terça-feira, 29 de maio de 2018

Um estágio para lidar com deficiências. De todos nós



Maria do Carmo (ao centro), com a estagiária Stephanie e a mãe dela, Vanda


No começo foi difícil. Alfredo de Campos Adorno, supervisor de SGP.13 (Secretaria das Comissões Extraordinárias e Temporárias), conta que precisou de longas conversas com Maria do Carmo Apelian de Oliveira, de SGA.14 (Seleção, Desenvolvimento e Avaliação de Pessoal), para saber como agir com os estudantes do Programa de Estágio para Estudantes com Deficiência Intelectual, a partir de 2011.

Segundo Alfredo, os funcionários simplesmente não sabiam como se relacionar com a estagiária que apresentava essa deficiência. Alguns a tratavam de um jeito condescendente, como se fosse uma filha, e não uma colega. Outros mostravam-se impacientes e tinham dificuldade, em alguns momentos, de reconhecer os limites apresentados pela estagiária.

Na época, o programa estava no começo e ainda era visto com resistência entre muitos funcionários da Casa. “Muitos mostraram-se preocupados e inseguros em relação à forma de como lidar com os estagiários com deficiência intelectual e de como inseri-los em seu ambiente de trabalho”, conta Maria do Carmo.

Nas conversas, ela aconselhou que Alfredo continuasse a tentar, observando a estagiária com atenção e tentando vê-la como ela realmente era. “Conversar com Maria do Carmo equivale a um treinamento”, lembra Alfredo. “Tive com ela uma análise profissional e uma visão técnica que me mostraram aspectos que desconhecia, no que diz respeito ao emocional humano, o que me possibilitou um olhar muito mais abrangente de um programa elogiável.”

A deficiência de todos

Com tempo e trabalho, a equipe foi percebendo que a estagiária tinha necessidades especiais que precisavam ser observadas, mas também podia encarar desafios e superar limites como qualquer pessoa. “Atender telefones, por exemplo. É claro que no começo ela não seria tão eficiente como outras pessoas, mas podia aprender. As pessoas tinham receio de que ela cometesse algum erro, mas entendemos que erros são inevitáveis no processo de aprendizado, além de termos uma equipe comprometida com o programa. Eventuais equívocos foram contornados” conta Alfredo. E, de erro em erro, a estagiária aprendeu o certo pela prática.

Do mesmo jeito, a equipe passou a errar menos no relacionamento com a jovem. Foi um aprendizado coletivo, que mobilizou toda a equipe. “Aprendemos a ter um olhar especial para ela, não complacente, mas objetivo”, conta Alfredo. E, o mais surpreendente, começaram a perceber que a deficiência não estava na estagiária, mas em todos os membros da equipe, os que se viam como “normais”.

“Eu comecei a ver que a deficiência estava em mim, no modo como eu me relacionava com ela. Se eu me dirigia a ela de um jeito que a feria, então eu tinha uma deficiência para me comunicar. Se eu explicava e ela não entendia, o problema era eu não saber explicar”, relata.

Foi assim que a equipe aprendeu na prática a noção, descrita na Convenção da ONU sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, de que a deficiência não faz parte de uma pessoa, como um braço ou uma perna, mas que “resulta da interação entre pessoas com deficiência e as barreiras atitudinais e ambientais que impedem sua plena e efetiva participação na sociedade em igualdade de oportunidades com as demais pessoas”.
“Apesar de dificuldades, que considerei além de razoáveis na época, eu reconheci a magnitude do trabalho desenvolvido, a importância de trabalhar de forma séria e permanente, de persistir em uma atividade para a qual, penso, a CMSP é pioneira”, afirma Alfredo.

“Foi transformador”, resume o supervisor. Transformador para as estagiárias, que aprenderam a ir além dos próprios limites e se empoderaram. E transformador para a própria equipe, que aprendeu a enxergar as próprias falhas no relacionamento daquela jovem que viam como diferente. “O grupo todo mudou depois disso”, define.

Eles não estavam mesmo preparados, isso ele reconhece. Mas ninguém poderia estar. “Ninguém pode estar preparado para isso. É algo que só se aprende fazendo”, diz.

Desafio

Expectativa e apreensão. Foi o que a implantação do Programa de Estágio para Estudantes com Deficiência Intelectual despertou. E isso em todo mundo: pais, estudantes, familiares, funcionários. Foi um desafio que a equipe de SGA.14 abraçou, sabendo que era uma briga que valia a pena.

“Eu vi que, através desse trabalho, se fosse bem feito, a gente poderia fazer diferença na vida dessas pessoas: acolhendo, orientando, treinando, preparando”, conta Maria do Carmo. “A gente tinha a proposta de incluir essas pessoas no mercado de trabalho e de também fazer com que as barreiras internas da Câmara fossem vencidas por elas.”

Logo que foi implantado, em 2011, com a criação de 15 vagas de estágio para estudantes do ensino médio com deficiência intelectual, o programa se deparou uma dificuldade: encontrar jovens regularmente matriculados em instituições reconhecidas pelo MEC (Ministério da Educação), uma exigência obrigatória para programas de estágio, mas uma condição nem sempre comum entre jovens com deficiência intelectual.

Uma parceria com o CIEE (Centro de Integração Empresa-Escola) ajudou o programa a selecionar os primeiros estagiários. Após as experiências iniciais, ficou claro que o programa precisava buscar a colaboração de quem tivesse conhecimentos específicos sobre a inclusão de pessoas com deficiência no mercado de trabalho. Colaboração que veio por meio de uma parceria com a Apae-SP, assinada em dezembro de 2012. Os objetivos eram dois: capacitar os estagiários e também os servidores da CMSP envolvidos com o projeto.

O estágio na CMSP foi a primeira oportunidade de trabalho que a estudante Stephanie Lima Ferreira, hoje com 22 anos, encontrou na vida. Ninguém sabia o que esperar da experiência. Mesmo a ideia de que a menina passaria a sair de casa todos os dias para ir a um trabalho e voltar era algo que apavorava uma parte da sua família.

“Você é louca, vai soltar sua menina no centro da cidade, se acontecer alguma coisa a gente vai te culpar a vida inteira”, era o que uma tia de Stephanie costumava dizer para a mãe da jovem, Vanda Ferreira, no início do estágio. Nos primeiros dias, a menina ainda ia e voltava com os pais. Depois, passou a fazer o percurso sozinha. “Tia, se for para acontecer, vai acontecer, entrega na mão de Deus”, Stephanie respondia.
Trabalhando nas Comissões, ela atendia aos telefones e levava documentos aos gabinetes dos vereadores. Como tem dificuldades para ler e escrever, a equipe criou uma tabela com os nomes e as fotos dos vereadores para ajudá-la a se localizar nos labirintos do Palácio Anchieta.

Divisor de águas

A experiência deixou marcas fundas na vida de Stephanie. Hoje trabalha numa escola de inglês, onde a chamam de Formiguinha, porque “está sempre fazendo coisas”. Fazer coisas, resolver problemas, ter iniciativa: ela conta que o primeiro emprego, proporcionado pela Câmara, rendeu uma autonomia que ela nunca tivera. “Se eu não tivesse vindo aqui, acho que estaria do mesmo jeito, que nem antes, dependendo da minha família para fazer tudo”, diz. E não foi só o que mudou. “Antes, eu tinha poucas amizades. Agora, tenho um monte de amigo”, conta, feliz.

A CMSP modificou a vida de outros jovens com deficiência. Foram 38 estagiários que passaram pelo programa, sendo que 15 já estão inseridos no mercado de trabalho, em empresas como Credigy, Englishtown, Socicam, Renner, Le Lis Blanc, IMC SASTE e Manserv.

No ano passado, Stephanie candidatou-se e foi eleita suplente para o Conselho Municipal da Pessoa com Deficiência. Hoje ativista, conta que a experiência do estágio mudou até sua relação com a própria deficiência: “Antes, eu tinha vergonha de falar para as pessoas”. Chegou a esconder a deficiência de um namorado. Para que ele não desconfiasse de nada, pedia que as irmãs lessem e respondessem por escrito as mensagens que ele mandava via Whatsapp, já que ela só consegue enviar áudios. Quando finalmente resolveu contar, foi aceita sem problemas e ainda descobriu que o namorado tinha um irmão com deficiência.

Até no ônibus, ela relata, um dia fez questão de dar uma lição em uma mulher que dizia lamentar o destino da filha, que, por ser deficiente visual, não poderia trabalhar. “Eu expliquei minha história para ela e falei assim: ‘eu sou conselheira e também tenho trabalho, quem falou que sua filha não pode chegar aonde cheguei?’” No Conselho Municipal da Pessoa com Deficiência, diz que já discutiu com uma pessoa que a aconselhou a não falar em público. “Eu disse para ela que falaria, sim, e completei que antes de ser deficiente, sou uma pessoa.”

“A partir do trabalho na Câmara, mudou muito, muito, muito a vida da Stephanie”, conta sua mãe, Vanda. “Foi um divisor de águas.” Curiosamente, Alfredo, o supervisor de SGP.13, usa a mesma expressão de Vanda para se referir ao impacto que o programa trouxe à sua vida profissional: “O programa foi um divisor de águas para toda a equipe”.

Como transformou as vidas de Stephanie, de Alfredo e tantos outros, o Programa de Estágio para Estudantes com Deficiência Intelectual quer ir além. O próximo passo é incluir estagiários com outros tipos de deficiência, abrindo a possibilidade de transformação para mais e mais pessoas.

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