segunda-feira, 4 de junho de 2018

Xadrez: Nesse jogo, a lógica é a verdadeira visão - Veja o video.

Jeferson Lisboa Teles, presidente da FBXDV

Caso me fosse oferecida a escolha de qual sentido perder, na possibilidade de ressaltar as qualidades dos outros quatro restantes, acredito que a visão seria minha última opção - tal motivação é meramente particular. Para Jeferson Lisboa Teles, alternativas não foram dadas. Quando uma catapora atrofiou o seu nervo óptico, há 20 anos, ele deixou de enxergar. Naturalmente, percebeu uma gradativa evolução da sua sensibilidade. Intensificou, assim, seus estudos em um esporte, até então, encarado por ele como um hobby. Hoje, aos 39 anos, é o presidente da Federação Brasileira de Xadrez para Deficientes Visuais (FBXDV). Bem humorado, fez logo questão de interromper: “Calma... Isso não significa que sou um ótimo jogador. Sou, apenas, mediano”. Modesto? Talvez. Sua vaidade, no entanto, ganhou espaço em outra afirmação: “Agora... Contra ‘videntes’, tenho lá as minhas vantagens, viu?!”. O estranhamento foi imediato.

Como seria possível alguém, que não pode ver, sobressair contra outro, “vidente” (como são chamados aqueles que enxergam), em um esporte onde a visão é teoricamente necessária? “Normal a dúvida (Risos). Mas o que muita gente não sabe é que o xadrez é um dos únicos esportes que é possível, pra pessoa com deficiência, jogar de igual para igual com quem enxerga”, disse Jeferson Lisboa, que tinha uma preferência maior pelo Judô, do qual é professor. “E faixa preta, não esqueça!” Suas justificativas são simples: “Primeiro... o xadrez é um esporte que desenvolve o raciocínio lógico. Segundo... sua concentração é alterada. Por fim... Ele inclui. Não há limites para se jogar xadrez”. Inclusão. Esta palavra, inclusive, parece ter sido adicionada como uma espécie de sinônimo ao esporte. Afinal foi incansavelmente repetida pelos participantes da etapa pernambucana da Copa do Brasil de Xadrez para Deficientes Visuais, disputado no Recife, há três semanas.

O xadrez jogado por pessoas cegas não tem regras diferentes. Ao contrário de oponentes videntes, no entanto, Jeferson Lisboa lê o tabuleiro com as mãos. Cabe a seus dedos identificar os peões, torres e bispos. Adaptações também se fazem necessárias. Em vez de um tabuleiro, são usados dois. Cada movimento de peça é acompanhando também pela etapa da oralidade da jogada e ambos os adversários precisam reproduzir no seu tabuleiro o passo seguinte anunciado pelo adversário. “Isso é necessário porque, senão, seriam quatro mãos tateando em um mesmo tabuleiro. Íamos nos atrapalhar constantemente”, contou Jeferson Lisboa. Sob uma ótima mais atenta dos curiosos, é possível também reparar que as casas pretas têm altura diferente das brancas, bem como as peças de uma das cores se distinguem no tato - normalmente são ásperas. Abaixo delas, há pinos para que fiquem presas a pequenos buracos no tabuleiro. É para não cair enquanto o enxadrista faz a leitura de jogo com as mãos.

          

O professor Emiliano Piskator desembarcou na Copa do Brasil de Xadrez para Deficientes Visuais levado pelo entusiasmo.“Rapaz... Quando soube que haveria um evento de xadrez, aqui no Recife, não pensei duas vezes. Tive de prestigiar, e oferecer meus serviços.” Ao contrário de Jeferson, ele enxerga. Viu naquela situação, inclusive, uma ótima oportunidade para ensinar e aprender. Graduado em Educação Física, acumula projetos sobre o jogo de xadrez. Ensina o esporte há mais de 25 anos, faz palestras em todo Brasil.

“Eu comecei a jogar porque me sentia sozinho, quando criança. O meu primeiro tabuleiro, eu levava para a rua apenas para ser observado. Ver as pessoas olharem e exclamarem: ‘Nossa, como ele é inteligente... Sabe jogar xadrez!’ O primeiro elogio que recebi na vida foi por conta do xadrez. Eu fui incluído. Assim como todos esses atletas aqui merecem a inclusão”, disse Piskator, pouco antes de expressar a maior lição que o esporte já lhe deu. “Óbvio que vencer é bom. Mas, no xadrez, perder também significa vencer. Porque quando se perde você observa os seus próprios erros. O principal adversário é você mesmo. Então estamos em constante evolução”, afirmou. E Jeferson não o deixa mentir: “Com o xadrez a minha vida ganhou um sentido diferente. No final, o resultado é o que menos importa. De verdade”.

FOTO, VÍDEO E FONTE-Folha de PE


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