domingo, 21 de julho de 2013

Aos 86 anos, Seo José um resistente ícone do sorvete de rua

Mais antigo sorveteiro de Posse está há 40 anos no ramo e é figura popular.
GUSTAVO ABDEL - SANTO ANTÔNIO DE POSSE

Fotos: TodoDia Imagem
Vendedor anda com gaita pelas ruas de Santo Antônio de Posse anunciando seus sorvetes: ele trabalha de segunda a segunda
Henrique, 5, caminhava apressado com o pai na movimentada calçada da Rua Jorge Tibiriça, no Centro de Santo Antônio de Posse, quando de repente gritou: “Pai, olha lá o Zé! Quero um de chocolate. Eu quero!”.

O sol escaldante das 16h de fato estava convidativo a um sorvete, e quando avistou a figura de Seo José atravessando a esquina da Rua Santo Antônio, o pequeno possense não titubeou e em segundos já estava debruçado sobre o humilde carrinho de José Expedito Rosa, o mais antigo sorveteiro em atividade naquelas bandas. Após a venda, Henrique seguiu se enlambuzando, enquanto Seo José apressava-se para vender os últimos picolés antes do sol se pôr.

“Quem toma picolé tem muita fé em São José, e nunca anda a pé. Só anda se ‘quisé’”. O famoso bordão já é de conhecimento da maioria dos possenses que compra seus picolés. As cantigas assobiadas e o som da inseparável gaita de plástico, que minuto a minuto é tocada anunciando a sua passagem, são as demais marcas registradas.

Aos 86 anos, quase metade deles caminhando por entre as ruas da maioria dos bairros de Posse, Seo José é um dos primeiros - e com certeza o mais conhecido - a sair pela cidade atrás da clientela.

Em meio a tantas sorveterias do tipo “self-service”, ele garante que um picolé caseiro ainda tem muita procura, e que não deve parar tão cedo de trabalhar. Se depender de Ivone Cimadon, a proprietária da sorveteria cinquentenária onde são fabricados os picolés, Seo José continuará como o único vendedor em carrinho, logicamente até quando a saúde dele permitir.

“Trabalhando com os nossos picolés ele já completou uns oito anos, e é um ótimo vendedor”, disse Ivone. “O som da gaita e a própria figura dele atrai as pessoas, principalmente as crianças. Ele é muito querido na cidade”, afirma.
O chapéu de palha enterrado na cabeça e as costas encurvadas de tanto debruçar-se sobre o carrinho ao longo da vida chamam a atenção de quem o vê pela primeira vez. A aparente fragilidade logo é desmentida pela rapidez com que empreende os passos e a força com que pilota o carrinho, somente com o braço direito, por entre as tantas ladeiras. Cansaço? “Somente um pouco nas pernas, no fim do dia.”

Popular, sorveteiro recebe ajuda de clientes
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Ainda na Rua Jorge Tibiriça, Djair dos Santos, 45, chama de longe Seo José, que vira o carrinho e volta até a casa por onde passou há alguns segundos. Djair, que comprara sorvete um dia antes, agora vinha com um mimo ao sorveteiro. “Seo José, minha mulher mandou esse pano de prato para o senhor. Foi ela quem pintou e disse para o senhor substituir esse.”

O pano surrado e sem vida que ajudava a tampar as frestas do carrinho e conservar o gelo por mais tempo foi então substituído por um novo, com a pintura colorida e o mais importante dos incrementos: o carinho da mulher de Djair. “Minha esposa é quem faz a pintura do pano, e ontem vimos que o dele estava precisando ser trocado. Esse homem é trabalhador, um exemplo, merece nossa ajuda”. Sem jeito, Seo José agradece e logo sai apressado.

AJUDA
Muitas pessoas ajudam o humilde sorveteiro, com o almoço, na compra de grandes quantidades de picolés e com mimos iguais ao da mulher de Djair.

Seo José é categórico ao afirmar que somente trabalha por “necessidade”, e que apesar de ser o último, ou o primeiro, ou o mais antigo na sua profissão em Posse, o que importa mesmo é ajudar a família, e nada mais. “Faça chuva ou sol estou na rua com meu carrinho. Trabalho até no dia 18 de março, data do meu aniversário. Não paro por nada. Minha família em primeiro lugar”.

Das 11h às 17h30, de segunda a segunda, veste sua bolsa a tiracolo, o chinelo havaianas e sai às vendas. Anda praticamente no meio da rua, e carros, motos e ônibus que se virem.

Filha doente e filho dependente.
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Menino se debruça sobre carrinho para escolher sorvete
A esposa Joana, 60, não trabalha há anos, pois cuida da filha Fabiana, 26, que sofre de uma doença ainda não diagnosticada pelos médicos que atinge o sistema digestivo. Segundo José, ela só ingere leite, e do tipo especial, daqueles cuja caixa custa mais de 80 picolés ao sorveteiro, segundo ele.

“Trabalho por necessidade, para manter essas despesas, pagar meu aluguel e sobreviver. Porque o pobre trabalha para comer, e o político não trabalha porque tem cinco dedões nas mãos, que enfiam no bolso do povo e enriquecem rapidinho.”

O aluguel paga desde 1972, quando chegou de Paraisópolis, no sul mineiro, a Santo Antônio de Posse, e hoje está na faixa de R$ 250 para os quatro cômodos apertados de uma casa no bairro Monte Santo.

“O proprietário está querendo aumentar o valor. Daí não vou ter condições de morar lá e em nenhum outro lugar. Não sei o que vou fazer”, desabafa.

Já o filho Rogério, 40, está internado há dez meses em uma clínica de recuperação para dependentes de álcool na vizinha Pedreira. Seo José visitou o filho, porém, ao iniciar uma benzeção sobre Rogério, uma moça da instituição disse que o que ele fazia era bruxaria. Por essa razão, segundo ele, não mais foi até Pedreira. 

Ele disse ter fé que o filho vai se recuperar.

Idoso sofre com trapaças.
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Sorveteiro ganha mimos de clientes que o consideram exemplo
Ivone Cimadon e o próprio Seo José contam que a ação de jovens, e também de adultos, que passam para trás o sorveteiro ainda é frequente.

Compras com notas falsas, furtos de picolés e até xingamentos fazem parte da rotina do octogenário. “Fiz um plano. Vou comprar um 380 (número que denomina o calibre de um revólver) e esperar o próximo engraçadinho. Mas antes deixo um testemunho na delegacia, informando quais as pessoas que vão se ver comigo. Tem uns que bem que merecem, viu”, esbraveja.

Seo José é aposentado, e paralelamente às vendas de picolé, já trabalhou como cobrador de ônibus e em varrição para a Prefeitura de Posse. Os sorvetes vendia nos finais de semana, mas quando a idade avançou e as possibilidades de emprego fixo se exauriram, optou por assumir de vez a profissão de sorveteiro, durante todos os dias da semana. Para cada picolé vendido, ganha R$ 0,50, e os sabores que mais vende são de chocolate, coco e amendoim.














Fonte:http://portal.tododia.uol.com.br/ - “Matéria postada em caráter informativo”

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