quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Festival estimula convivência entre pessoas com e sem deficiência

Cidade das Artes vai ter festa pelo dia da luta pela inclusão, mas ainda há o que melhorar em acessibilidade na região

POR LUCAS ABREU

A turma de alunos de dança cigana com Síndrome de Down da é uma das atrações do evento - Gabriel de Paiva / Agência O Globo

RIO — Amanhã é o Dia Nacional da Luta das Pessoas com Deficiência, e, se ainda há muito o que fazer pela inclusão delas, algumas iniciativas com esse objetivo já estão em curso. É o caso do festival O que Move Você, que ocupará a Cidade das Artes no domingo, e vai reunir grupos de dança, shows musicais, números de humor e samba.

Queríamos marcar a data, e a ideia veio do Caio Leitão, da escola de samba Embaixadores da Alegria — conta Bel Kutner, diretora artística da Cidade das Artes, referindo-se a um dos criadores da agremiação que reúne portadores de nanismo e pessoas com outras deficiências.

Fundada há 13 anos, a Embaixadores da Alegria desfila anualmente na Marquês de Sapucaí. Dias antes do carnaval, arrasta o público pelas ruas do Engenho de Dentro.

A Embaixadores da Alegria é uma iniciativa que transforma o carnaval em inclusão. Já beneficiou mais de 15 mil pessoas, e aproximadamente duas mil por ano se envolvem nas nossas atividades e nos desfiles — conta Caio Leitão.

Segundo ele, a ideia de fazer o festival O Que Move Você começou com a música “Faz o mundo rodar”, da banda Whipallas. A letra fala sobre motivação e desejo de ir mais longe, características que, segundo o guitarrista e vocalista Pedro Lenz, todos têm. O grupo se apresentará no evento, quando será filmado o clipe da música, sob a direção de Rogério Gomes.

O festival começará às 10h, com atividades como leituras de histórias, performances e oficinas de arte, destinadas a pessoas com e sem deficiência. Ainda estão na programação uma apresentação do humorista Gigante Leo e show do tecladista cego Luis Otávio.

O evento também terá apresentações de uma turma de dança cigana cujos integrantes são pessoas com síndrome de Down; da Pulsar, companhia de dança formada por bailarinos com e sem deficiência; e da Carioca Sobre Rodas, projeto que ensina dança de salão para cadeirantes. E uma peça de teatro com jovens atendidos pelo Instituto Priorit, especializado em atividades para crianças e adolescentes com transtorno do espectro autista. A ONG One by One, que atende crianças de baixa renda com necessidades especiais, vai comandar atividades na Sala de Leitura.

                               
O mestre-sala e a porta-bandeira da Embaixadores da Alegria - Gabriel de Paiva / Agência O Globo

Uma das grandes atrações do evento será a remontagem da exposição com dez cadeiras de rodas customizadas, a Wheelchair Parade, vista por mais de um milhão de pessoas durante a Olimpíada do Rio.

Personalidades vão ancorar as atividades: Daniele Suzuki, Paolla Oliveira, Eriberto Leão, Arnando Cezar Coelho, Marcelo Serrado e Cris Vianna confirmaram participação. O campeão paralímpico Clodoaldo Silva também estará lá, contando sua experiência.

A Embaixadores da Alegria entrará em cena no fim da tarde, para encerrar o evento com samba. À frente da bateria virá a pioneira Fernanda Honorato, primeira rainha de bateria e primeira repórter de TV com síndrome de Down do país.

A Embaixadores me abriu muitas portas, me proporcionou muitas oportunidades e autonomia — diz ela.

A advogada Lú Rufino, de 43 anos, porta-bandeira da escola, sente o mesmo: ela teve poliomelite na infância e conviveu com dificuldades motoras por toda a vida, até que, em 2014, o quadro se agravou:

Quando eu perdi o movimento da perna direita, tive que decidir o que eu queria ser, e minhas opções eram ser triste ou ser sambista. Escolhi ser feliz.

OS PERCALÇOS PARA VIVER A CIDADE

Há outros bons exemplos de inclusão na região. Um deles é o projeto Praia Para Todos, do Instituto Novo Ser, que desde 2008 disponibiliza profissionais e equipamentos para que pessoas com deficiência possam tomar banho de mar e praticar esportes nas praias da Barra e de Copacabana.

Renata e Cristiano Azevedo acham importante que o filho Heitor frequente espaços públicos - Gabriel de Paiva / Agência O Globo

Segundo Ricardo Gonzalez, criador do projeto e cadeirante, o Praia Para Todos já atendeu mais de 6.600 pessoas, mas só funciona de dezembro a abril, devido à escassez de recursos.

Gostaríamos de manter o projeto por pelo menos mais cinco meses, mas precisaríamos dobrar o nosso orçamento para isso — conta.

Tida como o mais democrático espaço de lazer dos cariocas, a praia, aliás, não é tão inclusiva, atesta o surfista e músico André Melo de Souza, cadeirante.

São pouquíssimos os acessos adequados. Eu moro em frente à praia, mas, quando quero ir para a areia, preciso da ajuda dos meus amigos — diz ele.

Souza elogia a acessibilidade dos shoppings, e diz que sua rotina ficou mais fácil com a chegada de BRT e metrô à região. Mas ainda há problemas, frisa:

As estações do BRT são acessíveis, mas o equipamento de fixação da cadeira nos ônibus está sempre quebrado. Tenho que ficar atento para viajar em segurança.

André Melo de Souza elogia a acessibilidade dos shoppings - Gabriel de Paiva / Agência O Globo

Procurado, o Consórcio BRT lembra que representa 16 empresas, cada uma com um padrão de manutenção diferente, o que, no entanto, "não é uma justificativa para que um equipamento fundamental para o exercício dos direitos das pessoas com deficiência não esteja em pleno funcionamento". Por isso, a partir do relato de Souza, promete fazer uma inspeção rigorosa nos equipamentos de fixação das cadeiras dos ônibus.

Pais de Heitor, de 6 anos, que nasceu com mielomeningocele e não tem movimento nas pernas, Renata e Cristiano Azeredo também elogiam as condições dos shoppings da região. E frisam que fazem questão de levar o menino a espaços públicos, apesar das dificuldades encontradas em muitos deles.

A gente entende que ele precisa ser visto pelas pessoas, porque só assim vão começar a pensar uma cidade com maior acessibilidade — diz Azeredo.





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