domingo, 11 de setembro de 2016

Ruanda conquista a torcida com geração reconstruída após guerra

Duas atletas da seleção foram mutiladas em genocídio de 1994. Time treina poucos dias por ano, é comandado por holandês e recebe apoio de fundação internacional

Por Gabriele Lomba Rio de Janeiro

Ruanda time feminino de vôlei sentado (Foto: AFP)
Descrição da imagem: Liliane, à esquerda, comemora um ponto da equipe de Ruanda no vôlei sentado (Foto: AFP)

Foi uma derrota por 3 sets a 0 em apenas 46 minutos, mas as jogadoras de Ruanda saíram de quadra como se as vitoriosas fossem elas. A torcida na Rio 2016 as empurrou do início ao fim, quando o placar mostrou 25/3, 25/8 e 25/6 para a China. É a primeira participação de um país africano no vôlei sentado feminino em uma Paralimpíada. Ruanda constrói sua trajetória com uma geração reconstruída após o genocídio de 1994, de extremistas hutus contra tutsis.

Claudine tinha apenas 4 anos quando perdeu parte da perna esquerda. Agnes era uma adolescente de 18 anos quando se deparou com a deficiência por conta da guerra. Os soldados hutus não diferenciavam homens, mulheres ou crianças. Mutilavam quem aparecia pela frente. Outro tipo de ferimento comum era por pisar em minas, escondidas ao chão.

Liliane, camisa 15 e capitã, nasceu em 1989. Saiu ilesa da guerra. Aos 18 anos, um acidente de carro fez com que ela perdesse parte dos movimentos da perna.
O esporte muda tudo. O time Ruanda não pensa em tutsis e hutus. Nós rezamos para nunca mais haver guerra – conta ela, única que fala inglês.

No time, há jogadoras das duas etnias.

Essas mulheres não lutaram, mas são vítimas da guerra. Em todo o país se vê pessoas com deficiência. É consequência da guerra – diz o treinador, o holandês Pieter Karreman.

Ruanda time feminino de vôlei sentado (Foto: Gabriele Lomba)
Descrição da imagem: jogadoras do time de Ruanda de vôlei sentado posam de pé para a foto. Claudine à direita (Foto: Gabriele Lomba)

Pieter teve papel fundamental na evolução do vôlei sentado na África. Ex-treinador da seleção de seu país, ele foi convidado para comandar o time masculino de Ruanda em 2010 e o levou a Londres 2012. Nona colocação. O trabalho no feminino começou logo depois. Desta vez, elas se classificaram; eles, não. Hermas Muvunyi, do atletismo, é o único homem na delegação.

Há grandes dificuldades logísticas. Os treinamentos são agendados em curtos e raros períodos. Em 2012, houve apenas um fim de semana de treino. No ano seguinte, duas semanas. Em 2014, duas semanas e meia. No ano passado, ao conseguirem a vaga paraolímpica, fizeram um planejamento. Passaram a treinar em média dois fins de semana por mês. Viajaram à China e à Holanda para ganhar experiência.

Ruanda time feminino de vôlei sentado (Foto: Gabriele Lomba)
Descrição da imagem: time feminino de Ruanda une as mãos para um grito de guerra (Foto: Gabriele Lomba)

Estamos muito, muito feliz. Tanta gente veio nos ver, ficou todo mundo nos apoiando. Foi incrível vir num ginásio tão grande, com tanta gente. É o momento mais importante da minha vida. Todo mundo quer ver futebol, vôlei de pé, basquete. E hoje tanta gente veio aqui ver o vôlei sentado. Foi nosso quinto jogo contra a China. Antes só marcávamos um ponto por set. Hoje marcamos oito – diz a capitã.

As atletas do time de vôlei contam com auxílio da Liliane Fonds, fundação holandesa que dá apoio a jovens com deficiência em países do Terceiro Mundo. Recebem auxílio médico e de fisioterapia. Se gostam? Basta ver o carinho com que falam com o fotógrafo da entidade que veio ao Rio para registrar a façanha das moças.

O profissionalismo ainda é um sonho. Seis atletas são estudantes. Liliane, a capitã, conta que é uma mulher de negócios. Ela é dona de uma loja de roupas e sapatos. Também é mãe de uma menina de 7 anos e de um menino de 5.

A vida vai melhorar muito depois da Paralimpíada. As pessoas em Ruanda acham que as pessoas com deficiência não podem fazer nada. Mas hoje somos super stars – diz Liliane, rindo.

Ruanda time feminino de vôlei sentado (Foto: Gabriele Lomba)
Descrição da imagem: Pieter dá orientações sentado à beira da quadra, durante uma pausa para substituição (Foto: Gabriele Lomba)


Fonte: globoesporte.globo.com

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