sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Quando o entretenimento poderia ter ido mais longe - Veja o vídeo.

caso-cerrado
A briga por Sabrina é um episódio do programa Caso Encerrado (no original em castelhano Caso Cerrado), apresentado pela advogada Ana Maria Polo, pela emissora Telemundo. O programa de entretenimento simula um julgamento de um caso, geralmente um problema familiar. A advogada-juíza, no espaço de tempo da transmissão (60 minutos), levanta as provas, interroga testemunhas e julga o caso. O episódio A briga por Sabrina traz uma mulher adulta com síndrome de Down que é disputada pelo irmão e por uma cuidadora. O pai, tendo ficado doente e sozinho, nomeou a cuidadora como tutora de Sabrina, deixando-lhe 150 mil dólares. O irmão reivindica a tutela de Sabrina. O programa explora casos reais, mas, por motivos óbvios valoriza o drama da família e procura gerar uma tensão para reter a audiência. A tensão fica na mão da advogada e da sua oratória.
Se analisarmos a função de entreter, o programa segue os passos elementares da narrativa: apresenta o cenário da história, introduz os personagens, gera tensão e, intervalo após intervalo, o confronto vai sendo exposto ao telespectador até chegar à sua conclusão. Nada de novo, porém eficaz. Que Sabrina tenha síndrome de Down é falado logo no início pelo irmão e esse fato tem um sentido, uma vez que a disputa é pela tutela de uma pessoa com deficiência. A tensão também fica por conta dos dois adultos que disputam a tutela de Sabrina, seu irmão e a cuidadora, que discutem e desferem ataques. Ao final o irmão apresenta uma prova contundente dos maus tratos da cuidadora, motivo pelo qual requer a tutela da irmã. Tudo regular.
Em termos de informação, porém, fica aquele gostinho de que faltou alguma coisa. Primeiramente, Sabrina (que, segundo declaração do irmão, tem 30 anos) é um adulto. Um adulto com síndrome de Down. Mesmo sendo uma mulher adulta, durante todo o episódio, ao se referir a Sabrina, o irmão, a cuidadora, a cunhada e mesmo a advogada, usam a palavra ‘niña’, ou seja, meninaNão se trata de uma forma carinhosa de chamar Sabrina, mas sim um modo de associar a síndrome de Down a pessoas que são ‘eternas crianças’, o que, em nenhum caso, é verdade. Além disso, o episódio poderia ter dedicado um espaço para comentar a respeito de tutela e deficiência, por exemplo, mas em nenhum momento o faz.
Mesmo sendo um programa de entretenimento, causam estranheza os comentários da advogada que usa vários termos para se referir à situação jurídica, trazendo uma verdadeira ‘dessinformação’. Além disso, quando Sabrina, por poucos minutos, aparece no programa, é somente para dizer um olá e ser questionada pela advogada se gosta de morar onde está agora (com a tutora).
Poderia ter sido um momento de diálogo, de valorização da pessoa, de troca de informações, mas o episódio se limita a trazê-la (ancorada por um leão de chácara e pela assistente, a psicóloga clínica Vivian Gonzalez, cuja participação também é reduzidíssima) e a retirá-la do programa rapidamente. E, enfim, a musiquinha triste de fundo poderia ter sido evitada. Claro que, de certa forma, combina com o ‘drama de família’, mas que tal, ao invés dela, uma boa música alegre, desafiadora ou dramática, mas sem tristeza?
Infelizmente uma ocasião única de valorização da pessoa com deficiência, especificamente da síndrome de Down, que poderia ter sido aproveitada para trazer ao público algumas informações relevantes e colaborar para a redução do preconceito. Pessoas com síndrome de Down não são eternas crianças. Crescem e se desenvolvem regularmente: se apaixonam, querem se casar, querer manter relacionamentos e querem trabalhar e ser reconhecidas como pessoas adultas.


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