sábado, 1 de setembro de 2018

Correndo no escuro: o dia em que fui guia de um atleta cego

"Só conseguia pensar na responsabilidade, na hipótese de não conseguir proteger o corredor cego que levava amarrado em meu pulso."

Rodrigo Longatto
Turma do Grupo Terra depois do treino. O Geons é o da direita!
Turma do Grupo Terra depois do treino. O Geons é o da direita!

BORA CORRER - Thiago Contreira*

São oito e meia da manhã de um domingo gelado. Acabei de chegar correndo ao ponto de encontro em frente à saída da Estação Carandiru do metrô. Da minha casa até esse local são menos de dois quilômetros. Procuro por Rodrigo, meu cunhado.

Antes de seguir o texto, é preciso falar dele. Rodrigo é a pessoa mais generosa que conheço. Um cara que admiro profundamente. Uma confissão: queria ter a força interior que ele tem. Possuir, entre minhas características inatas, um pouco da abnegação que dele sobra. Queria poder, como ele, gastar meus poucos momentos de descanso para visitar crianças em hospitais. Incorporar um palhaço qualquer (com nariz vermelho e suspensório) e entrar de quarto em quarto, tentando arrancar um singelo sorriso de pessoas que nunca vi e, provavelmente, nunca mais verei. Queria ser assim, mas não sou. Quem sabe um dia?

Pois bem, sigamos. Alguns minutos depois encontro Rodrigo. Nos cumprimentamos e ele me diz “o pessoal já deve ter ido para o parque”. Seguimos para lá.

Lá é o interior do Parque da Juventude. O espaço onde ficava o Complexo Penitenciário do Carandiru e hoje abriga campos verdes, quadras, pistas de corrida. Ainda há algo estranho no ar. Uma áurea tenebrosa, um clima pesado. Ao andar pelo parque, não consigo deixar de pensar em tudo o que já se passou por lá: rebeliões, mortes, sofrimento, vingança… Quantas energias negativas. O que me conforta é que, ao menos agora, o lugar é dedicado ao lazer e ao esporte em uma área muito carente de opções.

Chegamos ao centro do parque, onde estão os integrantes do Grupo Terra - uma turma que trabalha para incluir os deficientes visuais em diversas atividades, especialmente o esporte. Eles reúnem-se todos os domingos para correr ou caminhar pelo parque.

Fui apresentado ao grupo. Cerca de 15 pessoas dos mais variados perfis. Logo uma das senhoras quis saber como eu era. Pediu para que eu me aproximasse dela. Levantou as mãos buscando meu rosto. Me tocou, como se procurasse algo. Narrava, à medida que descobria minhas características: “usa óculos… tem barba… parece bonito”. Abriu um sorriso ao descobrir que não tenho cabelo. Provavelmente, decepcionou-se.

Conheci o professor de educação física, Vitor Tessuti. Um voluntário que oferece seu conhecimento e talento para ajudar o próximo. Ele auxilia os participantes no aquecimento. Orienta as atividades. Também é apaixonado pela corrida. Engatamos uma conversa sobre o nosso assunto predileto.

Vitor me pergunta se já tinha sido guia. Respondo que não, mas que estava disposto a tentar. Disse a ele que estava preocupado com a responsabilidade de “ser os olhos de outro corredor” e, também, de faltar fôlego para acompanhar um atleta mais rápido do que eu.

Fiquei mais tranquilo depois de receber algumas orientações básicas e de saber que ele iria me ajudar nas primeiras voltas pelo parque.

A essa altura, entra em cena um pernambucano arretado chamado Geons. Isso mesmo, o nome dele é Geons. Perdeu a visão ainda jovem. “Com vinte e poucos anos", disse ele. Precisou reaprender a viver. Antes da escuridão, treinava forte e sonhava com as corridas de rua. “Meu objetivo era correr maratonas”, conta.

Pois bem, depois das apresentações e da nossa conversa inicial, apesar da timidez de ambos, começamos a correr. Primeiro, o professor Vitor foi como guia. Usava, para isso, uma corda fina amarrada ao seu braço direito e ao braço esquerdo de Geons.

                               Rodrigo Longatto
                                    Em ação com o Geons
                               Em ação com o Geons

“Você precisa dizer a ele tudo que vem pela frente”, tenta me explicar Vitor. “Se vamos passar por um terreno diferente, como o de paralelepípedo, você precisa avisar.” Eu seguia concentrado nas orientações de Vitor. “Tem que ficar atento às pessoas que estão vindo na direção oposta”, continuou ele. É impressionante como as pessoas que enxergam e estão passeando pelo parque não ajudam. Mesmo ao notarem que estamos correndo com um deficiente visual, não mudam o curso de suas passadas, nem um centímetro sequer. Para que ajudar, não é mesmo? Lembre-se de que estamos num domingo e, apesar do frio, o parque está movimentado. Os "obstáculos" à frente geram uma tensão.

Sobrevivemos a duas voltas no parque, cerca de 3 km, num ritmo bom - pace de 4:50. Foi aí que Vitor me perguntou: “quer conduzir o Geons pelo restante do treino?” Tensão no ar. Segundos de hesitação, mas aceitei, afinal, estava lá para ajudar. Só conseguia pensar na responsabilidade, na hipótese de não conseguir proteger o corredor cego que levava amarrado em meu pulso.

“O mais difícil é coordenar as passadas”, tenta me explicar Geons, com sua voz mansa e serena. Ele percebe meu pânico e tenta me acalmar. Reclama de maneira educada da minha falta de ritmo. “Você precisa inverter a passada, para que o movimento do seu braço seja igual ao meu”.

Tento me adequar. Preciso aprender a correr com a perna dos outros. O movimento do braço é invertido com o das pernas e isso faz eu me cansar ainda mais.

Mais 4 voltas no parque. Geons dita o ritmo e nem parece estar perto de querer parar. Alternamos momentos de conversa e de silêncio. Ele me pergunta sobre as provas que vou disputar, conto para ele que minha preferência é por correr em trilhas, em meio à natureza. Ele me revela que é massagista, que foi uma maneira de manter e utilizar as habilidades sensoriais.

Tudo vai bem, começo a relaxar. A corrida vai fluindo e esqueço do meu cansaço. Eis que, de repente, um cão solto - um Golden Retrivier - dispara saindo do gramado central do parque. O bicho invade a pista de corrida e, sem que eu pudesse ver, se enfia por entre as pernas de Geons. Vamos todos ao chão. Caímos feio e eu não pude proteger meu parceiro de corrida.

Levanto rapidamente e pergunto ao Geons se ele está bem, se está machucado. Ele responde que não, mas eu vejo que seu joelho está ralado e sangrando. Só consigo pedir desculpas a ele. Tento me justificar por não ter visto o cão. Fiquei mal.

"Como alguém deixa um cão solto no parque?" O bicho só queria brincar, mas fico indignado com os donos do animal.

Volto a perguntar a Geons se ele está bem. “Fique tranquilo, estou ótimo. Vamos voltar a correr”, ordena. Corremos por mais alguns minutos, fechando o treino em uma hora e quase doze quilômetros.

Alongamos sem tocar no assunto 'queda'. Na hora de me despedir, Geons me diz, sorrindo: “Thiago, não vá se traumatizar, hein? Venha correr mais com a gente! Foi ótimo. Obrigado!”.

Foi mesmo ótimo, Geons. Eu é que agradeço!

Se você gosta de correr e quer ajudar, apareça lá no Parque da Juventude (Estação Carandiru do Metrô) todos os domingos, às 09:00. Só procurar o pessoal do Grupo terra (camiseta vermelha) na praça central do parque.

Se você não gosta de correr, apareça por lá também! Tem sempre alguém disposto a engatar uma caminhada e uma conversa!

Thiago Contreira*
É jornalista e um apaixonado por corridas. Já participou de uma centena de provas, em diversas distâncias - no asfalto e nas montanhas. Também publica vídeos de suas aventuras no Youtube.

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