quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Turismo de aventura: uma manhã na 25 de março

Adriana Lage comenta sobre sua aventura sobre rodas na famosa 25 de março em São Paulo.

por: Adriana Lage
                                                                                Imagem Internet

Há tempos era doida para conhecer São Paulo. Acabei deixando a cidade em segundo plano por muito tempo. Nesse ano, matei meu desejo e me viciei. Foram três visitas à Sampa! Passei meu feriado do dia 15 de novembro na terra da garoa, voltando para casa no domingo à noite. Dessa vez, explorei novos lugares e, em breve, escreverei sobre a Liberdade, a região da Praça da República, o Mercado Municipal, GRU Airport, etc. Prometo ser mais comedida e descrever essa nova ida a São Paulo em poucos textos. Mas, sem sombra de dúvidas, minha ida à região da 25 de março merece o texto inaugural!

Durante minhas férias, em maio desse ano, pensei seriamente em passear pela 25 de março. Conversei com muita gente, tentei encontrar, sem sucesso, cadeirantes que tivessem passeado por lá, mas não consegui chegar a um consenso. A maioria das pessoas me disse que seria uma completa loucura e não me recomendaram o passeio.

Como viajaria com minha mãe e irmã, meu primeiro passo foi verificar se as duas comprariam a ideia. Minha mãe não gostou muito das nossas idas aos museus e estava louca para fazer compras. Em seguida, minha irmã estudou, via Google Street, a situação das calçadas pela região e catalogou as lojas que eram do nosso interesse. Para variar, ela cismou e quis andar de metrô. Devo confessar que o metrô de Sampa ainda me dá frio na espinha! Mas vou deixar meu top 5 de temores do metrô para outro texto. Chegamos à região da 25 lá pelas 10h do dia 16. Descemos em uma das saídas da Estação São Bento. Nossa ideia inicial era descer na saída da Ladeira Porto Geral, já que muitas lojas ficam num shopping de lá. Como erramos a saída, fomos andando até chegar na 25 de março. O caminho até a 25 de março não é muito glamuroso. Trombei com muitos vendedores ambulantes, pedi licença a um mendigo e seu cachorrinho para passar na calçada onde tiravam um cochilo e sacolejei por alguns buracos. O interessante é que a maioria das esquinas possui rebaixamentos e o terreno é plano.

Quando cheguei na 25 propriamente dita, fiquei encantada com a muvuca. A maioria das lojas, além de apertadíssimas e lotadas de gente, possui um ou dois degraus na entrada. Ótima desculpa para me conter e evitar compras fora do previsto. Achei muito legal as pessoas me darem licença e abrirem caminho para que a cadeira de rodas pudesse passar. Foram inevitáveis as caras de espanto ao me verem por lá. Um dos vendedores estava fazendo sua propaganda no melhor estilo novela do Tufão. Quando me viu, o homem, simplesmente, parou de falar e ficou me encarando. Quando dei um sorriso, ele disse: “você é doida?”. Continuamos andando no fluxo. Alguns pedaços estão bem esburacados. Preferi andar pelo passeio ao invés da rua. Quando estava chegando à esquina do quarteirão anterior ao do Papai Noel gigante, ri demais com um vendedor de maquiagem. Eu estava séria quando ele me ofereceu uma maquiagem. Quando agradeci, ele me disse: “e um amigo novo? Você quer?”. Não resisti e, quando vi, a dentadura estava à mostra. Antes que fizesse qualquer coisa, a figura completou dizendo “e um namorado por garantia?”. Cai na gargalhada. Vocês não têm ideia da figura! Ninguém merece. Minha irmã me zoa até hoje. Continuamos a caminhada... Eu estava achando tudo muito divertido. Se tivesse mais tempo sobrando, faria um estudo sobre a 25 de março. Que poder é esse que ela exerce nas pessoas? Os preços são em conta sim, mas nem todo mundo encararia uma muvuca dessas para economizar alguns reais!

O trânsito parou na esquina. Era tanta gente que mal conseguíamos andar. Um menininho, vendedor ambulante, ao me ver, começou a gritar: “mulher na cadeira de rodas passando mal! Cadeirante passando mal! Abre alas, gente!”. Ri demais. Um vendedor que trabalha com ele xingou o menino dizendo que eu poderia ficar chateada com a brincadeira. Disse que não tinha problemas e continuei no fluxo.

Ladeira Porto Geral
Quando cheguei ao famoso Papai Noel gigante e me deparei com a Ladeira Porto Geral, vi uma multidão no morro. A Ana me perguntou se eu ainda estava animada para chegar ao shopping. Falei que sim, que estava adorando a experiência e fui chamada de Poliana. Para subir empurrando a cadeira de rodas, é preciso muita força. Minha irmã, que já está acostumada a me empurrar por lugares difíceis, usou luvas para não machucar suas mãos e ter mais firmeza.

De longe e pela TV, a Ladeira não parece tão assustadora. Doce ilusão! Ela é íngreme demais! Do meio para o final então... Santo Deus! Respiramos fundo, pegamos o lado direito e começamos a subir a Ladeira. Pouco depois, uma senhora ficou indignada com a falta de educação do povo e se ofereceu para ajudar minha irmã a me empurrar. Estava tudo bem, até que um carro nos espremeu. Minha irmã se assustou e deixou a cadeira de rodas cair numa boca de lobo afundada. Resultado: a cadeira de rodas tombou para a direita. Já me imaginei com a cabeça rachada! A sorte é que havia tanta gente na Ladeira que a cadeira tombou em cima do povo. Nem cheguei a cair no chão. A multidão me salvou. Confesso que levei um susto danado! Nessa hora, me deu vontade de desistir, mas sei que ficaria arrependida. Nem deu tempo de reclamar ou dar chilique. Um rapaz, meu salvador desconhecido, ofereceu ajuda para subir a Ladeira comigo. Como estávamos próximos à saída do metrô, resolvemos pegar o canto esquerdo da rua.

Saindo no Jornal da Band
Esse pedaço da Ladeira é tão íngreme que meu pescoço estava ameaçando tombar pra trás. Mal tinha me recuperado do susto, quando vi um cinegrafista vindo em minha direção. Segundo minha irmã, a repórter foi descendo o morro e gritando: “fulano, filma ela”! Quando vi, Eleonora Paschoal estava na minha frente me entrevistando. Esses meus cinco segundos de fama me renderam boas risadas e muitas histórias. Quem quiser, pode acessar o link e conferir.

Compras, compras, compras
Quando, finalmente, chegamos ao shopping, nem pude agradecer direito ao homem que me ajudou. Só fui vê-lo no jornal. Ao ilustre desconhecido solidário, meus eternos agradecimentos! Sem ele, não sei se conseguiria ter chegado ao shopping.

O shopping é bem grande. Ele possui elevadores – medonhos, por sinal! Parece elevador de carga. Como possui alguns andares, perguntei a alguns funcionários se existia uma saída onde não precisasse descer a Ladeira. Fiquei toda feliz quando me disseram que sim! Fiz minhas compras feliz da vida. Gente, os preços das bijoux são demais! Para terem uma ideia, comprei um max colar lindo. Em BH, pagaria, no mínimo, 150% a mais por ele. Voltei com a sacola cheia! Irresistível! E os brincos de R$ 1,00? Fiquei boba com a qualidade deles. Isso sem falar nos artigos para nail art...

Como alegria de pobre dura pouco, após descer pelo elevador, descobri que a saída no início da Ladeira tinha escadas. Acabei desistindo e voltando para o local onde entrei. Essa é a única entrada sem escadas.

Descendo a Ladeira
Quando começamos a descer a Ladeira, a multidão estava ainda maior. Segundo os noticiários, cerca de um milhão e meio de pessoas passou pela 25 na sexta feira. Quando eram três horas da tarde, o trânsito no entorno da 25 estava refletindo em outras áreas da cidade.

Estava difícil demais para andar. Várias pessoas, que estavam subindo a ladeira, me disseram para desistir. Muitas me disseram que tinham gasto cerca de 20 minutos no trajeto. Estava um empurra empurra danado. Um carro havia passado no pé de uma menina e o resgate tinha demorado a chegar. Simplesmente, o caos! Minha mãe foi até a estação do metrô para saber se era possível fugirmos por lá. Negativo! Enquanto ela não voltava, fiquei parada na Ladeira com a Ana. Todo mundo que me via me chamava de louca e dizia para não descer. Nosso plano inicial era sair pela 25 e irmos almoçar no Mercado Municipal.

Acabamos desistindo de encarar a multidão – sem falar que estava morrendo de medo de descer a ladeira! Já tinha passado por forte emoções... Subimos, com muito custo, o final da ladeira. Nessa hora, os carros estavam buzinando sem parar e espremendo os pedestres. Só queria sair do tumulto o mais rápido possível. Minha mãe queria passar em uma loja de fantasias, mas pedi para me tirarem dali primeiro. O empurra empurra me assustou! Quando estava chegando à esquina, minha irmã presenciou uma cena engraçada. Eu, como estava assustada, não processei mais nada. Tico e Teco estavam em stand by. Um homem falou para o seu amigo: “Cara, você já viu isso aqui? Alguém de cadeira de rodas nessa região? Só pode ser louco!”.

Entrei em um banco que fica na esquina e fiquei esperando minhas companhias voltarem na loja de fantasias. Estava tudo tão lotado que demoraram pouquinho por lá.
Depois disso, fomos passear no Mosteiro de São Bento e terminar o dia na Praça da República. Mas isso é assunto para outro texto!

Meus segundos de fama
Não imaginei nunca que sairia na TV. Sabia que a região da 25 de março era complicada para cadeirantes, mas nunca imaginei que essa aventura me renderia tantos frutos.

No dia seguinte, quando saí na porta do hotel, o mensageiro veio me perguntar se eu tinha ido à 25 no dia anterior. Quando falei que sim, ele abriu um sorriso dizendo que tinha me visto no jornal e que tinha ficado com preguiça só de imaginar a confusão.

No sábado, o chefe do restaurante do hotel veio me zoar dizendo que eu era artista e me matou de rir quando tirou do bolso um pedaço de papel e caneta para me pedir um autógrafo!
Uma tia da minha prima, que estava em Ipoema/MG, literalmente na roça, ligou para minha prima dizendo para correr e ligar na Band, pois eu e a Aninha estávamos por lá.

Na segunda feira, tive uma reunião no banco. Quando terminou, dois colegas de trabalho com os quais tenho pouco contato foram brincar comigo. Ri demais! No meu trabalho, tive minha semana de celebridade instantânea. O triste é saber que, passeei por vários lugares glamurosos de Sampa, mas fiquei com fama de sacoleira!

Nas redes sociais, muitos amigos mexeram comigo!

Hoje, uma amiga do trabalho que estava destacada em Brasília, voltou para nosso setor e me perguntou se eu estava na 25 no feriado? Mais uma que me chamou de louca!!!

Resumo da aventura
Essa aventura na 25 de março serviu para me mostrar que não há limites. Não vou mentir dizendo que é fácil passear nessa região quando se é cadeirante. Mas posso garantir que não é nenhum bicho de sete cabeças. Em feiras, shows, nos centros das principais cidades, por exemplo, sempre iremos nos deparar com multidões apressadas, falta de educação, etc. O principal ingrediente é a disposição. Se tiver isso, o resto se ajeita pelo caminho. Como podem notar nesse relato, mesmo em meio à muvuca e correria, sempre encontramos alguém solidário! Voltar para casa com um max colar, cheio de pedras lindas, por apenas R$ 55,00 não tem preço! Sem falar na economia que fiz com meus brincos de zircônio (ou melhor, zircônio Xing Ling) e pincéis de maquiagem.

Enfim, vou usar uma frase que ouvi muito nesses dias para resumir meu passeio pela região da 25 de março: “o bagulho é louco, meu”!

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