sexta-feira, 8 de junho de 2018

Lá fora: mães contam diferenças de viver com filhos autistas em outros países


Para compartilhar sua história, Nicole criou uma conta no Instagram (foto: aquivo pessoal).

O despreparo de médicos, escolas e professores ainda é um problema sério quando falamos de autismo. O caso é preocupante. Pois de acordo com os últimos dados divulgados pela Organização Mundial da Saúde (OMS), uma em cada 160 pessoas está no espectro. No Brasil, a estimativa é de que haja, pelo menos, dois milhões de habitantes com o diagnóstico.

Apesar dos avanços, ainda há muito que melhorar no tratamento e aceitação de pessoas nesta condição. Isso principalmente no país, onde tratamentos e exames têm custos extremamente altos. Além disso, a maioria dos profissionais desconhece ou pouco sabe sobre o assunto.

Conversamos com duas mães que vivem fora do país sobre as diferenças que encontraram no tratamento dos filhos.

Mãe e menina autista passeiam em Londres. Tratamentos na cidade são melhores
Cristina e Milena em passeio (foto: arquivo pessoal).

Há doze anos, Cristina criou o blog Mundo da Mi, para compartilhar as experiências com a filha autista, conversar e apoiar outros pais que receberam diagnóstico. Na época, ela vivia em Porto Alegre, mas quando o marido foi transferido a trabalho para o Reino Unido, a família se mudou.

Desde então, além de falar sobre Milena, também aproveita para descrever as diferenças que encontrou no tratamento de pessoas com autismo no Brasil e fora dele.

Já Nicole optou pelo Instagram. Por meio da conta @Dante_espectro_autista, ela e o marido relatam o dia a dia ao lado do filho, diagnosticado com Transtorno do Espectro Autista com um ano e nove meses. Fotos e vídeos também são publicados com a intenção de informar mais pessoas sobre autismo. Além de dividir com outros pais os desafios que enfrenta.

Tratamento

Atualmente, Dante faz sessões de terapia no Centro de Ação Médico-Social (CAMSP), de Grenoble. A instituição oferece tratamentos de forma gratuita para famílias e crianças de até seis anos que não apresentam desenvolvimento típico. ”

Ele faz cinco tipos de terapia por semana, com duração de 30 minutos cada uma: fonoaudiologia, psicomotricidade, psicologia, ergoterapia e Thérapie d’echange et Développment (Terapia de Troca e Desenvolvimento, em tradução livre), que é um método francês criado com objetivo maior de desenvolver na criança a capacidade de interação social”, conta Nicole.

Menino autista tem tratamentos gratuitos na França
Dante faz cinco tipos de terapia que são custeadas pelo governo francês (foto: arquivo pessoal).

O local ainda oferece assistência psicológica para pais, e conta com assistente social e diversas palestras sobre o assunto. No total, são 11 atendidos. O tempo de espera para conseguir uma vaga é um pouco longo. “Conseguimos depois de um ano”, pontua. Ela ainda relembra que, neste período, as terapias eram feitas por profissionais particulares. “A vantagem é o que o sistema de saúde na França funciona bem. Então, algumas terapias nos custavam bem menos ou nada, pois recebíamos reembolso do governo ou do plano de saúde. Acho que está aí uma grande diferença em relação ao Brasil. Na França não é necessário gastar rios de dinheiro com terapias e exames. Sem contar que existem alguns programas do governo para ajudar mães e pais de crianças com deficiência. Acho mais difícil uma pessoa ficar desamparada aqui”, afirma.

Educação

Cristina havia morado em em três estados brasileiros antes de se mudar para Londres com a família. As diferenças para ela foram significantes desde que chegou ao país.

“A cultura daqui aceita mais as diferenças e isso é fato. Londres começou com diferentes povos convivendo e até hoje aqui o diferente é comum. Tem preconceito, tem discriminação como em qualquer outro lugar em que tenha gente. Mas tem também mais espaço para o cara de cabelo verde e a senhora de noventa anos andando de patins, sem que ninguém sequer pare para reparar”

Tratamentos do autismo em Londres são superiores
Escola em Londres tem sala especial para autistas (foto: arquivo pessoal).

A escolha da escola exigiu tempo e pesquisa. Defensora da inclusão, a mãe sempre incentivou que a filha estudasse em escolas regulares no Brasil. Mas a mudança de país trazia também uma nova dificuldade para Milena: falar inglês. Se trocar o idioma já era difícil, a tarefa podia ser pior numa nova escola, com pessoas que ela não conhecia e não tinham as mesmas dificuldades.

“Consultei muitas amigas pedindo opinião. Pedi a opinião dos profissionais que trabalharam com a Milena. E, depois perguntei para a pessoa mais interessada no assunto, a própria Milena. – Filha, em Londres você vai querer estudar em uma escola especial que tem outras crianças com autismo ou uma escola em que tem crianças típicas como era na escola do Brasil? – Quero igual do Brasil, ela respondeu. Só que não vai ser igual ao Brasil filha, as crianças falam inglês, entendeu? Ela pensou um pouco e me respondeu: quero escola de autista. Perguntei mais algumas vezes de outras formas. Apenas para ter certeza e para que ela se lembrasse que fez parte da decisão”, diz.

Menina autista serve bolos em feira da escola
Milena como vendedora de bolos em uma feira local na escola (foto: arquivo pessoal).

Resultados

Escola selecionada e vaga garantida depois de alguns trâmites e pronto! Bastava esperar pelo início do ano escolar, em setembro, e levar Milena para a nova escola. A família optou por uma instituição regular, que oferecesse salas especiais para crianças autistas. Passado um tempo, perceberam o desenvolvimento da menina. Cristina ressalta que a principal diferença entre o ensino no Brasil e em Londres é a segurança que sente nos profissionais que trabalham Milena. Além disso, o fato dela estudar numa sala só com garotas autistas. Algumas no mesmo nível de dificuldade que os seus, torna muito mais fácil superar as adversidades.

“A escola já estabeleceu objetivos para daqui dez anos e dividiu este objetivo ano a ano. Por isso esse é só o começo. Há muito o que fazer, estamos o mais junto possível – escola e família – na busca do que temos para conseguir. Não, a gente não vive o paraíso das escolas no melhor modelo de educação. Mas, pelo menos, temos a certeza de que estamos em um lugar onde as pessoas sabem o que fazer”, finaliza.

Nenhum comentário: