sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Causos do dia a dia


Artigo de Adriana Lage

Adriana Lage
Em semana de aniversário, a correria aumenta e o famoso inferno astral bate na porta para piorar tudo. Não acredito muito nessas coisas. Mas, coincidência ou não, o bicho anda pegando nesses últimos dias antes de soprar as velinhas. Ando tão cansada que até a inspiração para escrever anda sumida! Por isso, hoje serei breve e contarei algumas experiências pelas quais passei nos últimos dias.

Criança versus cadeirante na piscina 
Sempre me sinto um E.T. perto das crianças que freqüentam a academia onde faço natação. Logo que me vêem, as carinhas de surpresa são ótimas. Tem criança que me olha feito um scanner. Os olhinhos assustados percorrem todo o meu corpo procurando explicações. Outras, quando sorrio ou pergunto algo, saem correndo. Algumas, quando param para me perguntar como consigo nadar, costumam ser xingadas pelos pais. Eu não ligo para nada disso. Acho mais do que normal essa curiosidade. O que mais me encanta nesses baixinhos são a sinceridade, simplicidade e falta de preconceito. Sempre comento com os pais que xingam as crianças que não me importo em explicar e que isso ajuda para não crescerem preconceituosas.

Um dia desses, ganhei uma fã de seis anos. Logo que meu técnico subiu as escadas carregando minha cadeira de rodas até a borda da piscina, a menina veio falar comigo. Começou olhando ressabiada até que mexi com ela e perguntei seu nome. Depois disso, foi aquela enxurrada de perguntas! É, Gilson, pode se sentir vingado pelos interrogatórios... Ela ficou curiosa para saber por que eu era cadeirante, me contou que um amiguinho estava de molho nas aulas de educação física porque tinha quebrado o pé, queria saber como entraria na piscina, como era possível nadar só com os braços, etc. À medida em que fui colocando os acessórios de natação, ri demais! Quando peguei minha touca cor de rosa, ela ficou louca. Aí, viu que meus óculos eram azuis e me sugeriu que fossem cor de rosa para combinar com a touca.

Ela morreu de rir quando contei que só conseguia nadar com uma narizeira e que precisava da ajuda do meu técnico para colocar a touca. Ela ficou surpresa e não desgrudou o olhar. Quando me viu de narizeira azul, completou dizendo que eu tinha razão quando falei que ficava muito feia com ela e também me recomendou encontrar uma que fosse rosa ou vermelha. Afinal das contas, azul é cor de menino. Eu e o Gu morremos de rir. Quando ele me carregou para dentro da piscina, mais perguntas! Nesse dia, só nadei costas.

Ela foi me acompanhando do lado de fora da piscina até o momento em que sua mãe chegou para buscá-la. Pena que depois acabei me desencontrando dela. Com certeza, deve ter me achado um ser bem exótico e espalhado para muita gente. Essa não deve crescer pensando que cadeirante não pode nadar sozinho.

Há uns três anos, quando me viu nadando peito, minha priminha ficou maluca. Achou uma coisa do outro mundo eu ficar tanto tempo sem respirar e depois me virar igual a uma baleia – nem sei como baleia nada, mas ela me falou isso! RS. Ela fez várias imitações para a família nadando a seco. Lalá gostou tanto que hoje faz natação e já anda ganhando suas medalhas.

Enchendo o pneu da cadeira de rodas 
No último sábado, fui ao posto de gasolina encher os pneus da minha cadeira de rodas motorizada. Quando estava na esquina, minha irmã viu que o aparelho estava estragado. Como não queria perder a viagem, entrei no posto e perguntei se tinha outro aparelho. Um funcionário, que na vez anterior, quase explodiu meu pneu colocando 85 libras ao invés de 40, quando me viu, foi logo se oferecendo para me ajudar. Ele quebrou meu galho e encheu meus pneus na parte de troca de óleo. Ainda me disse que, sempre que o aparelho estiver quebrado, para eu pedir ajuda a ele. Caso ele não esteja por perto, me orientou pedir ajuda ao caixa. Ele ressaltou que muitos funcionários não teriam boa vontade em me ajudar. Como o posto cobra R$ 1,00 por 4 minutos de utilização da máquina, deixei minha moeda. Ainda bem que ainda existe gente solidária nesse mundo. Andar com pneu vazio é terrível! E, enchê-lo no braço, quase impossível...

Andando pela rua 
Ultimamente, quando ando, a pé, na minha cadeira motorizada, tenho me deparado com muitas pessoas educadas. Em uma avenida movimentada próxima a minha casa, alguns seres sem luz cismaram de estacionar os carros nas rampas. Dá vontade de deixar um bilhetinho para os mal educados. Ou subo o degrau altíssimo da calçada ou me arrisco no meio dos carros. Acabo preferindo a segunda alternativa. O povo não respeita nada mesmo. Acho muito bacana quando alguns pedestres se oferecem para me ajudar a subir na calçada ou sinalizar para os carros.

No último sábado, fui cortar minhas madeixas. O salão fica em uma rua bem movimentada e íngreme. Quando estava descendo o morro para voltar para casa, uma senhora correu e segurou a cadeira. Levei um susto! Na verdade, ela pensou que eu estava descendo o morro apenas com a força do meu braço. Ficou com medo da cadeira sair correndo morro abaixo. Expliquei a ela sobre o freio eletromagnético, sobre as baterias e agradeci bastante pela atenção e cuidado. Chique demais! Hoje em dia, são poucas as pessoas que se preocupam com o próximo.

Tenho um vizinho que é uma figura. Independente da distância, ele só anda de carro. Sempre que me vê na rua, ele brinca que estou na contramão e ameaça ligar para me denunciar na BHTRANS. Um dia desses, fui desviar de uma caca de cavalo e parei no meio da rua. Ele fez gracinha demais...

Entrevista da Adriana Buzelin 
Nessa semana, recebi um ‘puxão’ de orelha via facebook. Uma jornalista de São Paulo me procurou para comentar sobre a entrevista que publiquei na semana passada. Conversamos bastante e vou aproveitar a deixa para lembrá-los, caros leitores, que não necessariamente a opinião dos entrevistados é a mesma que a minha.

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