sexta-feira, 23 de novembro de 2018

Atores cegos estreiam peça em Fortaleza

Grupo Olho Mágico foi criado em janeiro deste ano e é formado por 17 integrantes com deficiência visual

Por Roberta Souza, G1 CE

Atores cegos estreiam peça em Fortaleza  — Foto: Natinho Rodrigues/SVM
Atores cegos estreiam peça em Fortaleza — Foto: Natinho Rodrigues/SVM

Há quatro anos, Adriana Loiola jamais imaginaria que subiria num palco para apresentar um espetáculo ao lado de várias pessoas com deficiência visual. Aceitar a perda da visão depois de adulta foi um dos processos mais difíceis para ela, que acreditava que a situação ainda poderia ser revertida com o tempo.

A possibilidade de ser muitas (personagens) em uma só, no entanto, deu-lhe novo fôlego para recomeçar. Foi assim também com os outros 16 colegas do Instituto dos Cegos, que formam junto com ela o Grupo de Teatro Olho Mágico.

Criado em janeiro de 2018 por iniciativa do médico e mágico Marcos de Queiroz Ferreira, com apoio do Instituto Vida Cidadã (IVC), o grupo estreou na manhã desta quinta-feira (22), em Fortaleza, a temporada do seu primeiro espetáculo: “Vila Paradiso”. "Os primeiros meses foram dirigidos à formação de atores e criando estratégias específicas para o ator com deficiência visual. Vila Paradiso é um mix de esquetes cômicas e dramática e dois monólogos que é compartilhado por todo o grupo, os quais têm uma abordagem pedagógica do fazer teatro", contextualiza Marcos.

Antes dessa primeira temporada, que segue até sábado (24) em cartaz no auditório do Instituto dos Cegos, os atores já haviam participado de pelo menos cinco eventos sociais nos últimos meses. Era uma espécie de ensaio público do que viria agora em novembro. Marcos, Nádia Fabrici e Lucas Duarte dividem a direção do espetáculo, que conta com esquetes de Chico Buarque, Samuel Beckett e Luis Fernando Veríssimo.

Entre os temas trabalhados por eles em "Vila Paradiso" estão situações do cotidiano de um vilarejo com uma abordagem cômica e dramática. "Há diversas performances que utilizam recursos da coreografia, do canto, nos deslocamentos em cena utilizando o piso tátil e dando uma função estética no olhar do ator com deficiência visual", destaca o médico idealizador.

Transformações
Paulo Eduardo Paes é um dos atores que caíram de paraquedas no teatro. Antes que a baixa visão lhe atingisse, aos 31 anos, ele sequer tinha ido assistir a uma peça. Apaixonado pelas artes marciais, preferiu sempre o tatame, e quase recusou o convite para participar do Grupo Olho Mágico. Mas ao dar uma chance a essa proposta, viu que tinha muito a aprender ali.

"Eu me encontrei, porque não vi só a questão da arte cênica, mas a questão da desenvoltura, da comunicação com as pessoas, de me relacionar melhor, de socializar. Com a cegueira, minha socialização foi quase a zero. O teatro me salvou, me emergiu de novo pra vida, eu tava submerso", admitiu.

Rita Tomé de Azevedo, 70, por sua vez, também compartilha a sensação de que as artes cênicas têm algo de terapêutico. "Foi a melhor coisa da minha vida ter encontrado o teatro. Faz muito bem, preenche a mente da gente, trabalha a mente da gente. Eu cheguei com uma depressão muito grande, sabe? Por sinal eu tomo remédio controlado. Só que hoje, graças a Deus, por conta disso aqui, eu não tenho mais necessidade de tomar. Uma vez na vida eu tô com uma preocupação. Mas isso aqui é outra vida. E não ver o público não interfere em nada, viu?", garante.

O diretor, Marcos, procura reforçar que "as pessoas com alguma deficiência não são seres humanos deficientes". Segundo ele, os que perdem a visão ao longo da vida precisam de apoio, meios de aprendizagem para adaptarem-se à nova situação e um olhar da sociedade, sobretudo dos gestores em executar as políticas públicas. "Esse é o nosso papel enquanto sociedade civil. O retorno que recebemos é o exemplo de superação, pois a vida continua e a nossa missão aqui se faz por novos caminhos", conclui.

Serviço
  • Temporada de estreia do espetáculo "Vila Paradiso"

  • Em cartaz dias 22/11 (9h30); 23/11 (15h); e 24/11 (19h e 20h30)

  • Local: Auditório do Instituto dos Cegos (Av. Bezerra de Menezes, 892, bairro São Gerardo, Fortaleza)

  • Ingressos: R$ 10 (vendidos antecipadamente na coordenação da Escola do Instituto dos Cegos ou na entrada do teatro)


Fonte: g1.globo.com

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