sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Cegos apontam falhas na acessibilidade em Campinas: 'Sem coragem, não sai às ruas' - Veja o vídeo.

Cidadãos sentem-se excluídos diante da dificuldade para tarefas simples, como sair de casa ou pegar um ônibus; nesta quinta (21) é celebrado o Dia Nacional da Luta da Pessoa com Deficiência.

Por Fernando Evans, G1 Campinas e Região

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Cegos relatam dificuldades de acessibilidade na cidade de Campinas

Sair de casa, atravessar a rua ou pegar um ônibus. Para alguns cidadãos de Campinas (SP), essas simples ações são verdadeiras "tarefas árduas". Em comum, o fato de serem cegos e de se sentirem excluídos por parte da cidade que, para eles, falha no quesito acessibilidade.

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"Se você não tiver coragem, não sai para a rua. É cruel. Um cego precisa mesmo coragem", resume Leílson Castro de Barros, de 28 anos.

De acordo com dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), Campinas tem mais de 5 mil cegos e outras 25 mil pessoas com grandes dificuldades de visão. E os deficientes visuais são apenas uma parte da comunidade que aproveita este 21 de setembro, Dia Nacional da Luta da Pessoa com Deficiência, para batalhar por melhor qualidade de vida.

Cego há sete anos, José Wellington Ferreira, de 34, relata dificuldades no bairro Campo Belo, em Campinas (SP) (Foto: Fernando Evans/G1)
Cego há sete anos, José Wellington Ferreira, de 34, relata dificuldades no bairro Campo Belo, em Campinas (SP) (Foto: Fernando Evans/G1)

Morador do Campo Belo há 15 anos, José Wellington Ferreira, de 34, ressalta que acessibilidade é um conceito que não chegou ao seu bairro.

"Lá é um lugar esquecido, não há nenhuma acessibilidade. Nem para quem enxerga. São ruas sem asfalto, bueiros abertos", lamenta.

Ferreira já enxergou e trabalhou, por um bom tempo, como cobrador no sistema de transporte coletivo da cidade. Nem as lembranças de caminhos que antes fazia com frequência o deixam em segurança para usufruir do município como qualquer cidadão.

"Perdi a visão há sete anos e tive de aprender a entender o mundo novamente. Nem tudo é como eu me lembro. Eu conhecia muito bem a Avenida Campos Sales, no Centro, mas tentei andar ali e não tenho facilidade nenhuma. A acessibilidade é falha e não me sinto seguro", comenta.

Piso tátil da Av. Glicério, revitalizada há um ano, é alvo de críticas (Foto: Murillo Gomes)
Piso tátil da Av. Glicério, revitalizada há um ano, é alvo de críticas (Foto: Murillo Gomes)

'Centro é o melhor, não o ideal'

Os quatro são atendidos no Instituto Campineiro dos Cegos Trabalhadores e usam, com frequência, o transporte coletivo para chegar ao local. Todos passam pela região central e são unânimes ao afirmar que essa é a área de Campinas com melhor acessibilidade, mas não a ideal.

Um dos símbolos de transformação da região central, a Avenida Francisco Glicério, cuja revitalização foi entregue há um ano, é alvo de críticas dos deficientes visuais.

"Melhorou alguma coisa esse piso tátil [da Glicério], só não consegui entender o motivo dele ficar mudando de direção. Você está indo em um sentido e, de repente, muda. Cada hora ele [piso tátil] te manda para um lado. Eu perco a referência", diz Adriana Galhardo Pereira, de 29 anos.

Para José Wellington Ferreira a "avenida criada como modelo tem muitas falhas" e isso, em sua opinião, ocorre porque pessoas com necessidades especiais não são ouvidas nessas questões.

Adriana Galhardo Pereira, de 29 anos, diz que piso tátil da Glicério
Adriana Galhardo Pereira, de 29 anos, diz que piso tátil da Glicério "muda de direção" (Foto: Fernando Evans/G1)

"O espaço entre o piso tátil e a guia é muito pequeno. Sinto que os veículos passam muito perto. E existem muitos obstáculos no caminho e há uma 'disputa' de espaço com outras pessoas", explica Ferreira, que cita um exemplo da falta de planejamento.

"Faço tratamento dentário na Glicério e não consigo usar o piso tátil, tem um barraca de cachorro-quente em cima dele."

"Meca" do comércio da região central, andar pela Rua Treze de Maio é um desafio para quem não enxerga. Além de enfrentar o vaivém de pessoas, não há ferramentas que auxiliem os deficientes.

"No meio daquela multidão de pessoas, a referência que eu uso é uma canaleta para escoar água que tem no centro da rua. Só que a bengala às vezes prende ali, é um problema", ressalta o baiano Leílson Bastos, que mora em Campinas desde 2014.

Conterrânea de Bastos, Jaqueline Silva dos Santos, de 27 anos, vive no município desde os 5 anos. Enxergou até os 15 e, desde então, "vê" Campinas de outra forma. O terminal central é um ponto de passagem obrigatório, mas só anda por lá acompanhada.

"É um local muito bagunçado. Eu pego ônibus lá, mas acompanhada. Sozinha, jamais! Tem muita barraca."

Passageiros no terminal de ônibus na região central de Campinas; deficientes visuais reclamam das dificuldades de acessibilidade (Foto: Reprodução EPTV)
Passageiros no terminal de ônibus na região central de Campinas; deficientes visuais reclamam das dificuldades de acessibilidade (Foto: Reprodução EPTV)

Solidariedade

Para os entrevistados, um fator compensa parte da falta de sinalização, de semáforos sonoros e de acessibilidade na região central: a solidariedade. "As pessoas acabam ajudando, o que dá uma margem de segurança", diz Leílson.

O baiano considera a situação da periferia cruel para os cegos. "Não há padrão nas calçadas, não tem nenhuma acessibilidade. Melhora quando o bairro é pouco movimentado, porque daí a gente anda pela rua", conta.

Jaqueline reforça que o Centro é onde encontra mais ajuda. "No Vida Nova, onde eu moro, não tenho suporte algum. Não sei se ficam constrangidos, com medo, mas é no Centro que consigo andar com maior facilidade."

Jaqueline dos Santos, 27 anos, diz que no bairro não recebe ajuda (Foto: Fernando Evans/G1)
Jaqueline dos Santos, 27 anos, diz que no bairro não recebe ajuda (Foto: Fernando Evans/G1)

Prefeitura

As dificuldades enfrentadas pelos cegos foi informada à Prefeitura de Campinas, que emitiu nota destacando que as novas obras na cidade, de prédios públicos ou pavimentação dos bairros, são feitas com acessibilidade desde 2013.

"A Secretaria Municipal dos Direitos da Pessoa com Deficiência e Cidadania realiza estudos de viabilidade e acessibilidade das vias de acordo com análise da Emdec, que acompanha e realiza projetos para garantir acessibilidade com segurança. Destaca-se também que todas as novas obras de pavimentação da Prefeitura estão sendo realizadas com guias das calçadas e rampas de acessibilidade, que vão facilitar o trânsito de pessoas com dificuldade de locomoção e pais com carrinhos de bebê, entre outros", diz a nota.

A Administração informou ainda que, por meio da Emdec, "são realizados os estudos técnicos de viabilidade e elaboração de projetos para implantação de rampas de acessibilidade e piso tátil em função de demandas feitas pela Secretaria dos Direitos da Pessoa com Deficiência e Cidadania ou feitas por munícipes diretamente à Emdec."

A Prefeitura, no entanto, não se posicionou sobre as dificuldades relatadas pelos cegos na região central. Informou que a implantação dos projetos de acessibilidade envolve diversos setores da Administração e, ainda, em caso de contrapartida, empreendedores e empresas privadas.

Fonte: g1.globo.com



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