quarta-feira, 27 de junho de 2018

‘Amor pet’: remédio que não é vendido em farmácias, mas ajuda crianças com autismo a se socializarem

Conheça histórias de crianças autistas que mudaram de comportamento depois de terem animais de estimação na família; terapeuta afirma que socialização pode sim melhorar.

Por Juliana Gorayeb, G1 Grande Minas

Mãe do Rodrigo adotou um cãozinho para estimular comunicação dele com o mundo (Foto: Tatiana Cândida Braga/ Arquivo pessoal)
Mãe do Rodrigo adotou um cãozinho para estimular comunicação dele com o mundo (Foto: Tatiana Cândida Braga/ Arquivo pessoal)

Se você acha que crianças não podem assumir grandes responsabilidades, errou feio! A Maria Antônia é uma menina de seis anos e já tem três filhotinhos de animais sob sua responsabilidade. Tudo porque a família percebeu que a criança, que é autista, é apaixonada pelos animais e que o amor por eles poderia ajudar na socialização dela com o resto do mundo. O Rodrigo também tem uma história parecida; o garoto mudou de comportamento depois que a mãe adotou para ele uma cadelinha.

As mudanças de comportamento das crianças pós-relação com os bichinhos não é mera coincidência, conforme explica a especialista em autismo, Vanessa Saeger. A fonoaudióloga e terapeuta da família afirma já ter convivido com várias crianças no consultório em que trabalha que melhoraram a maneira de se socializarem depois de ter um cãozinho. “A criança fica mais afetiva, mais aberta. Algumas crianças, se são agressivas, podem bater no animal de início, tentar morder, mas na maioria dos casos as crianças começam a interagir. Por serem vivos e não serem totalmente obedientes, os cachorros as ensinam a interagir e afeiçoarem a noção de comunicação”, garante a terapeuta.

Vanessa Saeger explica que, ao contrário do que a maioria das pessoas pensa, a criança com autismo é afetiva, só não tem as habilidades de comunicação desenvolvidas como o restante das pessoas. Por isso, como os animais não têm expectativas em relação aos autistas, não se frustram e conseguem estabelecer vínculos.

“Todo mundo pensa que o autista não é afetivo. É um erro. Muita gente acha que criança não tem interesse social, em se relacionar. Na verdade, ela não tem habilidade, mas tem interesse. Quando você interage com humano, as pessoas tem expectativas. Tudo tem que ser do jeito do adulto, ou da criança dominante. Quando a criança faz interação com animais, o animal também se afeiçoa, sem cobrar uma resposta. A criança começa a ter percepção do animal, e ele começa a demonstrar carinho, inventar brincadeiras, e a partir disso ela está aberta a explorar mais o ambiente”, argumenta Saeger.

Para a terapeuta, é natural que a criança passe a gostar mais de passear, de ficar com bichinho, de sorrir mais. São avanços na socialização delas, observados com facilidade em muitos casos.

Paixão da Maria pelos animais

Maria Antônia tem autismo e é apaixonada por animais (Foto: Eva Adileia/ Arquivo pessoal)
Maria Antônia tem autismo e é apaixonada por animais (Foto: Eva Adileia/ Arquivo pessoal)

Assim foi com a Maria Antônia, de seis anos. Quando a menininha nasceu, a mãe dela já tinha o Tico. Foi o primeiro filhinho que ela ganhou logo que nasceu. Como a família percebeu a paixão dela pelos animais, deram a menina um peixinho, a quem ela chamou de Gilbert. A mãe da Maria Antônia não sabe de onde veio o nome, mas aceita a maneira como ela o batizou.

Maria Antônia então insistiu para que a família adotasse um filhotinho de cachorro, e a mãe dela atendeu. “Depois que descobrimos o autismo, notamos que ela é apaixonada por animais. Ela pediu muito um filhote, aí demos a Nina. Quando ela sai, a Nina sente falta. Dorme com ela no sofá, vai atrás dela no computador, então notamos que ela mudou muito depois da Nina. Passou a ter responsabilidades também, como dar comida e água. Chama a bichinha de princesa, ficou mais feliz, e nós também ficamos”, afirma Eva Adileia Ferreira, mãe da Maria Antônia.

A menina se interessa, ainda, por animais da África. Segundo a mãe, tudo chama a atenção dela. “A gente estimula porque sabe que faz bem, ela fica mais interessada. Ama animais como zebras, girafas, tudo isso. Temos certeza de que ajuda ela e automaticamente dá amor para os bichinhos, que nunca é demais”, comenta Eva.

Luna: cadelinha-ponte de aprendizados
A história do Rodrigo é bem parecida com a d Maria Antônia. O menino de seis anos, assim como a garotinha, foi descoberto com autismo pela família. Como ele tinha dificuldades em interagir, a mãe adotou a Luna. A cadelinha está há dois anos com ele e, mesmo sem ter raça, trouxe ao menino muitos avanços.

Rodrigo conversa com a Nina e ele mesmo deu o nome a cadelinha (Foto: Tatiana Cândida Braga/Arquivo pessoal)
Rodrigo conversa com a Nina e ele mesmo deu o nome a cadelinha (Foto: Tatiana Cândida Braga/Arquivo pessoal)

“A dificuldade de socialização dele diminuiu muito, ele conversa muito com ela. Tem hora que você acha que ela é uma pessoa. Parecem dois irmãos, tanto brincam quanto brigam. Quando vou acordar ele, por exemplo, ela avança, fica com ciúmes dele, e ele adora isso. Se eu brinco de dar tapa nele, ela avança, e ele morre de rir. É muito interessante a relação dos dois”, conta Tatiana Cândida Braga, mãe do Rodrigo.

O menino pediu para a mãe por dias para que adotassem a Luna. Assim como a Maria Antônia, ele mesmo escolheu o nome da cadelinha. O motivo da escolha? Um desenho animado que costumava prender a atenção do Rodrigo; agora o tempo é preenchido pela amiguinha de carne, ossos e pelos. “Desde pequenininho os dois deram certo. Nos primeiros dias ele teve medo, porque ele é quieto e ela agitada. Mas depois de uma semana, já aproximaram. Eles se completam”, afirma Tatiana.

Depois de tantos anos, a Luna até ajuda de certa forma nos cuidados do menino. Quando ele fica agitado, é à cadelinha que a família recorre. “Perto da Luna ele fica mais aberto, mais alegre. Às vezes ele fica chateado, não quer conversar, aí a gente chama atenção dela, para que brinque com ele. Ele logo esquece da chateação. Ele conversa tanto com ela que ficou mais fácil falar com as pessoas, mas mesmo assim tem dias que só quer conversa com ela”, brinca a mãe.

Amor pet é recomendação de profissionais
Vanessa Saeger conta que assim como Rodrigo e Maria Antônia, muitas crianças tiveram a maneira de perceber o mundo transformada depois de um cãozinho. Por isso, ela recomenda bichinhos de estimação para ajudar famílias.

“Já sugeri que a mãe adotasse um bichinho para a criança. Ela tinha medo porque a criança era agressiva, e eu disse: ‘você já deixou ele sozinho com um filhote?’. Ela então comprou um cachorro pequenininho, e o menino mudou muito. Parou de bater, ficou afetuoso, e o cachorro se afeiçoou muito a ele também. Quando o cachorro adoecia, ele adoecia junto. Passou a ter troca mais rica com o mundo, e eu aproveitei para introduzir o animal nas nossas terapias. Ele não jogava a bola para uma outra pessoa, mas jogava bola para o cachorro, então começamos a usar o cachorro como ponte, interlocutor”, explica.

Fonte: g1.globo.com

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