sexta-feira, 10 de agosto de 2012

A novela da cadeira motorizada com apoio para cabeça

Artigo de Adriana Lage.
por Adriana Lage

Estou trocando minha cadeira de rodas motorizada e cheguei a uma triste conclusão: alguns vendedores e lojas (para não dizer a maioria!), em Belo Horizonte, não estão preparados para atender cadeirantes. No último sábado, rodei várias lojas da região hospitalar e voltei para casa indignada com o atendimento recebido. Eu me senti morando numa roça lá pros lados de onde Judas perdeu as botas. Vamos ao resumo da minha saga!

Acessibilidade na Região Hospitalar de BH
Quando se pensa em região hospitalar, intuitivamente, deveríamos pensar em um local acessível. Doce ilusão. Os rebaixamentos nas calçadas existem em grande quantidade. Só que onde já se viu rampa acessível com degrau? Isso sem falar nos buracos e na sujeira. Se estivesse andando na cadeira motorizada, teria dado uma de louca e dividido o asfalto com os carros. Como estava sendo empurrada pela minha irmã, fui vítima das belas rampas. É bem desconfortável! Se for para fazer algo, que seja bem feito! Uma rampa mais ou menos, muitas vezes, é mais desconfortável e perigosa que um degrau.

Na quinta feira, fiz uma pesquisa telefônica procurando o modelo que quero. No sábado, fui apenas às lojas onde tinham me dado certeza que possuíam a cadeira. Das quatro lojas que visitei, pasmem: todas pecam, gravemente, na acessibilidade. Na primeira, colocaram uma rampa móvel, de inclinação duvidosa, bem na entrada. Na segunda, existem três degraus na entrada. Um ser pouco iluminado que, com certeza, nunca foi cadeirante, teve a brilhante idéia de colocar uma camada grossa daquele piso emborrachado anti derrapante sobre os degraus. A inclinação é muitíssimo íngreme. E ninguém oferece ajuda. Parece que a rampa foi feita para subir as caixas dos equipamentos. Na terceira loja, quase tive um ataque com o vendedor! Que figura! Logo que fui me aproximando, um dos vendedores foi logo avisando que a loja será reformada em outubro! Na última loja visitada, também existem degraus e rampas improvisadas. Se quiser mudar de setor dentro da loja, o cadeirante precisará dar a volta pela rua e entrar por outra porta.

Não entrei nas demais lojas que encontrei pelo caminho, mas posso garantir a vocês que a acessibilidade deixa muito a desejar. Minha irmã riu demais da minha indignação quando comentei que a loja de sapatos era adaptada e que entraria lá só para me sentir cidadã de novo. Felizmente, os sapatos do meu número eram apenas ortopédicos. Eles já evoluíram muito, mas alguns ainda são bem feios. Com isso, saí da loja sem gastar um centavo. Aleluia...

Ando muito pouco por essa região da cidade. Minhas experiências costumam ser cômicas. No ano passado, estava no oftalmologista e resolvi trocar minhas lentes de contato. O médico me pediu que fizesse um teste de três horas e retornasse ao consultório. Como eu tenho horror a ficar parada dentro de consultório/hospital e minha mãe paga para andar, fomos bater perna pela região. Era uma segunda feira bem movimentada. Logo que passamos em frente ao Hospital das Clínicas, só ouvi minha mãe rindo e me cutucando. Uma mulher passou por nós, me encarou e suspirou: “Coitada! Tão bonita e andando numa cadeira de rodas! Ô dó!”. Minha mãe sempre brinca comigo dizendo que as pessoas costumam achar diferente o fato de eu andar toda ‘patricinha’ e sorridente. Uma coisa que sempre me acontece e que costuma me deixar invocada é o poder que exerço sobre a turma máster. Minha irmã fala que tenho mais Ibope entre os idosos que a vacina de gripe! Triste isso... Sempre ganho sorrisos e elogios da melhor idade. Um dia desses, um sessentão italiano me encontrou em uma rede social e começou a mandar mensagem no melhor estilo devotee. Falou que eu era linda, que estava decepcionado com as mulheres e que queria uma cadeirante. Por sorte, na minha foto do perfil, eu estava vestida de noiva. Gargalhei quando ele me disse que era uma pena ter se atrasado, pois eu já estava casada. Confirmei e o bloqueei. Cada assombração...

Depois que rodei as lojas, resolvemos almoçar lá por perto. No meio do caminho, minha mãe sofreu um atentado. Uma mulher que estava carregando uma panela de pressão foi me encarar e acabou dando uma panelada na minha mãe. Gostaria muito de saber o que passou pela cabeça da figura! Acabei me lembrando da minha psicóloga. Na penúltima sessão, ela me perguntou como eu reagia frente aos olhares de compaixão. Querendo ou não, é da natureza humana se projetar no outro...

Atendimento
Os atendimentos que recebi foram contra tudo o que sempre aprendi no banco! Nunca vi atendentes tão desinformados e sem iniciativa. Tudo bem que trabalhar no sábado não deve ser muito legal, mas... Lá no banco, sempre buscamos a excelência no atendimento. Acho que ninguém é obrigado a saber tudo, mas ter boa vontade para atualizar nossos conhecimentos, correr atrás da solução dos problemas e identificar as necessidades do cliente de forma a satisfazê-lo são alguns dos requisitos fundamentais.

Recentemente, comprei um Lift de Transferência, que é uma espécie de guincho para realizar as transferências do cadeirante de um lugar para outro sem que o acompanhante precise fazer força. Ando pagando cada mico! Em breve, escreverei sobre isso. Só criei coragem para adquiri-lo após ficar pendurada em um deles na última Reatech. Pois bem, fiz várias pesquisas aqui em BH. Como os preços estavam variando muito, resolvi ligar diretamente para o fabricante. A atendente me disse que repassaria meu contato a um revendedor. Poucos minutos depois, recebi uma ligação de São Paulo. A gerente da loja acabou me oferecendo o guincho com um preço bem abaixo dos encontrados em Belo Horizonte, com entrega em três dias (se comprasse aqui, teria que esperar cerca de 20 dias) e ainda me deu o frete de cortesia.

O problema que enfrentei com o Lift se repetiu com a cadeira de rodas motorizada. Já tenho um modelo da Freedom, mas pretendo adquirir uma cadeira de outro fabricante. Quero me livrar das correias, do fato de precisar encher os pneus a cada 15 dias e diminuir o peso total da cadeira. Antes de procurar atendimento nas lojas, consultei o site do fabricante e anotei minhas dúvidas. Até hoje não responderam meu email! Levei minhas dúvidas às lojas e fiquei triste com a falta de conhecimento.

Na primeira loja, a cadeira estava sem bateria. Isso porque a vendedora havia me informado que não seria necessário marcar um horário para o teste. Quanto mais perguntas eu fazia, mais ela desconversava. Quando outro vendedor teve a cara de pau de dizer que a cadeira com as baterias não passaria dos 30 kg, desisti! Nessa loja, encontrei um cinto de segurança bem legal. Ele parece colete do BOPE, mas funciona mesmo. Custou cerca de R$ 50,00. A vendedora não soube me informar o nome do fabricante. Achei engraçado não ter nenhuma etiqueta no produto. O cinto funciona da seguinte forma: o cadeirante veste o cinto nos braços e nos locais de empurrar a cadeira (acompanhante).

Já na segunda loja, a atendente ficou surpresa quando comentei sobre a possibilidade de colocar um encosto para a cabeça e sobre as baterias permitidas em viagens aéreas. Quando foi me mostrar a cadeira para testá-la, a mesma estava com as baterias descarregadas e com a roda dianteira direita desencaixada! A mulher ficou toda sem graça. Acabei desistindo desse orçamento.

A terceira loja foi um teste de paciência. O vendedor me deixou de castigo enquanto olhava, em vão, os catálogos de produtos. Quando percebeu que estavam desatualizados, abriu o site do fabricante. Sem brincadeira, acho que ele nunca vendeu uma cadeira motorizada. Ele queria me vender uma Freedom de todo jeito. Tive que ensinar a ele como navegar pelo site do fabricante desejado. Quando falei muito na cabeça dele (a figura não conseguiu responder nenhuma pergunta), ele me deixou, novamente, de castigo, e foi atrás da gerente. Enquanto esperava, ri demais com a seguinte cena: um homem estava comprando uma cadeira de rodas para o sogro, mas não o levou. Ele perguntou à atendente para que serviam aqueles furinhos nos pés da cadeira. A mulher teve a cara de pau de falar que eram apenas enfeites, sendo que servem para regular a altura dos pés! Quando retornou, eu sugeri ao vendedor que me desse seu email para que enviasse as medidas da minha cadeira e minhas dúvidas. A figura falou que não! Ele iria ligar para o fabricante, depois me ligaria para pegar as medidas, retornaria para o fabricante, me retornando em seguida. Isso, para mim, é retrabalho! Questionei perguntando se não seria mais lógico ele entrar em contato com o fabricante tendo minhas medidas e dúvidas nas mãos. Depois dessa, desisti!

Minha irmã e minha mãe ficaram gargalhando de mim. Eu fiquei revoltada. Acho que vou montar uma loja com minha fisioterapeuta. Sinceramente, os melhores atendimentos que já recebi, aqui em Belo Horizonte, foram em lojas de donas cadeirantes. Fora isso, tem uma de adaptações veiculares próxima a minha casa. Todas ficam localizadas fora da região hospitalar!

Na última loja, a vendedora também queria me empurrar uma cadeira da Freedom. Nada contra a Freedom, mas odeio quando tentam me empurrar alguma coisa e desconsideram minha opinião. A vendedora não sabia nem como se pronunciava os nomes da cadeira e do fabricante. Novamente, desisti!

Solicitei vários orçamentos (mais de 10) e, até quarta feira, só tinha recebido três! Apelei e liguei para o representante do fabricante em BH. Antes que me identificasse, o vendedor disse que estava ciente do meu caso e que já havia sido procurado pelo fulano, cicrano, beltrano, etc. Nem por isso resolveu meu caso. O drama todo aconteceu porque solicitei o apoio para cabeça. Segundo o site do fabricante, ele é um dos opcionais do modelo escolhido. As vendedoras de Sampa com quem conversei, foram categóricas em me informar que isso era verdade e que não teria problemas. Aqui em BH, recebi informações desencontradas: para uns, isso era possível. Já, para a maioria, eu deveria mudar de cadeira e optar pela reclinável, já que o fabricante não faz mais cadeiras do modelo escolhido com apoio para cabeça!

E jeito é aguardar às cenas dos próximos capítulos e aumentar a minha dose de paciência. Escrevi esse testamento todo para compartilhar com vocês o fato de morar em uma das maiores capitais do Brasil e não ter um atendimento digno quando preciso de informações sobre cadeira de rodas e acessórios. É uma vergonha... Ninguém merece. E olha que a cadeira que desejo custa mais de R$ 7000,00; Ou seja, a comissão que o vendedor receberá será bem gordinha! Isso não é o principal em um bom atendimento, mas, com certeza, conta muito... Espero não precisar comprar minha cadeira em outro Estado!


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