terça-feira, 10 de junho de 2014

Carta de repúdio repúdio à reportagem publicada pelo jornal Folha de S. Paulo, em 7 de junho, intitulada "Jovens Estilistas Criam Roupas para Deficientes Visuais"

A carta foi escrita pelo Movimento Cidade para Todos

Movimento Cidade para Todos

Aos estilistas da Casa de Criadores e à sociedade em geral,

O Movimento Cidade para Todos, constituído em grande parte por pessoas com deficiência visual, vem a público, e principalmente aos responsáveis pelo ramo de moda e vestuário, manifestar seu repúdio à reportagem publicada pelo jornal Folha de S. Paulo, em 7 de junho, intitulada "Jovens Estilistas Criam Roupas para Deficientes Visuais", que segue abaixo de nossa carta para conhecimento de todos.

Antes, eximimos de responsabilidade os estilistas envolvidos nesse projeto, aos quais desejamos muito sucesso e de quem temos certeza de que a intenção foi a melhor possível. Contudo, o conjunto de pessoas cegas deste e de outros grupos com os quais nos articulamos sentiu-se ultrajado pela matéria, que demonstra total desconhecimento sobre a realidade da pessoa cega.

Totalmente desnecessárias, calças com elásticos no lugar de botões, couro e tricoline para distinguir lados da roupa, jaquetas com diferenciação entre os tecidos da frente e das costas, numeração em alto relevo nos bolsos de coletes e outras "soluções" apresentadas, menosprezam a intelectualidade e capacidade de vestir-se das pessoas cegas que, certamente, mais uma vez não foram consultadas nesse projeto.

Será que alguém, por um acaso, vê por aí uma pessoa cega andar com uma roupa pelo avesso ou aberta por não saber fechar um botão? Quem é que, mesmo enxergando, deixou de vestir-se corretamente e sem dificuldades por fazê-lo no escuro?

Lamentamos informar, portanto, que os senhores estilistas, assim como os leitores da Folha de S. Paulo, caíram em uma verdadeira cilada. Os estilistas, ao produzirem e anunciarem a criação de uma moda "pensada" para pessoas com deficiência visual, trabalho em que foram extremamente mal orientados e que, certamente, foi realizado sem o suporte de pessoas com deficiência visual verdadeiramente sérias e comprometidas com a inclusão e melhoria da qualidade de vida desse grupo social.

Esclarecemos que uma pessoa cega apenas não enxerga, mas tem todas as outras funcionalidades do corpo preservadas. Andamos, comemos, nos movimentamos e, principalmente, temos cérebros pensantes, o que talvez não saibam os insensatos que se intitulam conhecedores do tema, instalados na Secretaria de Estado dos Direitos da Pessoa com Deficiência de São Paulo (SEDPcD-SP), a começar pela sua pomposa titular, que em seis anos de puro marketing não conseguiu apresentar qualquer projeto digno em prol das pessoas cegas e com baixa visão, que somam mais de 1 milhão de cidadãos em São Paulo e 6,5 milhões em todo o Brasil.

Aliás, cabe lembrar que essa mesma Secretaria atualmente se encontra sob investigação do Ministério Público do Estado de São Paulo, mergulhada em graves denúncias de exercício de nepotismo e improbidade administrativa e que, com essas artimanhas midiáticas, apenas procura jogar fumaça sobre essas denúncias, ocultando-se sob um falso manto de eficiência, preocupação e atenção às necessidades dos paulistas com deficiência.

Esclarecemos que não nos opomos à chamada "moda inclusiva", desde que entendida como necessária para uma pessoa com deficiência que realmente possua severo comprometimento motor, necessitando de tecidos diferenciados, fáceis de vestir e desvestir, entre outras soluções que apenas este público, sempre consultado diretamente, em conjunto com os profissionais do setor, saberia decidir. Mesmo assim, entendemos que essa "ciência" deveria se chamar, de fato, "Moda Exclusiva", a não ser que primasse pelos princípios do Desenho Universal.

Assim sendo, pedimos a gentileza de deixarem de brincar de inclusão e principalmente de vender a imagem das pessoas com deficiência sensorial, cegos e surdos, como se fossem incapazes de escolher as próprias roupas, de vesti-las ou de combinar peças de maneira harmoniosa.

Essa "brincadeira" pode nos custar caro, reforçando nosso estigma na sociedade e dificultando ainda mais nossa vida, especialmente em termos profissionais. Quem contrataria um cego para trabalhar se achasse que ele sequer consegue se vestir sozinho ou que vá comparecer à empresa parecendo um palhaço?

Por fim, informamos que a única e óbvia dificuldade dos cegos no vestir-se restringe-se somente à identificação das cores das roupas, suas nuances e tonalidades. Mas isso podemos resolver autonomamente com o uso de aplicativos de celular que já nos permitem saber qual a cor de um objeto focado pela câmera do aparelho.

Ficamos à disposição dos estilistas da Casa de Criadores para qualquer esclarecimento sobre o tema.

Atenciosamente,
Movimento “Cidade para Todos”

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