quinta-feira, 19 de março de 2015

Mitos sobre as deficiências: você conhece todos?

Por Mara Gabrilli



Certa vez, em um dos almoços de reunião realizados quando ainda era Secretária da Pessoa com Deficiência, fui informada de que me seria servida na ocasião uma generosa “papinha”. Pensaram: se ela não se mexe sozinha, não mastiga também. Depois da explicação óbvia, o episódio se tornou algo engraçado e hoje serve para ilustrar como a deficiência é cercada de mitos. Alguns, como esse que contei, são bem simples de reverter: foi só mastigar um bife. Mas muitos outros precisam ser desmistificados para todo mundo.
Cadeirantes não têm sensibilidade
Sim, todos nós temos. O que muda é a forma como as sensações se manifestam – elas variam muito de pessoa para pessoa. Eu, por exemplo, tenho muita sensibilidade do peito para cima. Um lençol colocado por cima do meu peito me faz sentir sua presença em excesso. Assim como o vento, que depois da lesão medular passou a ter outro efeito no meu corpo. Essa mudança também vale para as temperaturas, como quente e frio. Elas continuam ali, mas diferentes.
Pessoas com deficiência não fazem sexo ou não sentem prazer
Essa história de que tudo desligou e nunca mais se sente prazer é pura balela. Uma pessoa com deficiência pode sentir muito prazer e também proporcionar o mesmo. A primeira vez que fiz sexo depois de perder movimentos foi enquanto ainda estava na UTI, e foi um grande alívio saber que eu ainda ficava lubrificada com o toque do meu namorado. O mesmo vale para os homens com deficiência, que também continuam a vida sexual depois da lesão medular e podem ter ereção, sim. E, tanto o homem, quanto a mulher com deficiência podem fazer e gerar filhos. Conheço vários homens e mulheres com deficiência que são pais e mães incríveis.
Todo surdo é mudo
A verdade é que não existem mudos, mas pessoas com deficiência auditiva que se comunicam pela Língua Brasileira de Sinais (Libras) e outras que utilizam a Língua Portuguesa. O fato de uma pessoa não ouvir não significa que ela não possa falar, são apenas formas diferentes de se comunicar.
Todas as pessoas com paralisia cerebral não têm capacidade de raciocinar
A paralisia cerebral pode afetar o intelecto de certas pessoas, mas isso não ocorre em todos os casos. Embora apresente algumas dificuldades de coordenação e fala, muitas pessoas com paralisia cerebral são capazes de aprender como qualquer outra. Basta contar com o ferramental necessário para que se desenvolva, cada uma ao seu tempo. O mesmo vale para as pessoas com deficiência intelectual.


A cegueira é a pior deficiência a se encarar

Conheço diversos cegos capazes, autônomos e felizes. Ser cego não é sinônimo de tristeza. O fato de não enxergar desperta na pessoa com deficiência visual outros sentidos que a fazem ver muito além, acredite.

Pessoas com deficiência são infelizes e deprimidas
A deficiência não é um estado de espírito. O que interfere no humor de uma pessoa com deficiência é ser barrada de fazer algo por falta de acesso, mas isso não nos torna infelizes. Pelo contrário: nos faz querer derrubar barreiras todos os dias para buscar a felicidade. Está cheio de gente “normal” por aí buscando um sentido para viver.


Agora que você sabe de tudo isso, que tal colocar as informações em prática e conviver de forma leve e verdadeira com a diversidade humana? Sempre lembre que perguntar não ofende ninguém. Bora derrubar outros mitos?



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