terça-feira, 16 de outubro de 2018

Alunos de Mogi se mobilizam para construir casa acessível a estudante com paralisia cerebral

Andrey Benvindo Porfírio, de 11 anos, é bolsista em um colégio particular de Mogi e despertou a solidariedade dos amigos após ele a mãe caírem da escada com mais de 15 degraus da casa onde moravam.

Por Natan Lira, G1 Mogi das Cruzes e Suzano

Amigos de Andrey resolveram ajudá-lo a conseguir dinheiro para construir casa acessível — Foto: Colégio Alma Mater/Arquivo Pessoal
Amigos de Andrey resolveram ajudá-lo a conseguir dinheiro para construir casa acessível — Foto: Colégio Alma Mater/Arquivo Pessoal

A solidariedade na vida do estudante de Mogi das Cruzes Andrey Benvindo Porfírio, de 11 anos, vítima de paralisia cerebral após uma parada cardíaca durante o parto, literalmente tem uma base sólida e é construída dia a dia.

Os alunos do colégio particular onde o jovem é bolsista iniciaram uma campanha em 2016 para construir uma casa com acessibilidade à família de Andrey. Além das doações, ele realizam eventos na escola e a o resultado é visto na construção, que atinge nos próximos dias, o ponto de laje.

A campanha começou após os alunos da escola descobrirem que a mãe de Andrey, Matilde Benvindo Porfírio, tinha de descer uma escada íngreme com ele para acessar a casa onde moravam no Jardim Layr, em Mogi das Cruzes. Mas com o crescimento dele e o aumento de peso, a rotina ficou mais difícil e, um certo dia, ele e a mãe rolaram escada abaixo.

Andrey com a mãe Matilde e o pai Ailton na construção da casa acessível no Jardim Layr, em Mogi das Cruzes.  — Foto: Natan Lira/G1
Andrey com a mãe Matilde e o pai Ailton na construção da casa acessível no Jardim Layr, em Mogi das Cruzes. — Foto: Natan Lira/G1

Desde o acidente, a mãe passou a sentá-lo na ponta da escada e descer com ele degrau por degrau, colocando primeiro uma perna, depois a outra e assim puxando ele pelo tronco. Ela conta que fazia desta forma porque, além do medo de cair de novo, os nervos do filho vêm atrofiando desde que ele convulsionou por quase uma hora em 2012.

"Na época ele já sentava sozinho, fazia vários movimentos e até estava começando a formar frases, mas ele ficou por quase uma hora convulsionando. Aí ficou por 39 dias na UTI e, depois disso, perdeu toda a evolução que tinha ganhado nos quatro anos de terapia até então", relata a mãe.

Andrey e a mãe Matilde caíram da escada íngreme da casa quando ela estava descendo com ele.  — Foto: Natan Lira/G1
Andrey e a mãe Matilde caíram da escada íngreme da casa quando ela estava descendo com ele. — Foto: Natan Lira/G1

Atualmente, com base na planta do imóvel, a escola acredita já ter sido investido na construção cerca de R$ 40 mil, sendo que R$ 25 mil provêm de dinheiro arrecadado na escola e eventos em prol da obra, e o restante veio por meio de pessoas que doaram materiais de construção.

Matilde lembra que quando buscou a oportunidade de bolsa na escola Andrey ainda era um bebê. O objetivo era que as aulas proporcionassem uma socialização a ele, já que a paralisia afetou a parte cognitiva do pequeno, mas não imaginava que no futuro ela representaria tanto na vida do filho.

"O meu filho é muito bem-acolhido. Os alunos gostam dele, tanto que não medem esforços para a casa ficar pronta", conta a mãe.

                           Tratamento possibilitou Andrey ficar sentado sozinho durante a infância, mas após convulsão ele perdeu o equilíbrio — Foto: Matilde Benvindo Porfírio/Arquivo Pessoal
Tratamento possibilitou Andrey ficar sentado sozinho durante a infância, mas após convulsão ele perdeu o equilíbrio — Foto: Matilde Benvindo Porfírio/Arquivo Pessoal

A rotina no aperto

Quando Andrey nasceu, a casa de apenas três cômodos supria as necessidades do casal e do bebê. A mãe dele lembra que o fato dele ficar a maior parte do tempo da cama e no colo, não exigia outra estrutura.

Na casa em que Andrey morava, cadeira de rodas não passava entre os beirais das portas.  — Foto: Natan Lira/G1
Na casa em que Andrey morava, cadeira de rodas não passava entre os beirais das portas. — Foto: Natan Lira/G1

"Quando ele começou a crescer e precisou da cadeira de rodas, aí a gente percebeu que era muito apertado para ele. A gente até brincava que a cadeira de rodas dele é um carro, porque ela só ficava na garagem, aqui dentro de casa não circulava", conta a mãe.

Matilde relata ainda que o maior desejo dela, como mãe, é oferecer melhor qualidade de vida ao filho. Por conta disso, não se importou de ter de mudar para dois quartinhos nos fundos da casa da mãe, onde está desde quando a construção começou, há meses.

Apesar de pequeno, quarto da antiga casa de Andrey era dividido com os pais.  — Foto: Natan Lira/G1
Apesar de pequeno, quarto da antiga casa de Andrey era dividido com os pais. — Foto: Natan Lira/G1

"Nós abrimos mão de ter outro filho para cuidar bem dele. A nossa intenção era de dar uma vida confortável a ele. Ele é a nossa alegria, a razão por estamos aqui. Nós já somos adultos, podemos nos virar com o que temos, mas ele precisa de ajuda, é 100% dependente", pontuou a mãe.

Além disso, Matilde iniciou um brechó a fim de arrecadar dinheiro para Andrey fazer um tratamento nos nervos, que estão atrofiando. "A nossa meta primeiro é conseguir terminar a casa, porque depois deste tratamento ele vai precisar de espaço para fazer as sessões de fisioterapia e para se movimentar aqui, coisa que hoje ele não tem", conta a mãe.

A ideia de ajudar
A diretora do colégio onde Andrey estuda, Dagmar Waizer Katayama, conta que todos os anos a instituição promove uma ação social a fim de envolver os alunos em questões sociais. Quando souberam do acidente de Matilde e Andrey, eles buscaram alguma forma de ajudar a família.

Segundo a diretora, a primeira ideia foi de enviar cartas para programas de TV. No dia em que foram escrever, o rapaz que iria ajudar estava junto com um arquiteto. Ciente da história, o profissional se comprometeu a fazer a planta de adequação do imóvel.

"Foi todo mundo até a casa, que fica abaixo do nível da rua e tinha 15 degraus para chegar até ela. Era inviável reformar. Então o projeto foi de reforçar a estrutura de baixo e construir outra em cima", conta a diretora.

O contato dos programas de TV não aconteceu e então os alunos decidiram fazer o trabalho social daquele ano com a família de Andrey. O processo de aprovação da planta, sem custos, durou um ano para ser aprovado pela Prefeitura. Neste meio tempo, a mobilização dos alunos continuou e só no mês de julho último as obras iniciaram.

"Eles se mobilizam muito. Tudo o que a gente propõe, eles correm atrás para ajudar. Aqui todo mundo está deslumbrado, quer ver de perto como está o andamento da obra. No dia em que a casa for inaugurada, vai ser um evento", pontua a diretora.

Consciência Social

A ideia de ajudar Andrey mobilizou muitos alunos do colégio. Entre os entusiastas está Maria Eduarda Mascarenhas Rocha, de 13 anos. Ela é filha do engenheiro de automação Wagner Teixeira Rocha, de 43 anos. Ele conta que todos os anos a filha se dedicava à ação social proposta pelo colégio, mas no caso de Andrey ela é ainda mais motivada.

"A minha filha gosta muito de tomar a frente das situações, de ajudar. Eu lembro que ela fez a visita à casa do menino para entender quais as dificuldades que ele tinha e voltou para casa com brilho nos olhos. Como é um trabalho solidário, eu vejo que ela está de um jeito diferente, com um brilho no olhar de verdade. É engraçado que a gente que é adulto não tem muito tempo para ajudar o próximo, a criança quando tem esta possibilidade de ajudar é ainda mais motivada", destacou o pai.

Wagner avalia ainda que papel de conscientizar o filho sobre as questões sociais é dos pais, mas que a orientação da escola é um incentivo muito importante na formação de sua filha. Ele destaca que esta não é a primeira vez que ela realiza este tipo de atividade na escola,

"Eu acho que é sempre bom que tenha este incentivo e conscientização de que a gente não está em um mundo sozinho, que tem outras pessoas que muitas das vezes não têm as mesmas condições e que precisam de ajuda. Quanto mais informação recebe, mais esclarecida uma pessoa é", pontuou.

Fonte: g1.globo.com

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