quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Adaptações que garantem alegrias para as crianças

Por Bruna Komarchesqui
na Gazeta do Povo


“Criança com deficiência não precisa só de terapias, precisa ser criança.” Assim a secretária executiva Shirley Ordonio, 38 anos, resume o projeto Lazer, Inclusão e Acessibilidade (LIA), que idealizou e tenta colocar em prática em parques de Curitiba. Ela recorda que estava cansada de levar os três filhos a parquinhos e ver Letícia, de 4 anos, apenas observar os irmãos se divertindo. No início do ano passado, aproveitou um balanço antigo, cercado de madeira dos quatro lados, para fazer uma experiência. “Coloquei as almofadas da cadeira de rodas e sentei a Letícia. Ela se divertiu um monte. Foi a gargalhada mais linda que já ouvi no mundo! Comecei a chorar na hora, porque foi a primeira vez que ouvi minha filha gargalhar. Meu marido também ficou emocionado”, recorda.

A partir daquele dia, Shirley começou a pesquisar possibilidades e percebeu que não é necessário muito investimento para adaptar um parque infantil. “Não encontrei nenhum parque público que tenha adaptações, só algumas iniciativas dentro de instituições. Em Joinville tem um, mas é em uma praça fechada.” Foi daí que surgiu a ideia de levar a acessibilidade para os equipamentos públicos, no modelo das academias ao ar livre. “Claro que é importante esse tipo de espaço para os idosos, é uma ideia legal. Mas por que não pensar nas crianças também?”, reflete.

Alternativa
Pais brincam com a filha no colo

Menina com deficiência brinca em balanço no colo de sua mãe; o pai brinca com o filho logo atrás
Foto: Antonio More/Gazeta do Povo

Sem alternativas por enquanto, Shirley Ordonio e o marido – o cirurgião dentista Marco Antonio Zeni, 50 anos – se revezam com a filha Letícia no colo, na hora da brincadeira em espaços públicos. “Mas ela está crescendo, já está com 15 quilos, vai ficando mais difícil”, lamenta a mãe. Ao lado da irmã gêmea Camila, 4 anos, e de Leonardo, 6 anos, a menina demonstra com sorrisos a alegria que sente em poder brincar com os irmãos. “Muitas pessoas não levam os filhos com paralisia cerebral para esses espaços, porque é sofrido. Eu me obriguei a levar, porque eles [Camila e Leonardo] brincam. Quero que ela [Letícia] brinque também. E ela adora, ri de gargalhar.”

Shirley recorda que, embora o direito ao lazer seja garantido na Constituição e no Estatuto da Pessoa com Deficiência, a inclusão ainda se restringe muito à saúde e à educação. “Só quero que a lei seja cumprida, nada além disso.” Segundo ela, para construir um parque adaptado, nos moldes das academias ao ar livre, o custo seria de aproximadamente R$ 150 mil. “Mas, se adaptarem um balanço ao lado de um comum, já funciona. E gasta o quê? Três mil reais, que seja, é muito pouco.”

O projeto já foi apresentado à secretária municipal da pessoa com deficiência de Curitiba, Mirella Prosdócimo, em duas reuniões. “Ela me disse que vai em qualquer reunião que eu conseguir marcar com a secretaria do Meio Ambiente. Mas eu trabalho, cuido dos filhos, da casa, não tenho muito tempo. Se eu tivesse tempo livre, já teria viabilizado.” No mês passado, Shirley teve mais uma prova de que vale a pena lutar pelo projeto. Foi aplaudida em diversos momentos, durante uma apresentação que fez no Seminário Estadual sobre Saúde e a Pessoa com Deficiência. “Brincar com outras crianças proporciona a estimulação cognitiva, motora, sensorial. Temos que investir. Sem contar que essas crianças que brincam ao lado, e serão nossos futuros engenheiros e arquitetos, já crescerão com a consciência dessa cultura inclusiva.”

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