segunda-feira, 6 de julho de 2015

Crianças albinas são retiradas de casa para evitar ataques de bruxos que usam seus corpos em poções.

Separados das famílias, albinos vivem com medo e infelizes em acampamentos improvisados.

Do R7

   Foto: Reprodução/telegraph.co.uk


Foi pelos vizinhos que Scola Joseph descobriu que dois estranhos estavam rondando o bairro e procurando pelos seus filhos. Ali, ela soube que o momento que mais temia havia chegado. 

Depois de arrumar pequenas malas pra Elijah, de 3 anos, e Christine, de 5, ela levou as crianças para longe de casa, a um acampamento do governo onde centenas de outras pessoas na mesma situação vivem sob proteção. Era o único modo de manter sua família viva. 

Scola mora em Buhangija, uma cidade na Tanzania, país com maior índice de crianças albinas do mundo. Esta seria apenas uma estatística médica não fosse o fato de que, nesta localidade, também vivem médicos-bruxos, que acreditam que as partes dos corpos dos albinos, depois de moídas e colocadas em poções, têm o poder de trazer riqueza e fortuna.


Separadas de suas famílias e forçadas a viver em ambientes fechados por causa dos efeitos que o sol africano causa em suas peles, estas crianças se espremem em grupos de três ou quatro por cama. Sobrevivem com o mínimo necessário de comida, racionada pelos professores porque o governo não cumpre com os prazos de entrega ao longo de vários meses. 

      Foto: Reprodução/telegraph.co.uk
   

Peter Ajali, um dos professores responsáveis por grupos de crianças albinas, diz que elas vivem como refugiados. 

— São refugiados em seu próprio país, e isso é vergonhoso para a Tanzania. Eu tento fazer o papel dos pais deles e amá-los e mantê-los seguros, mas não é humano o suficiente que eles vivam desta maneira.
   

O albinismo é causado pela falta de melanina na pele, cabelo e olhos, e afeta um em cada 20 mil indivíduos no mundo. No entanto, por algum motivo ainda desconhecido, na Tanzania e em algumas outras regiões subsaharianas, este índice é de um a cada 1.400. 

Ao menos 75 crianças e adultos albinos já foram mortos desde 2000, e outros 62 conseguiram escapar dos ataques dos médicos-bruxos com diversos ferimentos. Na foto, um dos médicos-bruxos em um de seus rituais.


Com os médicos-bruxos pagando R$ 180 mil por um corpo de um albino — que eles queimam ou moem para colocar nas poções —, é comum que alguns dos envolvidos nos assassinatos façam parte da própria família das vítimas. 

A ONU alertou recentemente para um aumento nos ataques a albinos, que agora correm ainda mais riscos com a proximidade das eleições nacionais e locais em outubro. O medo é que políticos inescrupulosos se rendam a antigas tradições dos médicos-bruxos em busca de falsas e ambiciosas promessas.

  Foto: Reprodução/telegraph.co.uk


O governo já prendeu 200 médicos-bruxos e, este mês, o ministro de assuntos internos garantiu que os assassinatos de albinos jamais serão aceitos. Ordens de que as províncias os protejam em suas comunidades foram dadas, mas, com os recursos escassos, a resposta tem sido ainda mantê-los nos campos de refúgio.

Em Buhangija, o número de crianças refugiadas em uma antiga escola primária subiu de 170 para 295 nos últimos meses. Muitas outras são esperadas em breve. Destas que já vivem abrigadas lá, 64 são surdas, e 40, cegas.

As idades dos albinos abrigados na escola vão de apenas dois até 25 anos. O professor precisou transformar a biblioteca e outros espaços em dormitórios. Durante o dia, as crianças brincam jogando futebol com bolas improvisadas, e se sentam no chão de areia para conversar.

Peter Ajali conta que as crianças albinas ainda são vistas como uma maldição. 

— Elas são tidas como um fardo, e muitas mães os fazem sair de casa assim que nascem. Por isso sempre pedimos que os membros de nossa comunidade nos visitem sempre que possível, porque são crianças com falta de amor, e que precisam de carinho para que se sintam melhor. 

De acordo com o professor, muitos dos pequenos que lá moram nunca mais viram seus pais e irmãos desde que chegaram. Sempre que perguntados se sentem saudades de suas famílias, a resposta é igual: “sim”.








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