sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Memorial às pessoas com deficiência vítimas do nazismo – que fique somente na memória

Patricia Almeida e a filha Amanda com o videro azul do memorial ao fiundo.

Por Patricia Almeida

Estive em Berlim com minha filha, Amanda, visitando o monumento construído em 2014 em memória das 300 mil pessoas com deficiência executadas na II Guerra Mundial. Não é amplamente divulgado, mas pessoas com deficiência psicossocial, física e intelectual foram o primeiro grupo a ser identificado para o assassinato sistemático pelos nazistas no programa conhecido como “operação T4”.

Em julho de 1939, Richard e Lina Kretschmar, dois agricultores do leste da Alemanha, escreveram a Adolf Hitler para pedir permissão para matar seu filho.

fotos em preto e branco com 3 crianças com deficiência e palavras em alemão onde pode se ler esterilização.

Gerhard Kretschmar nasceu cinco meses antes com um braço, uma perna e perda de visão. Os Kretschmars eram nazistas leais, e “O Monstro”, como se referiam a Gerhard, era considerado um fardo e incompatível com a busca da perfeição genética. Gerhard foi morto alguns dias depois em um hospital perto de sua casa, provavelmente por injeção letal.

Assim, começou o Aktion T4. Um mês depois da morte de Gerhard, Hitler emitiu um decreto estabelecendo que todos considerados “indignos de viver” deveriam ser mortos de forma semelhante. Anterior ao decreto, já havia a ordem de esterilização de pessoas com deficiência. O Ministério do Interior alemão começou a exigir que médicos registrassem todos os recém nascidos e crianças com menos de 3 anos com síndrome de Down, malformações e outras condições como epilepsia.

em um escritorio, 3 pessoas trabalhando com papeis, pastas e maquinas de escrever. foto em preto e branco.

A partir de outubro de 1939, as autoridades de saúde pública começaram a encorajar os pais de crianças com deficiência a internar seus filhos jovens em uma das várias clínicas pediátricas especialmente designadas em toda a Alemanha e na Áustria. Na realidade, as clínicas eram salas de matar crianças. Ali, médicos e outros agentes recrutados para este fim assassinaram crianças e jovens até 17 anos que estavam sob sua guarda por meio de injeções letais ou por fome.

O regime passou em seguida a assassinar adultos com deficiência na Polônia e na Alemanha. A parte administrativa do programa funcionava na “Fundação de Caridade para Cura e Cuidados Institucionais”, que operava ao lado de um edifício na Tiergartenstraße 4 em Berlim. Exigia-se que hospitais e instituições alemãs produzissem formulários de pacientes com questões de saúde mental, intelectual, demência, paralisia e outras condições.

foto colorida, onubus de costas, 2 pessoas com jaleco branco e 3 pessoas de roupa preta.

Esses indivíduos eram então recolhidos e transportados de ônibus ou trem para uma das instalações montadas como parte da ação de “eutanásia”: Bandandenburg, perto de Berlim; Grafeneck, no sudoeste da Alemanha; Bernburg, na Saxônia; Sonnenstein, também na Saxônia; Hadamar, em Hessen e Hartheim, perto de Linz, no Danúbio, na Áustria. Poucas horas após a chegada aos centros, as vítimas eram mortas em câmaras de gás disfarçadas de chuveiro. Os funcionários do T4 queimavam os corpos em crematórios e as famílias ou responsáveis das vítimas recebiam uma urna com as cinzas das cremações em massa e atestados de óbito indicando causas de morte fictícias.

foto preto e branca de sala de gás com aparência de um banheiro.

O documentário “Vendendo assassinatos” revela a campanha de lavagem cerebral nazista usada para convencer a população alemã dos procedimentos de eugenia. Filmes foram produzidos e exibidos nos 5.000 cinemas alemães com a mensagem de que apenas pessoas saudáveis e fortes deveriam viver. Os filmes retratavam as pessoas com deficiência como improdutivas, vivendo vidas sem sentido que custavam muito caro para a sociedade. Além disso, elas eram mostradas como uma ameaça genética para a nação, justificando sua esterilização compulsória. A iluminação e posição da câmera eram escolhidas de modo a exibir rostos grotescos, demoníacos e loucos além de entrevistas em que as pessoas falavam coisas sem sentido. O objetivo era justificar para o público aqueles assassinatos como um ato de misericórdia.

O programa de “eutanásia” representou, em muitos aspectos, um ensaio para as políticas genocidas subseqüentes da Alemanha nazista.

Embora as pessoas com deficiência tenham sido a primeira minoria a ser sistematicamente exterminada pelos nazistas – elas foram as últimas a serem formalmente reconhecidas – bem depois dos memoriais para as comunidades judaica, gays e romanches – e poucos dos envolvidos no programa T4 foram processados.

grmado com arvore em primeiro plano e vidro azil horizontal do memorial atras.

Durante décadas, Tiergartenstraße 4 foi apenas uma parada de ônibus com uma pequena placa, mas as famílias das vítimas não desistiram de pressionar para que fosse construído um monumento mais significativo para as vítimas de homicídios médicos. Em 2014 fo inaugurado o memorial com uma parede de vidro azul, um estande comprido de concreto contando a história do lugar e fotos de 10 das vítimas do genocídio.

Amanda olhando a historia no estande com o vidro azul no fundo.

Na abertura do memorial T4 em Berlim, a ministra alemã da Cultura disse:

“Toda vida humana vale a pena ser vivida: essa é a mensagem enviada deste lugar. … O memorial T4 nos confronta hoje com a angustiante ideologia nazista que presume que a vida pode ser medida pela sua “utilidade”.

amanda com as duas maos apoiadas no vidro azul, de cabeca baixa.

Uma sociedade em que aqueles que percebemos como fortes prejulgam aqueles que percebemos como fracos é uma sociedade que não tem respeito por si mesma – respeito pela própria diversidade biológica, social e econômica e passa uma mensagem de exclusão daqueles que são empurrados para a margem biológica, social e econômica – em vez de uma mensagem de inclusão.

Em ingles, Tiergartenstraße 4 - memorial e ponto de informação para as vítimas dos assassinatos "eutanásia"do nacional socialismo.

A forma como reagimos aos nossos cidadãos mais marginalizados fala mais sobre a nossa sociedade do que o quanto é alcançado pelos nossos “mais forte”. Nossa atitude cultural é a argamassa que mantém a nossa sociedade unida – quanto mais inclusiva nossa atitude, mais forte será a nossa sociedade.

Esperamos que políticas como esta fiquem apenas na memória.

Patricia Almeida – Jornalista, mestranda em Estudos da Deficiência pela City University of New York, criadora da Inclusive – Inclusão e Cidadania, coordenadora Internacional do Instituto MetaSocial, criadora da GADIM – Aliança Global para Inclusão das Pessoas com Deficiência na Mídia e Entretenimento, da GADIM Brasil e membro do ODIMÍDIA – Observatório de Diversidade na Mídia. Co-fundadora do Movimento Down e membro do Conselho da Down Syndrome International.


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