quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Cão de serviço - mais independência para cadeirantes

Texto de Adriana Lage da semana.

Adriana Lage

Lollo
cachorro marrom sentado com a língua de fora
Hoje vou compartilhar com meus leitores um projeto muito legal sobre cães de serviço. Da mesma forma que o cão guia ajuda pessoas cegas, os cães de serviço são ótimas companhias para cadeirantes. Dentre outras atividades, eles abrem/fecham portas e gavetas além de pegar objetos no chão. Sem falar nas fofuras que são! Sou suspeita, pois amo cachorros. Mas me digam: quem consegue resistir ao charme do Toddy e do Lollo? Difícil demais da conta! Conversei com a Sara da Cão Inclusão e fiquei encantada com o trabalho que desenvolvem. Vamos conhecer um pouquinho sobre esse projeto inovador no Brasil e tão importante para cadeirantes: 


Adriana: Fale um pouco sobre a Cão Inclusão. De onde surgiu a idéia do projeto? Qual o público de vocês? 
Cão Inclusão: A Cão Inclusão nasceu do sonho de ajudar pessoas com deficiência oferecendo um parceiro fiel e companheiro e da experiência que temos no treinamento de cães. O Cão de Serviço se torna o melhor amigo da pessoa, tornando sua vida mais prática e prazerosa. No momento estamos treinando cães para cadeirantes. 

Adriana: Antes de conhecer o Cão Inclusão, só tinha visto cães guia no Brasil. Desconhecia a existência de cães de assistência. Que tipo de trabalho esses cães realizam? Qual a diferença entre os três tipos de cão de assistência? Qual o público deles? 
Cão Inclusão: Nos Estados Unidos e Europa, os cães de assistência já são bem comuns, mas aqui no Brasil, realmente muita gente desconhece os Cães de Serviço, que são uma categoria dos Cães de Assistência. Existem 3 tipos de Cães de Assistência: o cão guia, que ajuda pessoas com deficiência visual, o cão ouvinte que ajuda pessoas com deficiência auditiva e o Cão de Serviço, que ajuda pessoas que possuam qualquer outra necessidade que não seja visual ou auditiva. Como por exemplo crianças autistas, cadeirantes, pessoas que sofrem de estresse pós traumático, pessoas com diabetes, entre outros. 

Adriana: O projeto tem como foco o cão de serviço, que auxilia pessoas com deficiências nas atividades do dia a dia. Falem um pouco sobre isso. Hoje, vocês estão treinando dois cães (lindos, por sinal!!!). Qualquer pessoa pode ter acesso a um cão desses? Quais os critérios para seleção do cadeirante? Quais as principais atividades realizadas pelo cão no auxílio ao cadeirante? 
Cão Inclusão: Sim, nosso foco por enquanto é o treinamento de Cães de Serviço para cadeirantes, pois estamos desenvolvendo uma metodologia de treinamento especificamente para esses cães. No futuro, pode ser que a gente expanda nossa atuação para outras necessidades. No momento estamos treinando dois cães e estamos em busca de patrocinadores para que possamos aumentar o número de filhotes e assim começar a atender a uma maior demanda. Existe um processo de seleção do cadeirante e o cão é escolhido por compatibilidade, por exemplo nível de energia do cão, rotina da pessoa. Procuramos pessoas que estejam querendo aumentar ainda mais a sua independência, que sejam ativas e possam usufruir da ajuda do cão tanto dentro como fora de casa. 
Os cães de serviço para cadeirantes ajudam a pessoa no seu dia a dia, proporcionando uma maior independência: pegam objetos que caem no chão, buscam coisas à distância, acendem e apagam a luz, seguram a porta para o cadeirante passar e até chamam pessoas que estão próximas pedindo ajuda em caso de acidente. 

Adriana:
Há uma seleção criteriosa na escolha dos candidatos a cão de serviço. Li que existem cerca de 30 características observadas no animal. Quais são as principais? Como descreveriam o perfil de um cão de serviço? Qualquer raça pode ser transformada em cão de serviço? 
Cão Inclusão: Existem muitas características que buscamos no filhote na primeira fase de testes, ainda na ninhada. A primeira delas é o temperamento, como esse filhote encara as novidades, se é tímido, se é autoconfiante, se é explorador, se é ligado às pessoas. Ao final do treinamento específico, o cão passará pelo teste final, extremamente criterioso e que avalia em dezenas de situações, como esse cão se desenvolveu e se está apto para a função. Nesse momento o cão precisa, através das suas atitudes e linguagem corporal, nos provar que realmente deseja fazer o trabalho. Caso ele mostre reações de receio ou de falta de vontade de realizar as tarefas, ele não passa na seleção; é o cão quem decide! 
O cão de serviço é acima de tudo um EXCELENTE cão de estimação, se comporta muito bem dentro e fora de casa, desenvolveu habilidades como uma excelente linguagem corporal, autocontrole diante dos mais variados estímulos, calma e tranquilidade e principalmente o amor irrestrito às pessoas. É um cão que precisa confiar muito nos humanos e por isso a metodologia que usamos no seu treinamento é totalmente positiva. 
Nos Estados Unidos e Europa, muitas raças são usadas como Cães de Assistência, mas por enquanto, nós estamos trabalhando apenas com o Labrador e o Golden Retriever aqui no Brasil, por terem habilidades específicas trazendo objetos, o que faz parte de sua genética. 

Adriana: Antes de se tornarem parceiros da pessoa com deficiência, esses cães passam por um longo treinamento. Quanto tempo dura o treinamento? Comente sobre as fases do treinamento. 
Cão Inclusão: O filhote é escolhido ainda na ninhada, com pais geneticamente aptos para gerar filhotes com as características desejadas para a função de Cão de Serviço. Depois, durante o treinamento, quando o filhote vai para a Família Socializadora, durante 1 ano com nosso acompanhamento semanal, vamos ajudando a família a socializar o filhote muito bem, assim como educa-lo. Após esse primeiro ano, o cão volta para a Cão Inclusão onde irá aprender as habilidades específicas para a função; essa fase dura em média 8 meses. Após esse aprendizado e ele ter passado pelo teste final, existe a formação da dupla, que dura em média 2 meses. Só então o cão passa a morar com a pessoa com deficiência e nós acompanhamos esse cão a cada três meses até a sua aposentadoria, que é responsabilidade da Cão Inclusão. 

Adriana: Quais características deve ter uma família socializadora? Como podem se inscrever?
Cão Inclusão: Os candidatos à família socializadora podem se inscrever através do site (www.caoinclusao.com.br) e precisam ter tempo disponível e muita vontade de ajudar. Por enquanto estamos selecionando apenas famílias que residam na cidade de São Paulo e arredores por conta do deslocamento, pois acompanhamos esse filhote 2 vezes na semana. São pessoas muito especiais que desejam ajudar a sociedade e que gostam muito de cães, estando dispostas a aprender como socializar e educar um filhote com paciência e amor.

Adriana: De onde vêm os cães de serviço? Como são escolhidos os pares cão/pessoa com deficiência? 
Cão Inclusão: Existem registros de cães de serviço desde a idade média. A escola de cães-guia mais antiga, ainda em atividade, é a The Seeing Eye, que foi fundada em 1929. Não encontramos informações confiáveis sobre, especificamente, cães de serviço.
A dupla é escolhida por afinidade. Em primeiro lugar, é necessário conhecer muito bem o cão e suas características e o nível de atividades física, mental e social que ele precisa para ser um cão equilibrado. E, com isso em mente, buscamos a pessoa que possua um estilo de vida compatível com as suas necessidades. Ainda é levado em conta o porte do cão, a sensibilidade e outras características. 

Adriana:
Qual o custo de um cão desses? É possível estimar o custo de cada fase do processo? A quem cabe esse ônus? O cadeirante arca com algum custo?
Cão Inclusão: O custo do filhote envolve desde a seleção genética dos pais, aquisição do filhote, primeiro ano de vida com a família socializadora e todo o suporte da Cão Inclusão, treinamentos específicos durante 8 meses, formação da dupla, acompanhamento vitalício por todo o tempo de trabalho do cão (cerca de 10 anos) a cada três meses e se necessário novos treinos. Além de todo esse acompanhamento, a Cão Inclusão também é responsável pela aposentadoria do cão, oferecendo todo o suporte e qualidade de vida que ele merece. O valor total do cão é R$ 94.000,00.
O custo de todo o treinamento e acompanhamento é financiado por empresas que se identificam com a causa e percebem a importância das pessoas com deficiência na sociedade. A Cão inclusão está em busca de patrocinadores para que o cão seja entregue à pessoa com deficiência sem nenhum custo para ela! 

Adriana: Li que vocês possuem vários patrocinadores. Poderiam citá-los? Como empresas e pessoas físicas podem contribuir com o projeto?
Cão Inclusão: Atualmente, os cães estão sendo patrocinados pela Tudo de Cão e pela UHELP - ONG que capta recursos online por meio de votação e doação para casos de pessoas com deficiência. A UHELP está captando recursos para que o Toddy, nosso primeiro cão de serviço, que já está em treinamento de dupla, possa ficar definitivamente com o Billy Saga, cadeirante e fundador do Movimento Superação, escolhido para receber o Toddy exatamente pela sua atuação em prol da qualidade de vida de pessoas com deficiência. O case do Toddy divulgado pela UHELP tem como objetivo também abrir a discussão sobre a ampliação da Lei de Cão Guia, que permite a esses cães circularem livremente com seus donos, enquanto os Cães de Serviço, pelo desconhecimento da sociedade, ainda são barrados. Qualquer pessoa pode doar para o case do Toddy pelo próprio site www.uhelp.com ou pode ajudar mesmo sem doar dinheiro, apenas votando no Toddy para receber os recursos captados e já disponibilizados no site. 

Adriana: Qual o âmbito de atuação de vocês? O Brasil todo?
Cão Inclusão: No momento estamos atuando apenas em São Paulo.
Adriana: Sou fã do Toddy e do Lollo. Fico encantada com as fotos e as peripécias dos dois no facebook. Eles já possuem dono?
Cão Inclusão: Os cães são da Cão Inclusão por toda a vida. Eles nunca serão doados. Eles ficam em comodato com a pessoa com deficiência que ficará responsável por ele, sem custo algum. Os únicos gastos que ela terá são os gastos de qualquer cão de companhia (banho, veterinário, alimentação, ...).
Como já foi dito, o Toddy já está em processo de formação de dupla com o Billy Saga, rapper e fundador do Movimento Superação. Ele será entregue assim que o case atingir o valor determinado no site da UHELP (www.uhelp.com), que é de R mil. Nesse caso, a Cão Inclusão doou o treinamento anterior e a UHELP está captando o valor do treinamento específico, de dupla e o acompanhamento vitalício até a aposentadoria do Toddy.
O Lollo está iniciando os treinamentos específicos e ainda não possui uma dupla. A escolha da dupla acontecerá após este treinamento. 

Adriana: O Cão Inclusão já formou algum cão de serviço? Se sim, como foi? Há quanto tempo? Se ainda não, o que falta?
Cão Inclusão: Não, o Toddy está sendo o primeiro cão. 

Adriana: É possível uma convivência pacífica entre um cão de serviço e cachorros "comuns" na mesma casa? Quais os principais cuidados/regras devemos ter?
Cão Inclusão: Depende muito do outro cão. Se for um cão bem socializado não haverá problema algum. Os cães de serviço passam por um longo processo de socialização e convivem e se comunicam bem com outros cães bem socializados. 

Adriana: Foi uma luta árdua até que os cães guia fossem aceitos pela sociedade e pudessem frequentar locais públicos com seus donos. Em relação aos cães de serviço, existem leis que garantam os mesmo direitos conquistados pelos cães guias? O que precisamos fazer para que isso ocorra?
Cão Inclusão: Ainda não existem leis que garantam. Acreditamos que com a popularização dos cães de serviço isso ocorrerá em pouco tempo. Certamente o processo será muito mais simples do que foi com o cão-guia. 

Adriana: Para quem gosta de animais, é quase impossível ver um cão e não querer se aproximar dele. Ainda hoje, muitas pessoas desconhecem que o cão guia é um animal que se encontra em serviço e, portanto, que não deve ser acariciado, distraído, etc. Como devemos nos comportar frente um cão de serviço?
Cão Inclusão: A melhor maneira de se aproximar de qualquer cão, seja de um cão de serviço, cão-guia ou até mesmo de companhia, é pedindo a autorização do dono e respeitando o cão. Pouquíssimos cães gostam que um desconhecido chegue pulando e agarrando.
No caso de cães-guia e cães de serviço isso pode representar um risco enorme a vida da pessoa. 

Adriana: O cão de serviço trabalha cerca de 10 anos. Como é feita sua aposentadoria? Quem fica com o cão?
Cão Inclusão: A maneira mais natural seria continuar com a pessoa com quem o cão trabalhou a vida inteira. No entanto, algumas vezes isso não é possível. Nesses casos pode ficar com a própria família dessa pessoa e, se também não for possível, ficará sob responsabilidade da Cão Inclusão. 

Adriana: Qual mensagem deixariam aos leitores da Rede Saci?
Cão Inclusão: Se você se encantou com o projeto e acredita que mais e mais pessoas podem se beneficiar de um cão de serviço, você pode ajudar doando no site www.uhelp.com, para a história específica do Toddy, e no www.caoinclusao.com.br para o Lollo. Contamos com você!

Agradeço à Sara pela entrevista e desejo todo sucesso do mundo para o projeto. Felicidades ao Billy e ao fofo do Toddy. Particularmente, como cadeirante e tetraplégica, um cão de serviço é sinônimo de independência! Sem falar que me sentiria muito mais segura acompanhada de um anijinho peludo do que sozinha. Tomara que o Toddy seja o primeiro de muitos cães de serviço em nosso país. Para saber mais sobre, não deixem de passear pelo site da Cão Inclusão ( www.caoinclusao.com.br). O email de contato é contato@caoinclusao.com.br 

Também recomendo a entrevista feita pelo Café com Jornal da Band (http://noticias.band.uol.com.br/cafe-com-jornal/video/15198767/primeiro-cao-de-servico-do-pais-e-treinado-para-tarefas-do-dia-a-dia.html ). Muito interessante ver o Toddy em ação.

E você, leitor, já deu sua colaboração? "Vamos precisar de todo mundo, um mais um é sempre mais que dois".

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