sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Nascer com ou adquirir uma deficiência não exclui a sexualidade de ninguém

Eu sempre fui vaidosa mesmo em meio a gessos, dores, formas contorcidas, e falta de pernas. Sempre gostei muito de sorrir. Sempre senti vontade de me mostrar. De me exibir. De me amar. De me querer. Quando tinha cinco para seis anos fiz meu primeiro ‘ensaio’ fotográfico. Posei para minha tia. Fantasias mil… Vestiram-me de coelhinha (não a da Playboy rsrsrs), palhacinha, indiazinha… Fiz ‘caras e bocas’. Sorri. Fui feliz. Muito feliz.

Por Leandra Migotto Certeza *

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                      Leandra Migotto Certeza – Arquivo pessoal

Depois vieram os carnavais. Desfilei de melindrosa, fadinha… Dancei no colo, tomando emprestadas as pernas do meu pai e dos meus tios amados. Gostava de me exibir! Contaram-me que antes desses tempos eu já gostava de posar para fotos. Que sempre gostei de me mostrar. Por que será? Ainda bem. Só depois que descobri o quanto isso foi bom para minha vida. Muito mais do que auto-estima e tralalás – como dizem os especialistas – eu simplesmente me AMAVA. Em meio a uma sociedade cheia e impregnada de supostos ‘valores morais’, infestada de pré-conceitos sobre o que é certo e o que é errado, apenas fui eu mesma, sem medo de ser FELIZ (como sabiamente disse o querido compositor brasileiro, Gonzaguinha).

Porém, quando a adolescência chegou tive vergonha de assumir que me gostava. Pensava: o que as pessoas vão dizer? Sei que não sou mais criança (há muito tempo toquei meu corpo e senti vida pulsando!), mas ainda tenho tamanho de uma. E me tratam como se fosse… Sexo? Eu? Como? Não posso, mas quero. Quero tanto! Minha ‘mãe’ interior dizia que eu ficava feia de saia. Meu ‘pai’ interior não queria que eu usasse batom.

Na época as meninas falavam de vestidos, saias, saltos altos, valsas, cabelos longos, maquiagens… Eu ia me formar na antiga oitava série, e tinha vergonha de me mostrar como era: uma menina que estava desabrochando. Pelos seios que cresciam em meu pequeno corpo, quadris que se alargavam junto as minhas curtas pernas, pêlos que apareciam em lugares ‘proibidos’, e principalmente pela grande vontade de beijar na boca!

Depois vieram as baladas, as festas, as noitadas… E eu nunca freei meus desejos. Dancei até cair nas pistas. Vesti mini-saias. Caprichei nos decotes grandes. Abusei dos brilhos. Soltei os cabelos. Usei salto alto (na medida do possível). Vesti meias arrastão. Fiz cara e bocas. Seduzi a vida! O encontro com o sexo, veio muito tempo depois. Infelizmente, como grande parte das pessoas com deficiência, fui sempre taxada como assexuada. Dei meu primeiro beijo na boca só aos 21 anos.

Antes os meninos riam de mim. Não se aproximavam. Deviam me achar mesmo uma ‘aberração da natureza’ por sempre se afastar das minhas investidas. Sempre fui olhada, observada, esquartejada, detalhada… Sempre fui comentada, cochichada, fofocada, julgada… Poucos se aproximavam para me conhecer. Ainda não os compreendo, mas não os culpo muito (só um pouco). Mas naquela época foi MUITO duro viver. Era muito duro entender que comigo tudo parecia ‘meio diferente’. Roupas tinham que ser feitas ‘na medida’. Afinal, nasci em uma sociedade que valoriza o equilíbrio, a beleza perfeita, o linear, a sincronia, a coerência, a igualdade das formas… Resumindo: o ideal da perfeição que não existe nesse Planeta.

Hoje eu brado em todos os cantos do mundo que todos os seres humanos são DIFERENTES. Todos sem exceção. Para mim a beleza é a forma CALEIDOSCÓPICA que TODAS as pessoas têm. Beleza, sedução, sensualidade, sexualidade, amor, paixão, sexo, tesão e desejo são energias tão sutis e tão FORTES que estão em tudo que fazemos.

Porém, lá no fundo, me questionava: porque eu ainda temia mostrar a todos que gostava de mim mesma sendo diferente delas? Não sei. Até hoje me pergunto, porque sofri tanto me preocupando com a opinião dos outros… Mas como dizem os especialistas só construirmos nossa imagem pelos olhares dos outros. Para Ana Rita de Paula, (doutora em psicologia clínica), Mina Regen e Penha Lopes, (assistentes sociais) autoras do livro: “Sexualidade e Deficiência: Rompendo o Silêncio”: “como o novo sempre nos assusta, procuramos nos vincular ao já conhecido. E, assim, buscamos refúgio nas imagens que a sociedade, geralmente, nos apresenta tanto de sexualidade (sexy é quem exibe um corpo supostamente ‘perfeito’ e simétrico, segundo os padrões de beleza e estética da mídia); quanto das pessoas com deficiência (alguém que erroneamente supomos ser imperfeito, incapaz, frágil, e que não pode fazer parte da sociedade dita ‘normal’)”.

O mais difícil para o desenvolvimento da minha sexualidade foi mostrar para minha família e amigos que eu cresci. Que não sou criança e nem assexuada!! Quando comecei a namorar o meu atual marido ouvi comentários terríveis que me rasgaram por dentro. As pessoas que eu mais amo na vida, não acreditavam que eu pudesse ser, simplesmente, FELIZ.

Hoje, eu e meu marido, somos aceitos pela maioria dos amigos e familiares, mas ainda conhecemos muitas pessoas que os pais de pessoas com deficiência não aceitam que seus filhos têm sexualidade. Por que será que é tão doloroso para eles assumirem que seus filhos podem ser felizes se realizando na cama (no sofá, no chão, na escada, no elevador, no…) com seus corpos, simplesmente, diferentes? Espero que um dia, todos aprendam que a simetria e a perfeição foram conceitos criados por eles mesmos, e, portanto, podem ser destruídos a qualquer momento!

Mitos e tabus precisam ser quebrados.

Cartum de Ricardo Ferraz – Descrição: Um homem pergunta a mulher cadeirante: “Como foi? Inseminação?”, no que ela responde “Foi sexo mesmo! Com amor!!”

Como jornalista comecei a pesquisar sobre sexualidade e descobri que especialistas afirmam que sexualidade é um fator essencial da natureza humana e não é possível diminuí-la, negá-la ou fazê-la desaparecer. Nascer ou adquirir alguma deficiência, seja por acidente genético ou de trânsito, arma de fogo, doença entre outros fatores não deveria nunca ser motivo para anular ou esconder a sexualidade das pessoas.

Segundo Anahi Guedes de Mello, cientista social, mestranda do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social e Adriano Henrique Nuernberg, psicólogo, doutor em Ciências Humanas, ambos da Universidade Federal de Santa Catarina:

“A deficiência é uma experiência corporal com significado social e cultural, destacando-se nesse processo o recorte de gênero. A deficiência não é nunca a prova de que a sexualidade não existe. Pelo contrário, a deficiência, sempre inesperada, é a demonstração de que a subjetividade, e com ela a sexualidade, nunca é aquele lugar ideal, seguro e estável. Justamente por isso que as pessoas com deficiência são também sujeitos desejantes. A pessoa com deficiência, seja qual for, sempre é diferente da deficiência em si e essa diferença se joga em sua subjetividade”*

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Cartum de Ricardo Ferraz – Descrição: Dois homens assistem a um casal de cadeirantes beijarem-se e um diz ao outro: “Ele precisa é de uma mulher normal pra cuidar dele!”. O outro apenas pensa: “Será que eles conseguem?!”

Porém, Fabiano Puhlmann (psicólogo especializado em sexualidade) alerta que em pleno século 21 a maioria da sociedade não imagina que quem vive com uma deficiência tenham uma vida sexual ativa! “Uma cliente minha, que nasceu com uma deficiência, estava grávida. Ao pegar um táxi, o motorista perguntou quem foi que lhe tinha feito aquilo. Como se ela tivesse sido estuprada e não tivesse escolhido a gravidez como todo mundo, ou como se não tivesse sexualidade e não fosse fértil”.

A sociedade ainda não dá a devida atenção às necessidades e direitos de todas as pessoas com deficiência vivenciar e expressar sua sexualidade plenamente. Somente a partir do movimento político de luta por seus direitos, ao longo das décadas de 1960 e 1980, o tema começa a ser discutido. Por isso, ainda são muitos os mitos em relação a quem tem deficiência visual, auditiva, física, intelectual, múltipla e/ou surdocegueira.

Acredita-se que mulheres com deficiência física, (que usam cadeira de rodas), não podem ter filhos ou praticar o ato sexual; ou mulheres e/ou os homens com cegueira possuem um toque ‘mais sensível’ (o que tornaria o sexo muito ‘mais prazeroso’); e que as pessoas com deficiência intelectual são ‘sem-vergonhas’, ‘inconvenientes’, e ‘masturbadores compulsivos’, por terem uma suposta sexualidade exacerbada e sem governo.

Por isso, tabus precisam ser quebrados imediatamente para que todas as pessoas compreendam que a mulher com deficiência física ou motora pode ou não ter filhos, pois não há relação nenhuma entre deficiência (seja ela qual for) e a sua fertilidade; a não ser que a infertilidade seja ocasionada por fator externo à deficiência, assim como ocorre com mulheres sem deficiência.

A mulher ou o homem com deficiência visual pode exercer sua sexualidade usando ou não o tato; assim como escolher se querem ter filhos ou não. Pessoas com deficiência intelectual podem exercer sua sexualidade, respeitando as convenções do que pode ser feito em público ou não.

Pessoas com qualquer deficiência tem direito a viver plenamente em sociedade com suas identidades sexuais e de gênero, seja: homossexuais, heterossexuais, bissexuais, trans, entre outras. Também têm direito de realizar quaisquer fantasias sexuais, se masturbarem e manterem relacionamentos sexuais somente por prazer (sem o objetivo de reprodução) com o apoio de terapeutas especializados e/ou profissionais do sexo.

Esclarecer e refletir sobre questões do preconceito que se relacionam ao corpo com deficiência, sobre os limites subjetivos e objetivos para viver e expressar a afetividade e a sexualidade, a partir de uma leitura social e cultural da deficiência e da sexualidade, parece ser um caminho promissor para contribuir na superação da discriminação social e sexual que prejudica os ideais da sociedade inclusiva.

Porém, Ana Rita de Paula, explica que muitas pessoas com deficiência só tiveram experiências distantes do prazer, por isso, lidar com a sua sexualidade se torna tão complexo. “Durante anos, seu corpo foi (ou é) alvo de intervenções médicas, fisioterápicas ou corretivas que não contribuem para despertar o erotismo. Ao contrário, apontam o que há de errado, diferente, que precisa ser ‘consertado’, ‘normatizado’, caso contrário será sempre um corpo doente. Como se isso não bastasse, o espelho para o mundo é um padrão de ‘corpo perfeito’, divulgado pela mídia. Como fica, então, a auto-estima da pessoa com deficiência? A tendência é não se achar atraente, duvidar que possa ser alvo do desejo dos outros”.

Um dos aspectos mais importantes da sexualidade, segundo Fabiano é a sedução. “Para seduzir você precisa saber quais são as suas forças. Se alguém acha que não tem nenhum poder de sedução porque tem deficiência, ou se a cadeira de rodas é um peso enorme, o outro sempre vai vê-lo no papel de amigo. Desta forma fica difícil para a pessoa que não tem deficiência se envolver, pois é um horizonte novo. Para ele se quem tem deficiência consegue se relacionar no meio social, passeia, tem amigos, a chance de conseguir ter um parceiro é muito grande.

O psicólogo também esclarece que pensando em uma pessoa que ficou com uma deficiência é preciso redescobrir o corpo como um todo, e há várias formas para isso. “A principal é se tocar de novo, ver as áreas sensíveis e erógenas. Explorar a sensibilidade como um todo. Imagine uma pessoa que sentia seu corpo inteiro e de repente pára de sentir. Também é preciso usar recursos para flexibilizar os valores porque, às vezes, é preciso inverter o jeito que se observava as coisas. Caso a pessoa com deficiência seja muito ‘quadrada’, é preciso torná-la mais maleável, com cursos de dança inclusiva – nos quais as pessoas são tocadas e desenvolvem a sensibilidade – ou com a ida a sex shops. A pessoa com deficiência vai a uma loja dessas e vê o que as pessoas compram como brinquedos de masturbação, camisinhas com extensão de pênis e etc. Isso faz com que ela comece a ver o sexo de forma mais solta, com mais humor”.

Pessoas com deficiência sofrem violência sexual de forma recorrente no país.

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Cartum de Ricardo Ferraz – Dois homens conversam enquanto observam uma mulher sendo severamente recriminada. “Por que tanta violência?”, diz um deles. O outro responde: “Ela vai se casar com um deficiente físico!”

Aos 18 anos, eu fui obrigada a ir há uma ginecologista da família. Uma mulher amarga, estúpida e totalmente antiética, que enfiou um livro de anatomia na minha cara, me tratou como criança. Proibiu de eu ter relações sexuais, e ainda afirmou – olhando nos meus olhos e apontando o dedo para o meu nariz – que eu não poderia fazer NADA com meu corpo sem antes falar para alguém da minha família.

A péssima profissional ainda teve a cara de pau de perguntar se eu já tinha namorado um garoto. Quis saber, em detalhes, tudo o que eu tinha feito com ele. Obrigou-me a contar tudo. Coagiu-me. Não respondeu nenhuma pergunta que fiz. Não esclareceu nenhuma dúvida. Não me informou sobre os métodos contraceptivos, e os que evitam doenças sexualmente transmissíveis. E o pior de tudo, nem quis me examinar para saber se eu tinha alguma doença. Saí de lá muito assustada, frustrada e com medo. Não desejo ao pior inimigo o que passei naquele consultório. Infelizmente, eu nunca vou esquecer. Fui estuprada emocionalmente!

Segundo dados Sistema de Notificação de Agravos de Notificação do Ministério da Saúde o número de pessoas com deficiência vítimas de estupro quase dobrou no Brasil, passando de 941 em 2011 para 1.803 em 2016. As informações colhidas em hospitais públicos e privados, representam quase 8% dos estupros atendidos pelos serviços de saúde. E ainda 40% dos municípios não reportam os dados.

A Ouvidoria Nacional dos Direitos Humanos também recebeu 133.061 mil denúncias de violação de direitos humanos no ano de 2016. O módulo de registro de denúncias de violações de direitos da pessoa com deficiência é o terceiro no ranking em números absolutos. Foram registradas no Disque 100, 37,9% de violações por negligência, 23,5% de violência psicológica, 16,8% violência física, 14,4% de abuso financeiro/econômico e violência patrimonial, e 7,4% de outras violações. Das deficiências informadas, a mental aparece com 54%, de deficiência física, 23%, intelectual, 16%, deficiência visual, 5%, e auditiva, 3%.

*Citação do texto “Corpo, gênero, sexaulidade na experiência da deficiência: algumas nota de campo”, escrito para o “III Seminário Internacional Enlaçando Sexualidades”.

Mais informações sobre o Sexualidade e Deficiência:




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Leandra Migotto Certeza é comunicadora pela Universidade Anhembi Morumbi, jornalista desde 1998 com ampla e premiada experiência em inclusão. Trabalha como consultora e palestrante em empresas, ONGs e escolas. É estudante de Jornalismo Literário e Escrita Criativa e escreve poemas desde os 9 anos. Lançará o selo Caleidoscópio de biografias sobre pessoas com deficiência, e começará pela Coleção Janelas contando a sua trajetória profissional. Assina a coluna “Bate papo” no portal http://www.sembarreiras.jor.br/, mantêm 2 blogs e participa do Coletivo Mulheres pela Inclusão. Para saber mais sobre ela: http://leandramigottocerteza.blogspot.com/


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