domingo, 23 de dezembro de 2018

Clínica oferece massagens feitas apenas por deficientes visuais

A Serenidade do Toque também promove treinamentos para capacitação de cegos e mantém um ambulatório social, com preços acessíveis

Deborah Bresser, do R7

Edu Garcia/R7

Os olhos de quem não enxerga são as mãos. É no tato e no toque que o deficiente visual sente os formatos e as texturas do mundo ao seu redor. E são as mãos que abrem, para muitos cegos, a chance de recomeçar ao descobrir uma nova carreira com a formação em massoterapia.

A Serenidade do Toque é uma clínica na qual todos os massagistas são cegos e também oferece, em seu laboratório social, cursos de formação, reciclagem e treinamento. Ali, os novatos têm a chance de treinar, e a clientela ganha a oportunidade de se cuidar, por um preço camarada.

"A massagem me tirou da penumbra", diz Ricardo Martus Neves Silva, hoje com 32 anos, cego desde os 26 por conta de uma retinopatia diabética. Como sua perda de visão foi gradativa, Ricardo conta que foi se adaptando aos poucos.

Ele dava aulas de violão e tentou focar na música quando a visão se foi. Mas com ela foi-se também a fé e a esperança. Ricardo ficou dois anos em depressão. Até que achou o curso e, segundo ele, se redescobriu.

Quando faço a massagem em alguém é como se tivesse recebendo também. A massagem me tirou de casa, me mostrou que sou capaz e hoje já tenho minha maca e estou formando uma clientela. Eu hoje sei quem é o Ricardo cego: eu sou massoterapeuta.

Alice Kuhl toca o negócio ao lado de dois sócios, Cícero Mesquita e Minoru Nagahashi, e explica que não se trata de uma ONG ou algo do gênero. A Serenidade do Toque é uma empresa de negócio social, que trabalha na capacitação de pessoas com deficiência visual de forma a criar uma possibilidade real de gerar renda e autonomia financeira.

Um novo emprego, uma nova profissão

A Serenidade também ajuda a buscar soluções de empregabilidade. Dos mais de 600 cegos que já passaram pelos cursos de massagens nos últimos 12 anos, pelo menos 80% conseguiram uma recolocação no mercado de trabalho.

"Levamos nossos massagistas para eventos e empresas e o impacto é muito positivo. É comum saírem dessas participações com propostas de emprego", relata Alice.

Edu Garcia/R7
Cursos capacitam para massagem clássica, quick e reflexologia
Cursos capacitam para massagem clássica, quick e reflexologia

Isaias Evangelista Brito, de 43 anos, por exemplo, está participando de um processo seletivo.

Com baixa visão, Isaias perdeu 80% da capacidade visual após sofrer um trauma emocional pela morte da filha.

Ele era dono de uma transportadora e estava nas etapas finais para tirar brevê e pilotar aviões quando tudo aconteceu.

A revolta, a depressão, o luto e a depressão roubaram dois anos de sua vida. Até que Isaias foi se capacitar para viver com sua limitação.

"Fui aprender braile e buscar outros conhecimentos no Instituto Laramara. Eu já aplicava massagens, mas de forma amadora, sem técnica. Com a deficiência a gente desenvolve outros sentidos, e na massagem é possível sentir as pessoas, eu tenho amor pelo trabalho, me sinto capaz, é um resgate emocional", analisa Isaias.

Ele, que já tinha feito a formação em quick massage, agora também tem a certificação em massagem clássica.

Para que os alunos treinem e se aprimorem, a Serenidade do Toque mantém o Laboratório Social, onde os cursos são ministrados e é possível fazer massagem a preços mais em conta do que na clínica. O local funciona em uma casa na Vila Mariana (rua Timburiba, 88), pertinho do metrô Santa Cruz, de segunda a sexta-feira, das 9h às 18h.

Uma quick massagem de 15 minutos lá custa R$ 10, a reflexologia de 40 minutos sai por R$ 20, e uma hora da massagem clássica, R$ 50. Mais do que um investimento no bem-estar, fazer uma massagem ali é a certeza de estar colaborando com a mudança de muitas vidas.

Confira, na galeria, outros relatos de alunos que participaram dos cursos na Serenidade do Toque e se encontraram como massagistas cegos.

Foto: Edu Garcia/R7
A deficiência visual, na grande maioria das vezes, surge ao longo da vida, e buscar uma recolocação profissional torna-se mais um desafio entre tantos enfrentados com essa nova realidade. Foi o caso de Maria de Lourdes de Araújo, de 41 anos, que nasceu com uma miopia severa e foi evoluindo para a degeneração macular. 'Minha deficiência foi se tornando cada vez mais severa. Eu tinha um trabalho comum, mas tive de buscar uma outra alternativa.  E a massagem se tornou essa alternativa', conta Lourdes, que fez sua formação na Serenidade do Toque. O espaço atua para dar aos cegos a oportunidade de adquirir uma nova identidade profissional, como explica Alice Kuhl, uma das sócias da empresa. A capacitação anda de mãos dadas com a empregabilidade e a geração de renda, dando aos deficientes visuais uma oportunidade real de autonomia  

A deficiência visual, na grande maioria das vezes, surge ao longo da vida, e buscar uma recolocação profissional torna-se mais um desafio entre tantos enfrentados com essa nova realidade. Foi o caso de Maria de Lourdes de Araújo, de 41 anos, que nasceu com uma miopia severa e foi evoluindo para a degeneração macular.

"Minha deficiência foi se tornando cada vez mais severa. Eu tinha um trabalho comum, mas tive de buscar uma outra alternativa. E a massagem se tornou essa alternativa", conta Lourdes, que fez sua formação na Serenidade do Toque.

O espaço atua para dar aos cegos a oportunidade de adquirir uma nova identidade profissional, como explica Alice Kuhl, uma das sócias da empresa. A capacitação anda de mãos dadas com a empregabilidade e a geração de renda, dando aos deficientes visuais uma oportunidade real de autonomia

Foto: Edu Garcia/R7
Para Maria de Lourdes, o curso de massagem foi um modo de viver mais uma vez e ser feliz de novo. 'Tive oportunidade de desenvolver na Serenidade do Toque minha parte de coordenação e como monitora. Hoje é gratificante poder orientar pessoas que estavam no mesmo patamar que eu a encontrar essa alegria de viver' 

Para Maria de Lourdes, o curso de massagem foi um modo de viver mais uma vez e ser feliz de novo. "Tive oportunidade de desenvolver na Serenidade do Toque minha parte de coordenação e como monitora. Hoje é gratificante poder orientar pessoas que estavam no mesmo patamar que eu a encontrar essa alegria de viver"

Foto: Edu Garcia/R7
A empresa leva seus massagistas para participar de eventos e ações em empresas, atividades que geram renda e ampliam a visibilidade do trabalho realizado pela Serenidade do Toque 

A empresa leva seus massagistas para participar de eventos e ações em empresas, atividades que geram renda e ampliam a visibilidade do trabalho realizado pela Serenidade do Toque

Foto: Edu Garcia/R7
Quem passa pelos cursos pode atuar no Ambulatório Social, onde os recém-formados treinam e se aprimoram. A Serenidade do Toque também possui uma clínica, na qual ficam profissionais mais experientes. Os serviços oferecidos são mesmos, como quick massage, reflexologia podal e massagem clássica, mas no ambulatório os preços são mais acessíveis

Quem passa pelos cursos pode atuar no Ambulatório Social, onde os recém-formados treinam e se aprimoram. A Serenidade do Toque também possui uma clínica, na qual ficam profissionais mais experientes. Os serviços oferecidos são mesmos, como quick massage, reflexologia podal e massagem clássica, mas no ambulatório os preços são mais acessíveis.

Foto: Edu Garcia/R7
Muitos alunos, como Cida Oliveira, de 40 anos, retornam aos cursos para ampliar o repertório. Cida participou de uma turma de quick massagem, mas voltou para aprender a massagem clássica. Como muitos, a ex-cuidadora tem uma história tocante e encontrou na massagem um novo caminho.'Eu fico muito feliz por saber que sou capaz, cega ou não, eu sou capaz. Eu amo a massagem', diz. Cida sofreu um descolamento de retina quando estava grávida de 7 meses de seu segundo filho. Em um primeiro momento, ficou com baixa visão, mas se recusava a aceitar a deficiência. 'Não queria usar bengala, quebrei pé, quebrei dente, sofri vários acidentes', lembra. Passada a negação, a revolta e o que ela chama de 'luto', decidiu procurar instituições de apoio a deficientes visuais e chegou ao curso da Serenidade do Toque. 'Quem recebe a massagem elogia, diz que tenho as mãos abençoadas, outro falou que escutou até o mar', diz

Nos 12 anos de atuação da Suavidade do Toque, já foram formados 680 massagistas deficientes visuais

Foto: Edu Garcia/R7
Muitos alunos, como Cida Oliveira, de 40 anos, retornam aos cursos para ampliar o repertório. Cida participou de uma turma de quick massagem, mas voltou para aprender a massagem clássica. Como muitos, a ex-cuidadora tem uma história tocante e encontrou na massagem um novo caminho.'Eu fico muito feliz por saber que sou capaz, cega ou não, eu sou capaz. Eu amo a massagem', diz. Cida sofreu um descolamento de retina quando estava grávida de 7 meses de seu segundo filho. Em um primeiro momento, ficou com baixa visão, mas se recusava a aceitar a deficiência. 'Não queria usar bengala, quebrei pé, quebrei dente, sofri vários acidentes', lembra. Passada a negação, a revolta e o que ela chama de 'luto', decidiu procurar instituições de apoio a deficientes visuais e chegou ao curso da Serenidade do Toque. 'Quem recebe a massagem elogia, diz que tenho as mãos abençoadas, outro falou que escutou até o mar', diz

Muitos alunos, como Cida Oliveira, de 40 anos, retornam aos cursos para ampliar o repertório. Cida participou de uma turma de quick massagem, mas voltou para aprender a massagem clássica. Como muitos, a ex-cuidadora tem uma história tocante e encontrou na massagem um novo caminho.

"Eu fico muito feliz por saber que sou capaz, cega ou não, eu sou capaz. Eu amo a massagem", diz. Cida sofreu um descolamento de retina quando estava grávida de 7 meses de seu segundo filho. Em um primeiro momento, ficou com baixa visão, mas se recusava a aceitar a deficiência. 

"Não queria usar bengala, quebrei pé, quebrei dente, sofri vários acidentes", lembra. Passada a negação, a revolta e o que ela chama de 'luto', decidiu procurar instituições de apoio a deficientes visuais e chegou ao curso da Serenidade do Toque. 

"Quem recebe a massagem elogia, diz que tenho as mãos abençoadas, outro falou que escutou até o mar", diz



Foto: Edu Garcia/R7
Erlaine, de 44 anos, também ficou deficiente visual por causa de um descolamento de retina, há 4 anos. 'Tive de buscar uma nova profissão, me identifiquei bastante com a massagem, estou adorando minha nova profissão', revela 

Erlaine, de 44 anos, também ficou deficiente visual por causa de um descolamento de retina, há 4 anos. "Tive de buscar uma nova profissão, me identifiquei bastante com a massagem, estou adorando minha nova profissão", revela

Foto: Edu Garcia/R7
Aos 25 anos, Keylane Rocha dos Santos é deficiente visual desde o nascimento. Ela procurou o Instituto Laramara para buscar uma orientação. 'Me redescobri e estou amando fazer massagem. A Serenidade do Toque me deu oportunidade de fazer estágio aqui e estou amando', conta 

Aos 25 anos, Keylane Rocha dos Santos é deficiente visual desde o nascimento. Ela procurou o Instituto Laramara para buscar uma orientação. "Me redescobri e estou amando fazer massagem. A Serenidade do Toque me deu oportunidade de fazer estágio aqui e estou amando", conta

Foto: Edu Garcia/R7
Fernanda, de 30 anos, também é cega de nascença, por conta de uma toxoplasmose que sua mãe teve na gestação. A massagem entrou na sua vida para nunca mais sair. 'Me descobri por amor, me encontrei na massagem, é o que eu realmente gosto de fazer'  

Fernanda, de 30 anos, também é cega de nascença, por conta de uma toxoplasmose que sua mãe teve na gestação. A massagem entrou na sua vida para nunca mais sair. "Me descobri por amor, me encontrei na massagem, é o que eu realmente gosto de fazer"


Foto: Edu Garcia/R7
Nelson Rodoveri Cuca, de 44 anos, participou do curso como aluno e cobaia. Ele conta que não era cego e tinha uma carreira como atleta e fazia muita massagem, mas com profissionais  videntes. 'Tenho limitação visual há 14 anos e utilizo dos serviços da Serenidade do Toque. É muito diferente o toque da pessoa com deficiência visual, são os sentidos remanescentes mais aguçados, e as mãos promovem uma grande troca entre o terapeuta e a pessoa que está sendo assistida', analisa 

Nelson Rodoveri Cuca, de 44 anos, participou do curso como aluno e cobaia. Ele conta que não era cego e tinha uma carreira como atleta e fazia muita massagem, mas com profissionais videntes.

"Tenho limitação visual há 14 anos e utilizo dos serviços da Serenidade do Toque. É muito diferente o toque da pessoa com deficiência visual, são os sentidos remanescentes mais aguçados, e as mãos promovem uma grande troca entre o terapeuta e a pessoa que está sendo assistida", analisa

Foto: Edu Garcia/R7
Os formandos dos cursos de massagem da Serenidade do Toque trabalham, na maior parte das vezes, como autônomos e saem prontos para atuar em qualquer clínica ou empresa  

Os formandos dos cursos de massagem da Serenidade do Toque trabalham, na maior parte das vezes, como autônomos e saem prontos para atuar em qualquer clínica ou empresa


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