quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

A inclusão na sociedade de pessoas com deficiência: uma mudança cultural urgente e necessária.

Por: Maria Martha Costa Hübner*

Imagem Internet
Para que possamos ter uma pequena ideia da complexidade que o processo de inclusão social requer, gostaria de começar a análise da questão apresentando a experiência de quatro anos no Programa “Ciência e Exceção” da Academia Brasileira de Ciências, do qual fiz parte, como colaboradora convidada, na qualidade de docente da Universidade de São Paulo e como especialista em Análise do Comportamento.

Em 1996, a Academia Brasileira de Ciências (ABC) iniciou o Programa Ciência e a Exceção, de natureza multidisciplinar, a fim de verificar como a Ciência poderia amenizar as dificuldades de pessoas com deficiência e identificar projetos eficazes para melhor integrá-las com suas famílias e suas comunidades.

Como parte desse Programa, sob a coordenação do professor Paulo Rodrigues, elaborou-se um Projeto Binacional Brasil - Estados Unidos para a formação de lideranças que construíssem a inclusão social das pessoas com deficiência no Brasil. Convidou-se duas grandes universidades brasileiras (Universidade de São Paulo – USP e Universidade Federal Fluminense- UFF) e duas grandes universidades americanas (University of Maryland e University of Milwaukee), além de mais de uma dezena de organizações não governamentais brasileiras e americanas voltadas ao trabalho com estas pessoas.

O modelo do projeto, idealizado pelo professor Maurice McInerney, da American Institute of Research, era buscar a troca de conhecimentos entre profissionais das realidades brasileira e norte americana, envolvidos no trabalho de inclusão da pessoa com deficiência.

Propôs-se a aperfeiçoar o trabalho voltado a esse público aumentando a efetividade de suas ações voltadas para torná-las mais independentes no seu cotidiano, favorecendo a sua inserção social.

Para atingir estes objetivos, o projeto proposto realizou, dentre outras, as seguintes etapas: 1) estabeleceu parcerias com as organizações não governamentais com uma história consolidada de prestação de serviços a pessoas com deficiência, assim como outras organizações sem fins lucrativos, no Brasil e nos Estados Unidos, que viabilizaram o acesso ao conhecimento gerado pelas experiências bem sucedidas, em ambos os países, para a promoção de sua completa inserção social (trabalho, lazer e educação); 2) desenvolveu um programa de ação empreendedora social que envolveu o ensino para o trabalho e alocação profissional das pessoas com deficiência, preparando-as para vida cotidiana em suas residências, escola e comunidade. Além disso, formou recursos humanos para o suporte à inserção social desse público e aperfeiçoou a criação de dispositivos residenciais (moradias assistidas).

O programa teve a duração de quatro anos e contou com o financiamento da CAPES (Coordenadoria de Pessoal de Nível Superior) e da FIPSE (Funds for the Improvement of Secondary Education). Mobilizou uma centena ou mais de profissionais em visitas, cursos, treinamentos, congressos e produziu um intercâmbio fecundo e dinâmico não só entre profissionais, mas entre estudantes de graduação, de pós graduação, pais, crianças e adultos com necessidades educacionais específicas, de ambos os países envolvidos e suas marcas e lembranças afetivas e profissionais tornaram-se indeléveis. Nossas vidas foram transformadas e hoje não conseguimos realizar nosso trabalho sem que pensemos, a cada dia, o que estamos fazendo para a inclusão social de pessoas que não foram inseridas de modo natural, desejável e esperado. 

Infelizmente ainda não mudamos o mundo, mas percebemos que para mudar o cenário que desejamos é preciso, antes de tudo, muito estudo, competência e uma longa história de ensino e vivência sobre a defesa de direitos civis.

Um dos curiosos e assustadores conhecimentos adquiridos neste Programa foi o de que, na época em que aconteceu, os Estados Unidos não tinha uma legislação tão clara a respeito da inclusão como tem o Brasil, que obriga escolas e empresas a aceitarem a pessoa com deficiência, mas uma história de trinta anos de luta civil por direitos humanos das minorias e muito esforço e investimento na formação de competências para o manejo no ensino e trabalho de pessoas com deficiência, visando sua independência, autonomia e, sobretudo, o respeito que gera nas outras pessoas.

Nesse sentido, nosso país ainda era jovem e preconceituoso nesta questão. Já havia uma lei que favorecia a inclusão no trabalho, mas nossa história de luta pela igualdade, pela equidade, de tentar superar as práticas segregacionistas ainda era mais livresca e formalista do que autêntica, genuína e corajosa. A luta pela inclusão social não nasceu de uma prática cultural, mas de normas impostas por setores da sociedade. Assim, o processo de aceitar e lutar pela inclusão social como um direito do outro, do qual não posso me esquivar e de ter plena certeza de que é preciso competência e trabalho para que esta inclusão ocorra de modo completo, se apresentava ainda imaturo na sociedade e, obviamente, na escola.

A escola ainda vive sob a égide da normalização, que entende a pessoa com deficiência como aquele que não é eficiente ou que tem o ritmo de desenvolvimento atrasado em relação à maioria. Note-se que esta ótica também escraviza os alunos que não apresentam deficiências, mas que têm diferenças óbvias entre si. Ainda no século XXI nosso sistema educacional ignora a heterogeneidade existente entre os seres humanos e trata da avaliação escolar como se todos apresentassem um mesmo ritmo de aprendizagem. Ignora também mais de 36 anos de pesquisa comportamental que já apontou a imensa superioridade do ensino individualizado sobre o maciço. Em outras palavras, a ideologia ainda reinante nas escolas é a de estranhamento e exclusão ao que é diferente. Mas não há mais espaço social e nem lei que permita isso. Resta, entretanto, saber se há competência e disponibilidade para que a lei seja cumprida. Para tal, seria preciso que cada escola pudesse participar de um programa como aquele oferecido e elaborado pela Academia Brasileira de Ciências que aqui descrevi, ainda que brevemente. Mas isto seria o ideal. Vamos à realidade. Ela me permite que pelo menos eu possa contar o que lá aprendi.

Aprendi que é preciso ensinar a cada professor os princípios da educação inclusiva, sua raiz social, seu valor emocional. Discutir extensamente com ele, para que tenha, consigo, a clareza da auto consciência inclusiva. E, sobretudo, é preciso ensinar, de fato, o que seja incluir, no dia a dia. Incluir vai desde coisas bem simples, como ensinar um colega sem deficiência a empurrar um colega cadeirante, até as mais complexas, como ensinar um amigo a iniciar uma conversa com um autista e a ter a paciência de esperar a sua resposta e, nem por isso, deixar de lhe dar a mão ou um bom dia quando ele chega à classe.

O desenvolvimento de um repertório de habilidades, por meio de um programa especial e individualizado pode e deve ser realizado por especialistas, que auxiliam o professor. O professor não precisa fazê-lo sozinho. Mas é preciso que a escola (leia-se direção) esteja disposta a aceitar a colaboração de especialistas e acompanhantes terapêuticos na escola e entendam que a inclusão social de pessoas com deficiência na escola é um trabalho multidisciplinar e multi-institucional e de intensa integração pais-escola.

Hoje coordeno o Programa CAIS-USP – Centro de Atendimento ao Autismo e Inclusão Social, que atende pais e crianças no espectro autista com o objetivo de ensino de linguagem e promoção de sua vida integrada em sociedade. É constante o aparecimento de escolas que não aceitam facilmente o trabalhoso e necessário programa de inclusão; escolas que o concebem como perda de tempo e que optam ou por rejeitar o aluno com deficiência ou por fazer de conta que lhe ensina alguma coisa. Indispostas a aceitarem o diferente, vendo-o como exceção. Ainda não perceberam que a regra é a exceção e que não há mais espaço para a segregação.

Convido a todos os professores a sentirem de perto o encanto que é ver uma criança com deficiência aprender vivamente e conviver com seus colegas com muita alegria. Convido a correrem atrás do tempo perdido em exclusão e despreparo. Pelo menos 16 milhões de pessoas no Brasil esperam por isso.

*Maria Martha Costa Hübner é docente do Instituto de Psicologia da USP, departamento de Psicologia Experimental. Foi Presidente da Associação Brasileira de Psicologia e Medicina Comportamental de 2009 a 2011 e Representante Internacional da Association For Behavior Analysis.

Este texto foi adaptado de artigo de sua autoria publicado pela Revista Síndromes, em setembro e outubro de 2011.

Fonte: http://www.diversa.org.br - Imagem Internet

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