domingo, 11 de setembro de 2016

A incrível capacidade de adaptação do corpo humano e a Paralimpíada

Após a perda de um membro, por exemplo, é preciso lidar com vários fatores, mas o organismo, com o tempo, faz as alterações necessárias para lidar com nova situação

Por Raquel Castanharo Jundiaí, SP*

                 Thiago Paulino atletismo parapan toronto (Foto: Marcio Rodrigues/MPIX/CPB)
Thiago Paulino perdeu a perna esquerda em um acidente de moto há seis anos (Foto: Marcio Rodrigues/MPIX/CPB

Os Jogos Paralímpicos que estão acontecendo nos trazem a oportunidade de presenciar e se impressionar com a enorme capacidade de adaptação do corpo humano. Os atletas, já experientes, podem até fazer parecer que é fácil. Porém, chegar até o ponto de alta performance com certeza exigiu do corpo e do cérebro muita plasticidade, ou seja, muita capacidade de se modificar para atingir um objetivo.

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Vamos tomar como exemplo um atleta que teve que ter uma de suas pernas amputadas e agora está no atletismo. Logo após a perda de um membro o corpo tem que lidar com vários fatores, como por exemplo a alteração da imagem corporal, a mudança no equilíbrio, o aumento da sensibilidade (e até dor) na extremidade amputada, a diferença necessária da ativação muscular para se mover, e tantas outras coisas. Cada passada é algo totalmente novo e difícil, mas com o tempo o corpo faz todas as alterações necessárias para lidar com a nova situação, que agora se torna o normal daquela pessoa. Isso é a plasticidade. Um cérebro que antes controlava duas pernas muito bem, agora controla uma perna e um coto com prótese muito bem, e nós vamos ter o prazer de assistir a esses atletas correndo em um nível altíssimo.  

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 Daniel Dias (Foto: André Durão)
Daniel Dias nasceu com má formação congênita dos membros superiores e na perna direita (Foto: André Durão)

Pessoas que já nascem com alguma deficiência física também passam por esse processo de plasticidade, que acontece já nos primeiros momentos do desenvolvimento. O cérebro de uma pessoa que apresenta deficiência visual, por exemplo, tem uma rede de neurônios muito diferente do de uma pessoa sem deficiência visual, tornando seus outros sentidos, como o tato, muito mais desenvolvidos.

Engana-se quem pensa que a adaptação só acontece em pessoas jovens. Nosso corpo tem a capacidade de se adaptar ao longo de toda a vida, e nunca é tarde para aprender, melhorar e evoluir.


RAQUEL CASTANHARO*

Fisioterapeuta formada e mestra em biomecânica da corrida na USP. Realizou pesquisa em biomecânica da coluna na Universidade de Waterloo, Canadá. Trabalha com fisioterapia e avaliação biomecânica em São Paulo e Jundiaí. www.raquelcastanharo.com.br



Fonte: globoesporte.globo.com

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