como as pessoas foram se afastando e, principalmente, os meus amigos e ex-ficantes – alguns até mesmo se assustavam quando me viam na cadeira – então, por isso, mudei meu foco de vida para não sofrer. É uma forma de defesa mesmo! Ah, para os homens, acho que é mais fácil encontrar alguém, porque a mulher tem espírito maternal, gosta de cuidar por natureza; já o homem é medroso e gosta de ser cuidado. Então, existem os fortes, mas são poucos os que superam a barreira do preconceito. 
AL: Se pensarmos na maioria dos homens que andam por aí, a situação é meio desanimadora mesmo. Mas, nunca sabemos o que os deuses nos reservam! Concordo quando diz que poucos superam a barreira do preconceito. Isso vale para mulheres também. É uma questão histórica de exclusão e invisibilidade. Mas as coisas estão caminhando... Evoluindo felizmente. Só discordo quando fala sobre sofrer por alguém. Para mim, amor combina com alegria. Se o sofrimento for freqüente, é hora de rever conceitos e dar um tchau! 

AL: Quais os cuidados para manter seu corpo, essa pele sempre bronzeada e os cabelos loiríssimos sempre bem cuidados? 

MB: Amiga, eu não sou loira, tenho apenas algumas mechas para clarear o semblante. kkkk. Não sou de muita frescura: lavo os cabelos com shampoo sem sal apenas; não gosto de pintar as unhas, mas são arrumadinhas. Só me maquio quando vou à festa; no dia a dia só um batom básico para quebrar a palidez e protetor no rosto, orelha e pescoço. Hidrato bem o corpo e me cuido muito porque ter escara é péssimo.
AL: Seu bronzeado é maravilhoso! Sempre é bom lembrar aos leitores a importância da hidratação da pele na prevenção de escaras. 
AL: Como cadeirante, você enfrenta batalhas diárias. Quais as principais dificuldades enfrentadas no dia a dia? Já sofreu ou sofre algum tipo de discriminação por ser deficiente? 
MB: Barreiras são o que não faltam no dia a dia. Temos desde um degrau até a falta de cidadania das pessoas mal educadas que se acham "a última bala chita do pacote"! No edifício que moro sou mal compreendida e desrespeitada; no clube que freqüento, alguns funcionários teimam em não deixar eu parar o carro na vaga destinada aos deficientes alegando que eu tenho motorista.

AL: Quais são, em sua opinião, os principais vilões dos cadeirantes? 
MB: Os degraus e portas estreitas. Falta de espaço! Depender de ajuda.

AL: Você dava aulas de educação física. Hoje em dia, ainda trabalha nessa área? 
MB: Sou professora de natação, mas devido à complexidade das minhas lesões e idas e vindas ao hospital não deu para eu voltar. Formei-me em Administração de Empresas e não consegui trabalhar por ser graduada. Então me aposentei por invalidez e, quando estou treinando, dou dicas, olho os nadadores quando me pedem e tento incentivar ao máximo as pessoas para se sentirem melhores e menos complexadas.
AL: Aproveito a oportunidade para agradecê-la novamente por todo o incentivo que me deu e dá no dia a dia. Como já registrei no meu texto sobre a minha primeira medalha na natação, você teve papel fundamental nessa conquista. As dicas que me deu sobre orientação na piscina, respiração, nadar com as mãos fechadas, concentração e determinação foram relevantes demais. Você gritando “vamos, Dri” embaixo d’água, me incentivando do outro lado da piscina, comemorando comigo as vitórias, dando o empurrão necessário para encarar a piscina e chegar ao final... Tornaram-me eternamente grata a você. Sou sua fã!

AL: Como é a carreira de atleta? O que a natação representa na sua vida? Quais modalidades você nada? 
MB: Ser atleta é muito bom e me ajudou muito porque eu já era antes do acidente e tenho comigo a disciplina adquirida nesses anos, a garra e a busca pelo melhor de mim. Eu me sinto independente. Livre! Nado os quatro estilos.

AL: Quais as principais competições das quais participou e seus títulos? 
MB: Hoje, após o acidente, não tenho muitos títulos porque dependo de classificações complexas e não simplesmente de uma faixa etária como no máster. Mas, consegui uma bolsa atleta estadual com meus resultados.

AL: Os atletas paraolímpicos são reconhecidos em nosso país? Por que é tão difícil arrumar patrocínio? 
MB: As coisas estão melhorando; a mídia está dando um pouco mais de espaço e notícias. Mas, a política ainda deixa muito a desejar; a corrupção é F...! Os empresários, principalmente os mineiros, preferem guardar o dinheiro no colchão que apostar em alguém que possa lhe dar lucros e reconhecimento.

AL: Você participa de várias competições com pessoas sem deficiência. Como é a recepção dos outros atletas com os deficientes? 

MB: São muito legais minhas competições no máster. Sou super bem aceita, apesar de conhecer muitos atletas por ser do meio e ter voltado após o acidente. Acho melhor que no paraolímpico! Somos mais valorizados pela nossa superação!
AL: Após o acidente, você passou a dirigir um carro adaptado. Conte-nos um pouco sobre essa conquista. 
MB: O carro adaptado é tuuudo!! É um pedaço da liberdade perdida. Eu já tinha CNH antes do acidente e em 2006 eu pude fazer auto-escolta e o exame de rua para mudar minha carteira. Carro automático é o que há!

AL: Nas atividades do dia a dia, você conta com o auxílio de cuidadoras. Como é seu relacionamento com as cuidadoras? Poderia destacar algumas vantagens e desvantagens nesse relacionamento? Para quem deseja contratar um cuidador, por onde começar?
MB: Bom, como qualquer relacionamento, temos que saber conviver e engolir sapos.
A vantagem é que sempre tem alguém para trocarmos uma idéia ou pedir uma opinião. A ruim é que temos que aturar o mau humor, a falta de liberdade e privacidade às vezes. Também é ruim para o bolso, pois tenho que pagar tudo em dobro! Tem que ser por indicação e de confiança. Deixar tudo bem claro e especificado como tarefas, comportamento, vestimenta. Temos que ter paciência para treinar e cobrar. Lembrar sempre que somos uma equipe!

AL: Você faz fisioterapia e sempre está por dentro das novidades da área. O que anda fazendo na fisioterapia? Quais são seus planos para o futuro? 
MB: Na fisioterapia, faço treino de marcha, estimulação elétrica com FES, exercício para tronco, fortalecimento de membros superiores, treino de equilíbrio, manutenção dos ombros (que estão bichados), fortalecimento e ativação de músculos específicos para dirigir melhor, ter melhor postura e menos dores. Minha fisioterapeuta trouxe de SP métodos novos que ela treinou na Fisioaction e estou adorando e melhorando muito.
O meu plano central é poder ficar em pé e andar em aparelho da robótica. Agora, com a perda do meu pai recentemente ando meio perdida, pois eu vivia em função dele. Estou aberta para boas idéias, como ajudar alguma ONG ou sei lá o que? Gosto de ajudar!

AL: Mirian, você é uma mulher guerreira. De onde vem tanta garra e determinação? Quem ou o que te inspira? 
MB: Eu não sabia que tinha tanta força! Fui descobrindo aos poucos, pois sempre penso que amanhã será melhor do que hoje! Minha família é de pessoas guerreiras e teimosas. Gostam de participar e viver muito!

AL: Qual mensagem deixaria aos leitores da Rede Saci? 
MB: Deixo algumas frases:
- Não importa se hoje está nublado; amanhã o sol volta a brilhar!
- Tudo na vida é passageiro; só a morte é certeza!Viva bem e curta tudo!
- A fila anda; não podemos ficar parados!
- Sorria sempre, porque ilumina a alma, pois, além de dar, recebe energia positiva!

Agradeço à Mirian por compartilhar com os leitores da Rede Saci essa bela história. Mais uma vez, aproveito para agradecê-la pelos conselhos técnicos e sentimentais que sempre me dá. Obrigadíssima sempre! 



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