segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Trancada em casa há quase 2 anos, mulher com problemas mentais vai frequentar Apae, diz Prefeitura de Serrana, SP

Reunião com Promotoria também definiu acompanhamento psicossocial à paciente de 31 anos. Mulher foi fechada no quarto após sofrer abuso na rua, afirmam os pais.

Por Rodolfo Tiengo, G1 Ribeirão e Franca
Família instalou adaptou grade na entrada do quarto de jovem com problemas mentais em Serrana, SP (Foto: Rodolfo Tiengo/G1)
Família instalou adaptou grade na entrada do quarto de jovem com problemas mentais em Serrana, SP (Foto: Rodolfo Tiengo/G1)

Uma mulher com problemas mentais  trancada dentro de casa há mais de um ano e meio pelos pais deverá frequentar a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) de Serrana (SP). Essa foi uma das medidas acordadas em reunião entre Prefeitura e Ministério Público na última semana, quase um mês depois de o G1 denunciar o caso.

Também está previsto o acompanhamento psicológico e o tratamento com medicação. A família não acredita que as medidas vão surtir efeito e questionam a viabilidade de manter a paciente solta em casa depois da volta da Apae. Hoje, ela segue mantida presa dentro de seu quarto.

"Ela dá muito trabalho na hora que desce da van. A gente já passou por isso", afirma o porteiro Maicon Gonçalves, irmão da paciente.

A reportagem procurou o Ministério Público, mas não obteve um posicionamento até o fechamento desta matéria.

A mulher de 31 anos cresceu com sequelas de uma meningite adquirida aos dois meses de vida e, segundo sua família, se sente no corpo de uma criança. De acordo com os pais, que construíram uma cela na porta do quarto dela após episódios de agressão por parte dela e de abuso sexual sofrido na rua, a única solução é a internação permanente,  medida que divide especialistas.

A Polícia Civil, que chegou a instaurar um inquérito por cárcere privado, apontou que a prisão foi uma  medida extrema para evitar um mal pior à paciente. A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) criticou a  falta de apoio por parte das autoridades à família.

Pais trancaram filha com problemas mentais no quarto em Serrana, SP (Foto: Antonio Luiz/EPTV)
Pais trancaram filha com problemas mentais no quarto em Serrana, SP (Foto: Antonio Luiz/EPTV)

Segundo a administração, a mulher deverá ir diariamente à Apae, onde estará em contato com terapeutas ocupacionais e poderá participar de diferentes atividades educativas. A paciente deve ser matriculada na instituição pela própria família, informou o Executivo.

Ao mesmo tempo, deve prosseguir com medicações e tratamento no Ambulatório de Saúde Mental, além do acompanhamento de assistentes sociais. Em paralelo, os pais terão orientação psicológica.

Segundo o irmão da vítima, durante a reunião, a Promotoria ficou de marcar outro encontro para discutir os eventuais avanços da mulher após entrar na nova rotina. Para Gonçalves, as medidas não ajudarão a amenizar o drama vivido pela família e pela paciente.

Em relação à expectativa de internação, as autoridades não deram um prognóstico otimista, de acordo com ele.

"A assistente social disse que não tem nenhum lugar, que o Estado não tem nenhum lugar pra colocá-la em internação permanente e que o tratamento vai ser só com remédio mesmo", diz.

Da meningite à 'prisão'
Devido a uma meningite tratada aos dois meses de vida, a mulher cresceu com sequelas cerebrais. Até a adolescência, chegou a frequentar escolas especiais e convivia normalmente com a família, segundo os pais, mas, com o passar dos anos, começou a apresentar um comportamento mais agressivo.

Em liberdade, a mulher agia de modo imprevisível causando perigo a ela mesma e aos outros. Por um lado, a família alega que ela é capaz de arremessar um objeto qualquer em direção aos que estão próximos ou cometer furtos. Por outro, que, quando conseguia escapar, a filha tornava-se alvo de estupradores ou viajava sozinha para outros municípios e voltava somente quando estava suja e cansada.

Após recorrentes ocorrências como essas, tudo o que os pais conseguiram foi, há quatro anos, uma internação no Hospital Santa Tereza, em Ribeirão Preto, por pouco mais de um mês. A mulher recebeu alta e desde então permanece em casa com tranquilizantes que, segundo a família, não ajudam.

Os pais afirmam dizem ter consciência de que é errado mantê-la presa em casa, alegam não saber o que fazer e defendem que a única saída é uma internação permanente em um hospital capacitado, mas não têm dinheiro para isso.

Ao recorrerem ao poder público, afirmam que conseguiram somente a prescrição de uma nova medicação para a mulher tomar antes de dormir.

Fonte: g1.globo.com

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