quarta-feira, 16 de maio de 2018

‘Não desista do seu filho’, diz mãe, após mais de 40 internações de filha

                                    Créditos: Arquivo Pessoal
                                    Mirela e os filhos Melissa e Cadu

Mirela deixou a carreira de lado para se dedicar em tempo integral à filha Melissa, que tem necessidades especiais

“Em alguns momentos, achamos que não temos mais força, que é difícil demais suportar. Mas aí você olha para o seu filho lutando para viver, você reza com fé, vai se fortalecendo e, quando você vê… já passou”, diz Mirela Miranda Nobre, 38.

Formada em Turismo, Hotelaria e Inglês, esta baiana de Miguel Calmon tem dois filhos, Carlos Eduardo, 9 anos, e Melissa, 5 anos incompletos, e teve de dar uma pausa na carreira por um motivo urgente: acompanhar de perto a filha caçula, cuja rotina inclui, semanalmente, sete sessões de fisioterapia, duas de terapia ocupacional, uma de fonoaudiologia, duas aulas na Apae, além de alimentação a cada três horas e medicação das 6h às 23h.

Melissa nasceu com Síndrome de Down e uma cardiopatia congênita que faz com que ela tenha de encarar muitas cirurgias, internações e intervenções. Aos 5 meses, após o implante do marca-passo, a bebê também foi diagnosticada com paralisia cerebral.

Mirela não conhecia nada de medicina, mas como missão dada para mães é missão cumprida, resolveu aprender _ e entender _ tudo o que se passava com a menina. “Eu fiz questão de aprender tudo da área médica que envolve minha filha, desde os termos até a execução de procedimentos, como aspirar, discutir antibióticos, ler exames laboratoriais, questionar condutas. Não sou médica, mas posso dizer que de minha filha eu entendo.”

Houve vezes em que, graças a uma observação da mãe sobre a condição da filha, os médicos chegaram a decisões mais favoráveis sobre procedimentos. “Costumo falar que ela é uma faculdade de medicina completa, 
de neurologia a ortopedia tem um pouco de tudo, imunologia, cardiologia, radiologia, cirurgia, mais as terapias… Só sendo mãe de UTI para aprender tudo o que aprendi.”

               Créditos: Arquivo Pessoal
               Melissa, que é aluna da Apae de Jacobina (BA)


Não foi só isso que as necessidades da filha ensinaram a ela. “Eu aprendi a enxergar a diferença com outros olhos. A luta de uma mãe com criança especial é diferente. Abracei a inclusão, falo e exponho nossa rotina para que as pessoas vejam que crianças com necessidades especiais sorriem, comem, brincam, choram, dormem, amam e são amadas.” E completa: “Eu me tornei mais humana, mais justa, mais segura. Mel me ajuda com o olhar e o sorriso. Sei que a força dela vem de mim, não posso fraquejar”.

E Mirela não fraqueja. Bem humorada e com pensamento positivo, acaba ajudando outras pessoas na UTI ou mesmo parentes que ficam preocupados com o estado de Melissa. Desde que ela nasceu, foram mais de 40 internações, 30 transfusões de sangue, 23 pneumonias, 8 cirurgias e 3 choques sépticos. “Eu descobri minha força ainda no InCor, em 2013, quando ela fez a primeira cirurgia. Foram tempos difíceis. Procurei me espelhar em outras mães e ouvir conselhos da equipe da UTI. Um deles: não desista do seu filho. Hoje, o que mais ouço é: ‘Vocês são guerreiras, mãe e filha!’”

Ao decidir virar “doutora em Melissa”, a carreira em turismo da baiana ficou de lado. E ela não se arrepende. “Nunca. Também não confiaria essa tarefa [cuidados com a filha] a outra pessoa. Ninguém ama Mel mais do que eu, então ninguém cuidaria com tanto amor e tanta devoção. Mas sinto saudade, sim, da minha profissão, das viagens em grupo, de atender meus clientes e organizar cada detalhe da viagem deles…”

Sempre que pode, Mirela tira um tempo para cuidar também dela mesma, seja fazendo pilates, seja para encontrar as amigas ou sair sozinha com o marido





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