quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

Paraplégicos usam próprias pernas para pedalar em tecnologia desenvolvida por professor da UnB - Veja os vídeos

Projeto de reabilitação dá autonomia e melhora saúde, diz idealizador. Veja como funciona.

Por Maíra Alves* - *Sob supervisão de Maria Helena Martinho, G1 DF

O paratleta e advogado brasiliense Estevão Lopes — Foto: Maíra Alves/G1
O paratleta e advogado brasiliense Estevão Lopes — Foto: Maíra Alves/G1

Em março de 2012, Estevão Lopes saía do aniversário de um amigo quando foi atingido por uma bala perdida. Logo recebeu a notícia: uma lesão medular causada pelo disparo o deixou paraplégico. "A partir daí, eu percebi que precisaria me reinventar", diz o advogado.

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Desde aquele dia no Riacho Fundo, região administrativa do Distrito Federal, tudo mudou na vida de Estevão, então com 34 anos. O advogado iniciou carreira também como atleta paralímpico e se tornou voluntário de um projeto conhecido como EMA Trike – "Empowering Mobility and Autonomy", ou, em bom português, "Empoderando mobilidade e autonomia".

Idealizador da escola de canoagem e paracanoagem Capital do Remo, Estevão se deparou com o EMA Trike pela primeira vez há quatro anos, graças à fisioterapeuta com a qual fazia acompanhamento. "Ela estava precisando de pessoas que se adaptassem a esse novo conceito de pedalar com eletroestimulação", conta.

Equipe EMA Trike nas olimpíadas biônicas Cybathlon, em 2016, na Suíça.  — Foto: EMA Trike/Divulgação
Equipe EMA Trike nas olimpíadas biônicas Cybathlon, em 2016, na Suíça. — Foto: EMA Trike/Divulgação

Conduzido por pesquisadores da Universidade de Brasília (UnB), o EMA Trike contribui para a reabilitação de pessoas que perderam o movimento das pernas. Para isso, usa a tecnologia que une a Estimulação Elétrica Funcional (EEF) – eletroestimulação – ao triciclo e permite que cadeirantes pedalem com as próprias pernas.

“No começo, eu não aceitei. Fui procurado várias vezes, mas sempre pensei que fosse uma coisa que não daria certo, balela.”

O voluntário relata que, ao experimentar a eletroestimulação pela primeira vez, logo se "apaixonou". "Com o passar do tempo, me tornei totalmente adepto da tecnologia", afirma.

“Pedalar com as minhas próprias pernas é surreal, é fantástico. Eu sou um cadeirante e pedalo com as pernas.”

Como surgiu

O EMA Trike nasceu a partir do desejo de Antonio Lanari Bo, professor de engenharia elétrica da UnB, em representar o Brasil na primeira edição da olimpíada biônica Cybathlon – competição internacional para pessoas com deficiência alinhada ao uso da tecnologia. O evento ocorreu em 2016, na Suíça.

"Com oito meses de treino, eu cheguei à final da competição. Resultado inédito para o Brasil. Isso fechou com chave de ouro uma etapa do projeto", celebra Estevão.

O circuito disputado pelo advogado tinha uma pista oval na qual os paratletas precisavam pedalar por uma distância de 1km. Na época, as maiores empresas de tecnologia do mundo participaram da prova na categoria FES Bike Race.

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Participação da equipe EMA Trike na olimpíada biônica Cybathlon, em 2016

O professor mobilizou um grupo de 15 pessoas para dar início à pesquisa, entre elas engenheiros e estudantes da área de saúde da Universidade de Brasília.

Ao explicar ao G1 como a tecnologia 100% brasiliense funciona, Antonio ressalta que o principal obstáculo que impede a comercialização do eletroestimulador é regulatório. "Esse tipo de equipamento precisa da autorização da Anvisa", pontua.

"Ou viramos uma empresa ou vendemos [a tecnologia] para uma."

Atualmente, a única maneira de um interessado ter acesso à tecnologia é se inscrevendo no projeto – que, por falta de recursos, é mantido com dificuldade. Contudo, Lanari Bo afirma que o próximo passo será tornar o produto comercializável para clínicas e hospitais.

Como funciona?

Integrante do Instituto de Engenheiros Eletricistas e Eletrônicos – maior organização profissional do mundo dedicada ao avanço da tecnologia com impacto social –, Antonio Lanari Bo explica que o sistema nervoso tem uma natureza elétrica. "Se levarmos um choque na tomada, há contração involuntária dos músculos", exemplifica.

O professor e a equipe, então, desenvolveram um triciclo para que fosse possível determinar com precisão quanto estímulo elétrico seria necessário para a realização de uma pedalada.

No próximo passo, agora com os voluntários paraplégicos, eletrodos superficiais foram colocados sob a pele nos membros afetados pela lesão. Esses eletrodos emitem impulsos elétricos de baixa energia, e eles proporcionam o movimento dos músculos das pernas.

Triciclo desenvolvido pelos pesquisadores da Universidade de Brasília envolvidos no projeto EMA Trike — Foto: EMA Trike/Divulgação
Triciclo desenvolvido pelos pesquisadores da Universidade de Brasília envolvidos no projeto EMA Trike — Foto: EMA Trike/Divulgação

"Colocamos sensores no triciclo que medem, em tempo real, várias vezes por segundo, a resposta do atleta ao veículo. Com base nas informações que recebemos, ajustamos os estímulos elétricos emitidos pelos eletrodos. E a tensão, então, atinge o nervo e provoca a contração", explica o professor.

“Não damos um choque, apenas conversamos com o nervo que contrai o músculo.”

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Treino do para-atleta Estevão Lopes utilizando a eletroestimulação

Além do triciclo, a equipe do EMA Trike começou a trabalhar há cerca de um ano na execução de testes que utilizam a estimulação elétrica simulando o movimento do remo indoor.

Benefícios

A tecnologia, de acordo com os pesquisadores, é capaz de proporcionar autonomia às pessoas com paraplegia e, por isso, traz benefícios à saúde. Alguns dos ganhos são:
  • Aumento de massa muscular

  • Auxílio na circulação do sangue nos membros lesionados

  • Melhora na temperatura corporal

  • Melhora na qualidade óssea

  • Melhora da autoestima

Além do aumento na qualidade de vida, a eletroestimulação, de acordo Antonio Lanari Bo, também incentiva o lazer e a interação social dos voluntários com lesão medular.

Tecnologia acessível

Estevão Lopes ganhou 18 centímetros de músculos nas pernas por causa da estimulação elétrica. "Hoje, minha panturrilha é normal. Ganhei tanto músculo que as minhas calças de antes da lesão não servem mais", conta.

O desejo do advogado, hoje, é que a tecnologia se torne acessível a todos os paraplégicos.

“Para mim, quando a pessoa sofre uma lesão medular, no mesmo momento ela já deveria ter uma cadeira de rodas e um eletroestimulador.”

Equipe de pesquisadores do projeto EMA trike, da Universidade de Brasília — Foto: EMA Trike/Divulgação
Equipe de pesquisadores do projeto EMA trike, da Universidade de Brasília — Foto: EMA Trike/Divulgação

Agora, Lanari Bo pretende expandir a tecnologia para o uso em pessoas que sofreram de acidente vascular cerebral (AVC) ou para aquelas que já nasceram com algum tipo de deficiência.

"Estamos trabalhando para que essas pessoas voltem a ter domínio dos músculos que perderam o controle, como os músculos que possibilitam a evacuação, por exemplo", afirma.

Fonte: g1.globo.com



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