sexta-feira, 20 de março de 2015

O motorista acusado de agredir um jovem autista de 18 anos dentro de uma van escolar em Santa Bárbara d'Oeste, na semana passada, negou a agressão.

Autor: francisco lima netosanta bárbara d'oeste


O motorista acusado de agredir um jovem autista de 18 anos dentro de uma van escolar em Santa Bárbara d'Oeste, na semana passada, negou a agressão. Ele, que se identificou apenas como Daniel, se defendeu dizendo que em algumas situações precisa falar em tom de ameaça, como um pai com um filho adolescente rebelde, para ser respeitado pelos alunos, mas disse que está "acabado, muito triste, sem saber o que fazer" e que se sente "no chão", após o episódio

Em entrevista exclusiva ao TODODIA, Daniel afirmou que sempre tratou as crianças "com muito carinho". Mas foi flagrado em um vídeo, gravado por outra aluna, ameaçando o rapaz.
TODODIA - Gostaria que o senhor desse sua versão sobre o vídeo. O que aconteceu?

Daniel - Imagina você dirigindo um ônibus sozinho. Como vai segurar uma criança atacada? E vem tudo em cima da gente. É assim mesmo, você precisa colocar medo nele. É igual um pai falando com um filho rebelde adolescente. Ele estava rebelde, batendo, xingando, já tinha agredido uma menina, querendo agredir outra. Não saiu na gravação quando eu falei para ele: 'Tem uma viatura ali, vou falar para o guarda falar com você, não pode bater em mulher. Homem não pode bater em mulher'. Ele falou: 'vou bater, vou bater'. Isso não mostra. Eu falei: 'vou te levar lá na Tita'. A estratégia minha e da mãe dele quando ele tá dando trabalho é dizer que vamos levar na Tita, que é uma senhora que tem lá no Cruzeiro, que ele tem medo. Não sei se é parente dela. Ele falava: 'eu fujo Daniel, eu fujo. Eu tô nervoso, eu tô louco, eu tô louco".
É difícil?
Só quem trabalha com isso que sabe. A (cita nome de uma aluna), teve uma vez que eu tive que arrastar ela dentro do ônibus. A mãe dela junto comigo falou: 'Daniel, pode puxar'. Fui colocar na cabecinha pra descer do ônibus, mas ela não queria descer.
Como você está?
Sinceramente, eu tô acabado, chorei pra c.., chorei pra p.., porque eu acho que eu não mereço isso. Eu sempre fui dedicado ao meu serviço, sempre tratei as crianças com carinho. Agora todo mundo me massacra, que eu sou um lixo, eu não sou isso. Falei para a minha família, o primeiro que veio atrás de mim foi você. Eu saio na rua e todo mundo fica olhando como se fosse um cara maldoso. Nem de casa eu tô saindo. Acabou comigo. Eu juro pra você, acabou comigo. Mas tô tocando o barco. A mãe do (cita o aluno) ligou pra mim no domingo à noite e disse: 'Daniel eu não sei o que faço, nunca vi ele chorando desse jeito, não quer mais ir na Apae'. Tem dois que não querem mais ir na Apae. Só iam comigo. Esse (cita aluno) mesmo, nem a família nem o padrasto ele deixa pegar no colo. Só eu pego ele no colo e ele fala: "só o Daniel pode me pegar". Aquela mulher (mãe da menina que gravou o vídeo) falou que foi ameaçada. Eu gostaria de saber por quem. Até agora ela não citou nomes. Essa mulher falou que eu agredi as crianças com uma marreta. Essa mulher tá louca. Ele pegou papel com catarro verde e jogou na menina. Eu falei: 'pega esse papel higiênico'. Ele pegou e comeu.
A mulher falou que o senhor colocou na boca dele.
Essa mulher eu não sei o que ela está querendo. Eu até agora não fiz nada contra ela, não vou fazer nada, não abri boletim. Não existe isso aí. Eu posso abrir um processo contra ela também. Ela tá falando que eu fiz uma coisa que eu nunca fiz contra as crianças. Você acha que eu ia fazer o moleque comer papel higiênico? Pelo amor de Deus.
A mãe dele disse que ele ama o senhor.
O pai e a mãe me ligaram sábado, 7h30, falaram: 'Daniel não sei o que eu faço. A imprensa tá aqui em cima de mim falando pra fazer alguma coisa contra você, mas eu te conheço, sei que você não merece. Nunca fez nada contra meu filho. Nem eu posso com ele. Como é que você ia segurar ele dentro do ônibus, chovendo'.
O que realmente aconteceu?
Aquele dia foi horrível na minha vida, nunca vi ele daquele jeito. Sinceridade, eu nunca vi ele daquele jeito transtornado. Ele tava virado no jiraya. Sempre a gente leva na conversa brincando. É difícil lidar com eles, mas a gente precisa ter jogo de cintura, mas naquele dia ele estava muito agressivo. A mãe da (cita aluna) vai ser minha testemunha. Eu falei: 'Não deu tempo de segurar o (cita o jovem) e ele bateu nela'. E ele falou: 'vou bater nela'. Ela perguntou: 'o que tá acontecendo?'. E ele disse: 'tô nervoso, tô nervoso, vou bater'. Querendo bater na menina lá dentro da chácara. Todos eles moram em chácara. Vou ver até onde vai. Tenho que levar minhas testemunhas para o advogado, gastar R$ 2 mil. Posso perder meu emprego sem merecer, sem eu fazer nada. Vão investigar.
Eu trabalho faz sete anos, nunca tive nada, nenhuma queixa, nunca tive problema nenhum. Eu trabalho com carinho. Eles são agressivos. Você precisa falar num tom mais alto que eles. Você é amigo, eu brinco com eles, dou risada. Tem mãe de aluno meu que tem medo do filho, se tranca. A gente lida com todo tipo de criança.
Quem está por fora, não sabe como é um autista. Um autista, dependendo da hora que ele surta, tem que ter três pessoas para segurar, uma só não segura. Não tem condições. E eles são fortes. Mas vou falar pra você, acabou comigo. Mesmo as pessoas não reconhecendo, todo lugar que você vai parece que tá todo mundo olhando para a sua cara, você fica sem jeito, sem chão. Minha menina veio e perguntou: 'pai quem é aquele lá (do vídeo)?'. Eu tive que falar, 'fui eu filha'. Eu nunca dei um tapa na minha filha, ela tem 8 anos, nunca dei um puxão de orelha na minha filha, jamais vou bater no filho dos outros.
O vídeo não mostra o nosso percurso todo. Não mostra as cinco vezes que eu parei. Só eu sei o que estou passando. Eu estou nessa linha há cinco anos, desde que entrei só eu faço aquela linha. Mas Deus sabe o que faz, está na mão Dele. Estou com a minha consciência limpa. Estou sendo sincero contigo.
Estou triste com o pessoal da Apae porque eles não querem se pronunciar em nada. Um monitor da Apae viu que eu tava com a menininha no colo, levando ela para beber água e a avó chegou e disse para ela: 'não vamos com o Daniel hoje. Vamos no carro que o vô comprou'. O monitor me chamou e mostrou o (cita aluno) batendo na menininha. Eu queria que ele fosse de testemunha porque ele foi o primeiro que viu (o comportamento agressivo).
Saí com o ônibus e quando chegou no Cecil Urbano o sinal abriu, ele levantou e deu um soco na (cita aluna), o sinal abriu, o povo começou a buzinar, motoqueiro xingando. Eu falei: 'senta' e fui tocando até chegar no Sartori, onde eu entrego o cadeirante. Peguei o cadeirante, tirei do banco, deixei ele no degrau. Ele (aluno autista) olhou pra mim e falou 'vou bater vou bater'. Ele queria bater na (cita aluna) e na (cita outra aluna), que tava no banco da frente, foi nela que ele jogou a toalha de catarro. Eu fiquei dois minutos com o cadeirante em pé, falando: 'senta, senta'. Eu peguei o cadeirante no colo, desci com ele, ele (cita aluno autista) xingando eu, querendo bater na (cita aluna), ela chorando. A irmã dele (do cadeirante) presenciou, perguntou o que ele tinha. Ela vai ser minha testemunha.
Saí de lá, antes de entrar na SP-304, tive que encostar o ônibus, ele tinha tirado o cinto, agressivo. Coloquei o cinto nele, toquei o ônibus. Ele foi a viagem toda gritando, nervoso, se mordendo, jogando a toalha e papel higiênico na (cita aluna). Parei cinco vezes por causa dele. Muito agressivo, xingando, querendo bater.
Chegou no Cruzeiro do Sul fui pegar o primeiro aluno, porque eu já levo e pego, o (cita aluno), e na hora que ele foi montar (no ônibus) o pai dele presenciou e perguntou: 'Daniel o que tá acontecendo com ele que está atacado hoje e agressivo?'. Ele jogou o papel higiênico e eu falei: 'pega esse papel higiênico'. Ele pegou e colocou na boca entendeu. Ele comeu o papel higiênico e a mulher falou que foi eu. Isso que eu fico indignado.
Chegou na casa da (cita aluna) encostei o ônibus, desliguei o ônibus para avisar a mãe dela que ele tinha agredido ela, lá no Cruzeiro do Sul, na frente da mãe dela, ele disse que ia bater nela, que tava nervoso. Cheguei à casa dele 13h35. Perguntei pra irmã: 'deu remédio para ele?' e ela disse: 'não sei'.
Eu falei: '(cita aluno autista) pelo amor de Deus, para. Coloquei a mão, mas jamais ia puxar a orelha do moleque. Ele dava risada. O jeito que eu falei com ele é o mesmo jeito que um pai tem que falar com um filho rebelde. Você precisa ter um tom de ameaça para eles te respeitar. Ele tava tão transtornado que ele não parava. Infelizmente acabou com a minha vida. Sinceridade, eu tô no chão. Eu não sei que eu faço. 30 dias de sindicância e pode alongar mais ainda. Eu fiquei muito triste. Liguei para o pai do cadeirante na quarta-feira e ele disse que ele só chora, não quer mais ir na Apae. Na minha época de férias ele não vai. Ele fica em casa.
O senhor está com medo?
Sei lá, (julgar) sem conhecer a pessoa, quem é ela. Eu não merecia. Trabalhei sete anos dedicado. Durante dez anos você pode ser o melhor motorista, gente boa, cuida bem dos alunos, uma coisinha que acontece, os outros sem saber o que é, você já não presta. Aquilo que você fez durante dez anos apaga. Ninguém veio atrás, ninguém quer saber o que eu sinto, saber a verdade.
O que o senhor está sentindo?
Eu me sinto mal pra caramba. Sempre tratei os moleques com carinho, sempre, sempre, sempre. Graças a Deus, o pai e a mãe dele sabem. Graças a Deus isso. Ele me ligou sábado agora, me falou que estavam pressionando pra fazer boletim. Mas que eles não queriam fazer. Falou: 'você não merece, te conheço faz sete anos, quando ele está agressivo em casa nem eu consigo controlar, imagina você dentro do ônibus'. Aquele dia foi tudo errado. Ele estava nervoso, agressivo, sem monitor naquele dia.
Foi uma soma de fatores?
Faz sete anos que eu levo ele. Já teve dias dele estar nervoso. A pessoa com problema dele tem dia que tá nervoso, agitado, mas daquele jeito eu nunca vi, ele tão nervoso e só falando em bater. Eu andei com ele mais de uma hora e ele só falava: 'vou bater vou bater'.
Ele bateu na (cita aluna) porque ela sempre me defende. Ela falou: "fica quieto (cita aluno autista)'. E ele queria sentar na frente, mas eu coloco um dia cada um. Ele vinha quase todos os dias na frente comigo.
Por isso o senhor falava que não ia mais deixar ele ir na frente?
Sim, porque quase todo dia de manhã ele vinha na frente comigo. Ele tava bonzinho de manhã. Quando as crianças me falavam que ele soltou o cinto, eu segurava na perna dele. Na rua da (cita aluna), que é a pior rua para descer, eu desci com uma mão no volante e a outra segurando a perna dele.
O senhor falou com os pais?
Eles me ligaram no sábado dizendo que não queriam fazer nada, não queriam me prejudicar porque eu não fiz nada.
E quando o vídeo mostra que o senhor chegou perto, pegou ele, puxou a orelha, o senhor não o agrediu?
Jamais, eu não agredi, se eu agredisse ele ia chegar cheio de hematoma, pelo amor de Deus. A (cita aluna) tava chorando, dizendo que eu não fiz nada, ela vai ser minha testemunha. Ela não é especial. Ela tem 14 anos, o irmão dela tem 12 e também vai. Eu levo eles há sete anos. Ele estuda no município e ela no Estado.
O que o senhor espera?
Eu peço para Deus que eu possa voltar para o meu emprego. Eu sempre me dediquei ao meu serviço e acho que não devo perder. Pode falar com quem quiser. Sempre tive um carinho enorme por eles. Sou motorista profissional, com curso pelo Senat para transporte escolar.
Mas e para lidar com as crianças?
Com as crianças, não. A minha linha é a rural e eu pego os mais problemáticos da cidade. Tem três irmãos que são cadeirantes, tem um que é muito agressivo, que a mãe não consegue levar no ônibus e a Apae sempre passou pra mim esses alunos que não tinham condições de pegar ônibus de linha. O (cita aluno) mesmo, tem um ônibus especial com rampa, mas ele não quer ir, só comigo. É o carinho que eles pegam na gente.
O que o senhor gostaria que as pessoas soubessem?
Que eu não sou isso (monstro, agressor). Não é essa imagem sabe? Jamais eu ia fazer isso com uma pessoa.

Fonte: portal.tododia.uol.com.br

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