sábado, 22 de setembro de 2018

Cegos criam mostra fotográfica em Florianópolis: "Queremos retratar o mundo através das lentes".

Pedro Fonseca Do BOL, em São Paulo
Felipe Cristiano da Silva e Carla Cheirosa Antunes
Felipe Cristiano da Silva e Carla Cheirosa Antunes

Felipe Cristiano da Silva e Carla Cheirosa Antunes

O Campus da Universidade do Vale do Itajaí (Univali), em Florianópolis, recebe, até o dia 30 de setembro, a exposição fotográfica "Uma prática inclusiva de ensino de fotojornalismo".

A mostra é composta por 26 fotografias de autoria de Felipe Cristiano da Silva e Carla Cheirosa Antunes, acadêmicos de Jornalismo, cegos, que aprenderam a fotografar graças à prática inclusiva de ensino proposta por Eduardo Gomes, professor da disciplina de Fotojornalismo.

"Posso dizer que 99% do trabalho é responsabilidade do professor Eduardo pelo incentivo", conta Felipe. "Eu sempre gostei muito de fotografia, eu perdi a visão ao passar do tempo. Por conta disso, tenho noção dos ambientes, mas o Eduardo descrevia as coisas e a partir disso escolhíamos o que queríamos fotografar", completa o estudante.

Para alcançar o feito, o professor criou uma metodologia, adaptou equipamentos e acompanhou os estudantes na captação e produção das imagens que integram a exposição fotográfica.

"A ideia da metodologia surgiu quando me deparei com dois alunos cegos na disciplina e perguntei para eles como poderíamos adaptar as aulas", diz o professor Eduardo Gomes.

"Foi então que pediram para descrever em detalhes as imagens e seus sentidos. Quando chegou o momento das aulas práticas, tive a ideia de criar um relevo nos principais recursos da câmera com borrachinhas auto-colantes em tamanhos diferentes", explica o professor. "A partir do que eles queriam fotografar, eles tocavam na pessoa ou objeto, davam dois passos para trás e conseguiam fotografam em close. Depois, quando queriam fazer o corpo inteiro, contavam quatro passos. Também falava para eles sobre usar o nariz para direcionar a câmera. Com isso foi criada uma dinâmica de trabalho", completa.

A exposição é inspirada nos cães guia dos estudantes. "É uma forma de retribuir esse trabalho tão bonito que os instrutores de cães guia fazem e ao mesmo tempo seguir uma pauta confortável que faz parte da nossa realidade", explica Felipe.

"O mais incrível é que se você olha as fotos não acredita que foram feitas por pessoas cegas. Os enquadramentos estão perfeitos, no mesmo nível de fotógrafos que enxergam", diz Eduardo.

Essa já é a segunda exposição dos jovens e a ideia é tornar a mostra itinerante para deixar mais pessoas cientes de que a acessibilidade pode ser algo simples, que apenas depende da iniciativa das pessoas. "O exemplo deles de superação e perseverança comprovam que todos são capazes, basta o conhecimento ser acessível. Até fazer fotografia sendo cego é possível", completa Eduardo.

O professor e os jovens pensam em criar uma parceria com uma grande marca de câmeras para ver se é possível um equipamento mais acessível de fábrica. Além disso, pretendem desenvolver outros trabalhos e levar a experiência para jovens através de palestras motivacionais.

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