sábado, 27 de setembro de 2014

Preconceito Velado

Texto de Adriana Lage da semana.

Adriana Lage

                                           Adriana Lage Imagem Internet
                                      

Hoje, vou compartilhar com meus leitores alguns casos que demonstram como algumas pessoas ainda são despreparadas para lidar com cadeirantes (verdade seja dita, com qualquer deficiência). Sendo cadeirante há 25 anos, posso garantir que as coisas já melhoraram muito. Ainda há muito a ser feito, mas, sem sombra de dúvidas, é muito mais tranqüilo ser cadeirante hoje em dia que há 20 anos. Antigamente, pouco se falava em acessibilidade. Os três casos, abaixo, demonstram o preconceito – falta de conhecimento – que ainda sofremos por aí.

Adriana x Taxistas – duelo sem fim!

O primeiro caso aconteceu com um motorista da cooperativa de táxis acessíveis de BH. Fui ao Shopping Boulevard para buscar meus ingressos da Copa do Mundo. Após borboletar e encher as sacolas, resolvi agendar um táxi acessível. Fiz o agendamento com mais de uma hora de antecedência e ressaltei que precisava de um veículo acessível.

Na hora marcada, cadê o “Papa Móvel”? De repente, ouço um vozeirão dizendo: “Você é a Adriana”? Logo percebi a confusão da central. Ao invés de me mandarem um acessível, enviaram um carro comum. Como o motorista era bem alto e musculoso – parecia forte – e me ofereceu ajuda, resolvi aceitar. Antes tivesse seguido minha intuição! Na hora de fazer minha transferência para o carro, sei lá o que a figura aprontou que me machuquei feio: meus pés ficaram agarrados em alguma parte do carro. Ao invés de me salvar, o motorista congelou enquanto eu morria de dor. Detalhe, ainda estava agarrada no pescoço dele. Sorte que minha irmã, percebendo a inércia da figura, pulou no carro e soltou meus pés. Resultado: tive que ir à emergência, tomar remédios, colocar gelo, fazer algumas sessões de ultrassom... Só depois de um mês é que fiquei bem! Nada disso teria acontecido se a Cooperativa tivesse mandado o carro correto. Para variar, fizeram um empurra-empurra. A atendente colocou a culpa no taxista que, por sua vez, culpou a central.

Reclamei junto à central e... Nem resposta eu tive!

É por essas e outras que tenho preferido chamar táxis via aplicativo web. Existe a opção de passageiro cadeirante. Assim, eliminamos imprevistos como “a cadeira não cabe no porta-malas”, “não me avisaram que era cadeirante”, etc. O carro não é acessível, mas os motoristas ajudam da melhor maneira possível. Eu bem que tento dar credibilidade para os acessíveis de BH, mas está difícil!
Dias atrás, chamei um táxi pelo aplicativo. O motorista me ajudou a entrar/sair do carro e foi super cuidadoso. O que me chamou atenção foi o fato dele chamar pessoas com deficiência de incapazes. Como o trajeto era curto, achei melhor não “dar palestra sobre PCD”. Nosso assunto girou em torno da necessidade de atendimento diferenciado para pessoas com deficiência. Como dosar o atendimento especial x exclusão / superproteção? Um cadeirante, por exemplo, não consegue entrar no carro com a mesma facilidade que pessoas sem deficiência. Ou seja, tem suas peculiaridades que deverão ser observadas na prestação do serviço. Embora o discurso fosse bonito, era nítido o sentimento de pena nas palavras do taxista. Para ele, somos incapazes! Dignos de dó e caridade. Ri demais quando ele foi me ajudar a sair do carro lá em casa. Comentei que ele tinha sido muito cuidadoso e eficiente. Não tive como ficar séria quando ele soltou a seguinte pérola: “Você é levinha! Sem falar que estou carregando muitos sacos de cimento lá em casa; assim fica fácil te carregar”! Já tinham me comparado a um saco de arroz. Com cimento, foi a primeira vez...

Leiturista da CEMIG

Estava brincando com meu sobrinho na garagem lá de casa, quando o leiturista da CEMIG bateu no portão. Foi a senha que faltava para minhas cachorrinhas correrem para o portão ao som de vários latidos histéricos. Assim que apareci, vi a cara de susto do moço ao se deparar com uma cadeirante. Pedi a ele um minutinho para prender o trio canino. Ele, com os olhos arregalados, falou que faria a leitura sem entrar em casa e não quis me esperar de jeito nenhum. A cara dele dizia: “uma cadeirante prendendo três cachorros? Quanta demora! Só vou sair daqui amanhã”. Achei sacanagem a postura dele. Que falta de paciência! Custava alguma coisa ter me esperado? No final das contas, ele me entregou uma conta muito mais alta que a correta. Na leitura posterior, o valor foi compensado.

Esses casos servem para demonstrar o quanto ainda sofremos preconceito velado e, em alguns casos. Por mais que tenhamos obtido conquistas, as barreiras atitudinais ainda pesam muito. E você? O que tem feito para melhorar isso?

Fonte:saci.org.br - Imagem Internet

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