domingo, 24 de junho de 2018

Nelson Mendes fala sobre a sua Vida Independente

Chamo-me Nelson Firmino Almeida Mendes, nasci na Guiné-Bissau e atualmente encontro-me com 37 anos de idade.


Toda a minha luta pela sobrevivência começou quando eu tinha 16 anos de idade, na altura estava no 8º ano de escolaridade, a minha Mãe encontrava-se internada no Hospital, aqui em Portugal, por causa de um problema de diabetes. Veio a falecer em Dezembro de 2004.

Éramos 6 Irmãos e também o meu Pai a viver na Guiné-Bissau. Assim que cheguei a Portugal, fui diretamente para a urgência do Hospital de São José, onde fiquei internado para fazer os exames médicos. Algumas semanas depois fui transferido para o Hospital de Curry Cabral, para ser seguido pelo Doutor Maio Miguel.

No dia 8 de Junho de 1990 fui transferido, de novo, para o Hospital de São José, onde fui operado a um tumor cervical, no dia 12 de Julho de 1990. Na altura perguntei a minha Mãe quanto tempo é que tinha demorado a minha cirurgia, ela respondeu-me que a cirurgia demorara 8 horas. Essas foram as minhas primeiras palavras quando recuperei todos os meus sentidos. Nesse momento tentei mexer as minhas pernas, mas não consegui, comecei logo a chorar e, ao mesmo tempo, perdi toda a vontade de viver.

Pensava comigo mesmo, que já não tinha um braço, passei tantas dificuldades para ultrapassar essa barreira, até o Estado Guineense me tinha proibido de concorrer a uma bolsa de estudo para Cuba, só porque sou deficiente dum dos braços, sendo esse braço o direito. Passados 6 meses fui á minha primeira consulta no Hospital de Medicina e Reabilitação de Alcoitão, através da ajuda da Enfermeira Sarafana, onde fiquei internado durante 3 meses.

Durante todo esse tempo fiquei a fazer fisioterapia e a ser seguido pelo Doutor Licínio e a sua equipa Médica. É claro que não voltei a andar de novo com as minhas próprias pernas, mas melhorei muito ao nível do tronco e da mobilidade dos membros superiores, e até já me conseguia passar da cama para a cadeira de rodas e da cadeira de rodas para a cama, sozinho, sem a ajuda de ninguém. Um dia fomos a uma consulta, eu, a minha Mãe e com a ajuda da Dona Manuela; Foi no Hospital Amadora – Sintra, fui atendido por uma Médica de nome Leonor Prates, que ficou com muita pena de mim, ao ver na posição em que me encontrava, e arranjou-me uma cama articulada com o respectivo colchão antiescara. Enviou-me para um outro Médico, que era o Professor dela, que trabalhava no Hospital Egas Moniz, mas quando fomos para lá, esse Medico deu-nos muitas desculpas para não aceitar o meu caso.

No caminho de volta parra a casa, pude ver a cara da minha Mãe, que estavam tão triste e quase chorando, sem saber o que fazer para me ajudar tentou esconder a tristeza.

Assim que chegamos a casa, a minha Mãe tirou-me as roupas e guardou-as no roupeiro e foi para o quarto dela e começou a chorar.

No dia seguinte a dona Manuela veio visitar-me, viu os meus desenhos, os mais bonitos, que eu tinha acabado de pintar, na altura, e estava preso a parede do meu quarto para secar. Ela ficou muito contente e perguntou-me se tenho mais desenhos, mas como eu tinha vergonha de mostrar todas as minhas pinturas, respondi-lhe que não. Naquela altura o meu sobrinho estava a entrar no quarto e disse:

- O tio tem mais outros desenhos dentro do roupeiro.

Quando a dona Manuela abriu a porta do guarda – roupa, caíram todos os meus desenhos por cima dela e com toda a sua paciência começou a vê-los, um a um, até ao fim. Quando foi embora ligou para um amigo dela e contou-lhe do meu caso e também sobre os meus desenhos.

Passadas duas semanas a dona Manuela veio visitar-me, mas agora trazendo um amigo, o Médico Cardiologista de nome Luís a quem me apresentou. Quando ele chegou ao pé de mim, ficou revoltado com o meu caso, de forma que entrou na minha luta pela sobrevivência. Foi falar do meu caso com um colega dele, e este tentou ajudar-me aplicando uma injecção na coluna. Esta opção correu mal e acabei por ficar em coma por algumas horas ou por um ou dois dias; também perdi a visão por vários meses, para depois começar recuperá-la aos poucos; quando voltei para a casa retomei as minhas pinturas.

Em 1998 o meu Pai faleceu com problema de pulmões.
No 2001 foi o inicio da luz ao fundo do túnel, e foi nesse ano que o Doutor Luís me apresentou um grupo de jovens que faz parte de uma Associação de nome «Associação Ponte», que viram as minhas pinturas e organizaram a minha primeira exposição de pintura plástica, intitulado de nome «Super arte» através da qual comecei a arranjar mais força para lutar.

Esta exposição era, para mim, era uma coisa nunca ante imaginada, fiquei contente por ter a coragem de mostrar os meus desenhos nessa exposição, mas ao mesmo tempo senti tristeza por tudo o que estava a acontecer comigo e pela falta que sentia do meu Pai e da minha Mãe, que naquele dia não estava lá para ver os meus trabalhos.

Esta Associação chamou as televisões; SIC, TVI e a RTP1, e para o meu espanto só apareceu a TVI e os Jornais Regionais de Sintra, que fizeram a reportagem dos meus trabalho e com os pedidos de socorro que resolvi fazer na altura para os Médicos Portugueses.

Foi nessa exposição que conheci um Jornalista que trabalha num Jornal Regional de Sintra, de nome Neves Pedro, que fez uma reportagem dos meus trabalhos, com os meus pedidos de ajuda, e resolveu ajudar-me na procura do Medico que aceitasse o meu caso.

No início do ano 2002 o senhor Neves Pedro organizou uma exposição dos meus trabalhos, na Igreja Paroquial de Rio de Mouro, e fez um pedido a vários cantores Portugueses para me ajudarem; um desses cantores é o Marco Paulo, que fez um pedido de ajuda através da televisão «TVI». Depois dessa exposição, fiz a minha matricula na escola Padre Alberto Neto, em Rio do Mouro, para concluir o mru 9º ano de escolaridade.

Hoje já posso dizer, com a graça de Deus, que estou a frequentar as aulas na Escola Padre Alberto Neto, em Rio de Mouro, e já conclui o nono ano de escolaridade no ano lectivo 2006\ 2007 e cumprir metade da promessa que fiz á minha Mãe: de que vou continuar os meus estudos e concluir o meu 9º ano de escolaridade e de concluir um corso profissional de informática, de que tanto anseio

Em 2004, acabei por publicar um livro ilustrado, com a ajuda do hospital de medicina e reabilitação do Alcoitão e da Santa Casa de Misericórdia, de titulo Roubo de peixe.

ACRESCENTO: em geral quando vou escrever sobre alguém é-me complicado, porque nunca sei se as palavras que estou a usar são as certas para passar a imagem que tenciono.

Com Nelson corro também esse risco, mas nunca por culpa dele. Pois ele é das pessoas mais transparentes que conheci. Seus olhos dizem tudo.

Pedi ao Nelson que escrevesse sobre ele. O texto acima é de sua autoria. Gostaria que para o conhecerem melhor visitem seu blogue. Caso queiram adquirir algum dos seus quadros podem contacta-lo pelo mail firminoamendes@gmail.com seria excelente para o artista Nelson Mendes.



Nelson Mendes que estão a conhecer já passou por momentos horríveis. Sabem que por exemplo já esteve 8 anos seguidos deitado numa cama sem sequer se levantar um único dia? Que para que se pudesse sentar, e assim pelo menos poder deslocar-se numa cadeira de rodas eléctrica, e não continuar a viver numa cama para sempre, foi sujeito uma complicada operação em que inclusive lhe tiveram que remover uma parte óssea?

Pois é...e como estes episódios há muitos mais. Importante no meio disto tudo é que Nelson continua de cabeça erguida, sorridente, feliz á sua maneira, cheio de força para continuar a viver, não revoltado, e sempre pronto a ajudar o próximo.

Vou contar um episódio que mostra bondade do Nelson: no Centro utentes entram... têm alta... e isto torna-se rotina. Nelson até porque está acamado e devido gravidade sua situação está internado há mais tempo. Vai vendo sair e entrar colegas todos os meses.

Portugal ao abrigo de protocolos governamentais que tem com nossas antigas colónias, dá-lhes apoio em várias áreas, neste caso recebendo doentes que lá não teriam hipótese nenhuma de um tratamento adequado, que como sabem têm sistemas saúde e equipamentos nalguns casos quase inexistentes ou mesmo inexistentes. Infelizmente alguns doentes desesperam por uma transferência para nossos hospitais sem isso nunca acontecer. Dizem que é das burocracias. Eu digo que é da inércia e maldade de algumas pessoas.

Chegou ao quarto do Nelson o Carlos (foto a seguir) um rapaz com 21 anos, Cabo Verdiano a esse abrigo. Tetraplégico, muito debilitado, dificuldades comunicação...como em geral faço com novatos fui ter com ele, apresentar-me, por-me á sua disposição, e dar-lhe força.


Soube por ele que o que mais desejaria era um mp4 para ouvir músicas da sua terra. Isto semana que tive alta. Comecei tentativa de proporcionar-lhe esse desejo. No mesmo dia no ginásio vejo-o todo sorridente com aparelho nos ouvidos. Questionei-o. Respondeu-me que tinha sido Nelson que lhe tinha emprestado. Ao falar no assunto ao Nelson disse-me que lhe tinha emprestado o dele e ficado sem.

Nelson acamado, sei que adora música, estava sempre a usá-lo. Mas preferiu ficar sem e emprestar a uma pessoa que conheceu á uns dias. Ainda me acrescentou que tinha guardados 10,00 euros para que quando pudesse andar na cadeira comprar um ao Carlos. Isto sim são gestos e acções que me enchem de felicidade e para mim vivê-las é um privilégio imenso. Isto sim dá-me força e razões para viver e acreditar num mundo melhor. Bem haja Nelson.

E sabendo eu das dificuldades que Nelson passa em termos financeiros, mais importante se torna seu gesto. Nelson confidenciou-me que quer comprar um disco externo multimédia. Para ele seria mais uma independência a nível de conteúdos. Com um simples comando comandava muita coisa. Mas como não tinha dinheiro iria começar a tentar juntar mensalmente uns tostões para quem sabe um dia poder compra-lo. Disse-me que sempre faz isso. Nunca sabe se junta quantia e quando, mas tenta.

Por tudo isto, conhecer este ser maravilhoso para mim foi uma bênção. Fico muito lisonjeado e feliz por ele se considerar também meu amigo.

Mais sobre Nelson Mendes clicando AQUI

Deixo em baixo uma amostra do seu trabalho

   

  

  
  


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